Nenhum homem é estrangeiro

O polícia que fuzilou o Kuku foi absolvido. Não sou negro e, por muito que tenha lido Frantz Fanon, não sinto as dores dos que o são como minhas. Não porque não tenha sido desde sempre anti-racista, condição inexorável dos que abraçam a justa causa da democracia e do socialismo, mas, simplesmente, porque é impossível. Eu cresci ao lado dos filhos de quem trocou África pela Europa em busca de uma vida melhor. Não foram poucas as vezes que os visitei e às suas famílias nos bairros de Santa Filomena e da Cova da Moura. Apercebi-me desde cedo que os seus pais trabalhavam como os meus. Mas recebiam pior. Era a única razão para que na Amadora houvesse gente que vivia e vive tão mal como os que habitam as favelas do Rio de Janeiro e de Caracas.

Também me contaram o que sente o negro quando sai do bairro. O que sente o negro quando viaja de comboio para Lisboa e atravessa as ruas da capital sob o olhar desconfiado da polícia, dos comerciantes e dos transeuntes. Talvez seja como o operário que se apanha, de súbito, num jantar de gala na Quinta da Marinha. Sente-se observado e alvo de chacota. Porque não sabe usar talheres que nunca viu. Porque não sabe comer pratos que nunca saboreou. O que mais se aproxima do que sente o negro na baixa lisboeta é o que sente o branco nos becos da Cova da Moura. Aproxima-se porque não é igual. Ali, apesar de nos sentirmos estrangeiros, o olhar desconfiado de quem nos observa não transmite medo. É o impulso natural de quem nos identifica, por momentos, com os que sempre oprimiram os negros. Até perceber que um careca de estéticaskinhead não é nazi também as minhas pupilas se mantêm em alerta. Muitos brancos sentem medo quando vêem um negro e talvez escondam a carteira. Mas as carteiras dos negros não se preocupam com os brancos.

Na Cova da Moura, um branco desconhecido pode ser um bófia e é isso que os mantém alerta. A generalidade dos brancos não sabe o que é ter a casa invadida pela polícia a meio da noite, o que é acordar com os disparos indiscriminados das forças especiais e o que é ter uma boa parte dos amigos e familiares na prisão. Certamente, o ódio gera ódio e quando se sente que se vive em guerra, sitiado num bairro que não é mais do que uma ilha, devemos interrogar-nos se o à vontade com que estes jovens falam sobre os que estão presos e o orgulho que se tem dos que se batem com a polícia não terá antes a ver com os mesmos que tornam a vida de todos os trabalhadores num inferno. A polícia não faz outra coisa que cumprir ordens mas, ali, quando o faz cumpre-as com toda a sua brutalidade. E são, de facto, para esta gente, o braço armado de um Estado que os confina à miséria.

Quando, há uns anos, a propósito da Cimeira da NATO, o Estado anunciou que ia comprar blindados, os que vivem nos bairros já sabiam que objectivos iam servir. Os blindados não chegaram a tempo do encontro mas chegaram a tempo de invadir a Amadora. Nesta terra, como noutras, dispara-se primeiro e pergunta-se depois. O polícia que matou o Kuku com uma bala de 9 mm a onze centímetros da cabeça foi hoje absolvido como os que mataram o PTB, Tete, o Corvo e o Angoi. Claro que há negros criminosos como há brancos criminosos. Há-os ladrões e há-os traficantes. Não têm colarinho branco e não vêem as suas dívidas nacionalizadas. Mas há, principalmente, inocentes. E se o crime não iliba os que o cometem, a culpa deveria, pelo menos, não dar sequer azo à violência policial. Para a comunicação social, nos bairros não há inocentes e a vida dos criminosos, verdadeiros ou não, vale menos. O Estado ordena, os jornais apontam e a polícia dispara.

Não tenho quaisquer dúvidas de que a polícia não é mais do que um mero peão e de que a maioria dos negros, como a maioria dos brancos – trabalhadores, portanto – têm de ganhar consciência social e política para derrotar as raízes da injustiça social. E essa encontra-se na sede dos bancos e das grandes empresas. Não é por acaso que o rap é o género musical mais progressista dos tempos que vivemos. É a arte dos que vivem à margem. É o neo-realismo do século XXI. De todos os momentos que partilhei com colegas estudantes de todas as cores há um momento que não esqueço. Quando, há uns anos, um grupo nazi anunciou um encontro na Amadora e ameaçou visitar algumas escolas, juntámo-nos e esperámo-los com paus e pedras. E aí nenhum de nós sentiu o outro como estrangeiro.

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