o estado a que chegámos [ texto de Sara Figueiredo Costa ]

O texto é grande, mas tinha de ser.

Não tenho vontade nenhuma de discutir as pedras. E não tenho vontade nenhuma de discutir as pedras porque não posso tolerar que sirvam de argumento para o que se passou ontem em S. Bento, nas ruas adjacentes, no Cais do Sodré. Discutamos as pedras mais tarde – e discutamos também a quantidade (e a visibilidade) de polícias à paisana, o mistério que pode explicar a incapacidade de a polícia resolver um distúrbio localizado (como já fez noutras manifestações, recentes, sem espancar a eito tudo o que mexia), o modo de nos continuarmos a manifestar todos juntos, etc, etc, etc. O que não é aceitável é pensar que as pedras sejam uma justificação para a polícia de choque varrer indiscriminadamente o Largo de São Bento, perseguir as pessoas pelas ruas à volta e andar a caçar manifestantes pelo Cais do Sodré. Quem esteve em S. Bento ontem viu bem que, na linha da frente da manifestação, algumas pessoas atiravam calhaus contra os escudos da polícia, e que puderam fazer isto durante muito tempo. Quem lá esteve também viu como de repente a polícia avançou em bloco, sem nenhuma intenção de cercar quem a apedrejava, sem nenhum gesto que mostrasse que estavam a tentar deter os autores das pedradas; a polícia avançou para carregar indiscriminadamente, e fê-lo porque tinha ordens para limpar o perímetro (talvez porque havia gente na Assembleia da República? É uma pergunta, não uma afirmação disfarçada) e tinha carta branca para arrasar tudo. É importante que se perceba isso: a polícia obedece a ordens, não decide sozinha que vai espancar todas as pessoas, novas ou velhas, que lhe aparecerem à frente (e isto não é uma forma de desculpabilizar a polícia; é só para não nos esquecermos de onde vêm as ordens). E quem lá esteve viu o resto: as bastonadas cegas, as pessoas apanhadas, deitadas no chão e espancadas sem apelo nem agravo, as mãos no ar com pedidos de ‘parem com isso, não fizemos nada de mal’ a terem como resposta mais bastonadas, e depois a perseguição. Não sei como foi na Rua de S. Bento, na Calçada da Estrela e na rua que vai dar ao ISEG, porque eu fugi pela D. Carlos I. Aí, pude ver as sucessivas investidas da polícia de choque, empurrando toda a gente, obrigando-nos a correr como se tivéssemos cometido algum crime, mas sobretudo como se fossemos peões de um jogo, um daqueles jogos onde manda o menino que tem a bola – corram, porque nós não vamos parar, e corram muito, porque depois de os termos espalhado ainda vos vamos caçar. Foi isto que aconteceu depois. Não me contaram, eu vi. E vi porque fiquei pela D. Carlos I, tentando perceber se a polícia ia recuar, se ainda teríamos força para nos reagruparmos, se poderíamos voltar a juntar vozes contra o medo. Fiquei também para tentar perceber onde estava um amigo que tinha ficado para trás, e depois fiquei porque falei com ele e soube que tinha a cabeça partida e que estava no quartel dos bombeiros a meio da rua. Não pude ficar muito tempo no mesmo lugar, porque a caça tinha começado. Algumas pessoas pegavam fogo a caixotes do lixo, a maioria tentava perceber se era seguro continuar na rua ou se a polícia iria continuar a perseguição. Quando soube que o meu amigo já estava numa ambulância a caminho do Egas Moniz, decidi sair dali. E quando estava a chegar à 24 de Julho, a polícia voltou a avançar, as pessoas que por ali estavam desataram a fugir e a notícia das balas de borracha chegou num instantinho, obrigando toda a gente a correr, incluindo muitas pessoas que passavam pela 24 de Junho sem virem da manifestação (provavelmente, algumas dessas pessoas foram as que deram com os costados nos calabouços de Monsanto passado pouco tempo, sem saberem porquê nem como, e que por lá ficaram sem acesso a advogado). Isto é o que posso relatar sobre o que vi nos locais onde estive. Mas mais importante do que os relatos é marcar estes pontos: a carga policial de ontem não tem, não pode ter, nenhuma justificação; a polícia não agiu para parar a “meia dúzia de manifestantes” (palavras do ministro da Administração Interna, não minhas) que estavam a atirar pedras, porque ninguém trava meia dúzia de pessoas à pedrada com uma carga militar que acerta em todas as outras; pessoas perseguidas pelas ruas, gente detida aleatoriamente, detidos impedidos de falar com os advogados e autos em branco não são, nunca serão, coisas toleráveis numa democracia, sendo, pelo contrário, coisas que ajudam a definir a ausência de democracia.

Que depois de tudo isto tenhamos assistido ao desfile dos painéis de comentadores a falarem das pedras, discutindo se quem as atirava era estrangeiro, estivador, anarquista, mal vestido ou outra coisa qualquer daquelas que incomoda os painéis de comentadores, em vez de os ouvirmos falar sobre a gravidade do que tinha acontecido e estava a acontecer; que depois de tudo isto tenhamos ouvido o secretário da CGTP, que convocou uma greve que foi gigantesca e um enorme sucesso, dizer que lamentava o sucedido, mas sem um comentário sobre a violência policial e as questões que referi atrás e que, parece-me, são graves e muito importantes, independentemente de afectarem os trabalhadores da CGTP (de quem o secretário geral fala como se fossem os únicos trabalhadores legítimos, os únicos que sofrem na pele a crise, os únicos que podem, sabem, estão legitimados para protestar e pensar em mudar alguma coisa); que tenhamos tido relatos televisivos onde muitos jornalistas deram a entender que a polícia teve de agir assim porque havia petardos e pedras (não sei se esses jornalistas têm estado nas manifestações, mas tem havido petardos e pedras em todas sem que a polícia tenha usado esse pretexto para espancar e perseguir pessoas indiscriminadamente, e com isto não quero dizer que petardos e pedras são uma boa forma de protesto); que tudo isto tenha acontecido num país que se diz uma democracia e nas televisões que se anunciam plurais, atentas à realidade e preocupadas com essa democracia, só pode acentuar a nossa miséria, a do pão e a outra, a que nos reduz o pensamento à conversa de café e o debate político à bisca lambida.

Sara Figueiredo Costa
jornalista free-lancer
http://cadeiraovoltaire.wordpress.com

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