Aviões não tripulados (drones)

Nos EUA, numa base militar, um militar olha para um conjunto de ecrãs e recebe autorização para bombardear um alvo. A realidade virtual com que está a lidar não difere da fantasia de um programa de computador. Mas o avião e armamento que controla não são inteiramente virtuais. Controlam um avião não tripulado real com armamento real que quando largado atinge e mata vítimas reais.

No passado fim de semana, um conjunto de ataques de drones dos EUA no Paquistão foram responsáveis pela morte de 16 pessoas. No sábado, um ataque no sul do Punjab, matou 6 pessoas. No domingo, dois ataques no norte-centro do Paquistão, um atingindo dois veículos e matando 7, o segundo atingindo uma casa e matando   3 pessoas. Terão sido, como indicam os média, todos Talibã e suspeitos terroristas?

O que não é disputado é que estes ataques foram realizados sem o consentimento do Paquistão. O Ministro dos Negócios Estrangeiros do Paquistão reiterou que estes ataques são uma violação da soberania e integridade territorial do Paquistão, e violam o direito internacional. A legalidade da acção dos drones é também questionada pelo o Alto Comissário dos Direitos Humanos das Nações Unidas, Navi Pillay.

Um relatório, em Junho, do relator e investigador especial do Conselho dos Direitos Humanos das NU sobre execuções extrajudiciais, sumárias e arbitrárias, Christof Heyns, condenou o uso continuado dos drones dos EUA para assassinar suspeitos terroristas, indicando que “enquanto estes ataques são lançados sobre pessoas suspeitas de serem lideres ou membros activos do al Qaeda ou Talibã, no contexto do Afeganistão e Paquistão civis inocentes têm sido também vítimas.”

Quem pensa que a guerra dos EUA no médio oriente acabou, pode bem tirar o cavalinho da chuva.

Sobre André Levy

Sou bolseiro de pós-doutoramento em Biologia Evolutiva na Unidade de Investigação em Eco-Etologia do Instituto Superior de Psicologia Aplicada, em Lisboa
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17 Responses to Aviões não tripulados (drones)

  1. Rafael Ortega diz:

    É mesmo boa ideia bombardearum país muçulmano com armas nucleares. Se aquilo um dia cai nas mãos de um qualquer grupo taliban vai ser bonito…

  2. Miguel Botelho diz:

    Finalmente, um bom artigo, com informação detalhada sobre uma situação que tem ocorrido, desde a chegada de Obama ao poder.

    É pena o vosso blog não dar mais notícias sobre aquilo que os americanos fazem na realidade, desde as experiências com armas nucleares (os testes nucleares escondidos); as várias experiências que fazem com todo o tipo de armamento sofisticado, pronto a ser empregue em qualquer guerra ou conflito; a questão das prisões ou, se quiserem, o «Gulag» americano que cresce diariamente; o racismo (que ainda existe); as ingerências que fazem a nível diplomático, internacional; a ajuda que fornecem a Israel…

    Enfim, tantos outros assuntos que bem investigados dariam aos leitores a noção de quem devem mesmo temer no Mundo de hoje.

    Em todo o caso, parabéns ao André Levy. Este tempo que gastou no seu texto foi bem empregue.

  3. AMCD diz:

    Um pequeno reparo ao que é dito no primeiro parágrafo:

    O manuseio dos drones, surpreendentemente, está longe de ser coisa de militares. Segundo Gregory (2011), embora a Força Aérea americana possa estar em certo grau envolvida, é a CIA que planeia e executa os ataques.

    Ora falamos então de uma coisa nova nos EUA, esta da guerra ser planeada e executada por civis.

    Mais, no referido artigo refere-se o seguinte:

    “But the CIA does not operate under military control so that, as Singer (2010) observes, the clandestine air war in Pakistan is commanded not by an Air Force general but by ‘a former congressman from California’, Leon Panetta, the Director of the CIA. According to Horton (2010), this is ‘the first time in U.S. history that a state-of-the-art, cutting-edge weapons system has been placed in the hands of the CIA’.

    O artigo referido é o seguinte:

    Gregory, Derek (2001), “The everywhere war”, The Geographical Journal, Vol. 177, No. 3, September 2011, pp. 238–250

  4. xico diz:

    Eu concordo. É tempo de irmos para a rua gritar: Bush para a rua! Bush para a rua!… (é o Bush, não é?)

  5. Muito conveniente foi,a esta gentinha,o 11 de Setembro para assassinarem quem querem,sem julgamento,sem sequer culpa formada e em qualquer país.
    mário

  6. António diz:

    Parece-me bem o uso de aviões não tripulados para missões destas arriscadas. A guerra contra o terrorismo deve ser travada com recurso a risco de vida mínimo para os soldados americanos.

    • É claro que tácticas que minimizam o risco de perda de vida são preferíveis a tácticas onde esse risco exista. Mas há um perigo escondido no uso dessas tácticas: uma alteração do balanço de custos/benefícios de uma acção militar. Se numa missão há perigo de se perderem soldados (existem custos em termos de vida dos militares enviados, além do custo de material de guerra), exige-se maior certeza sobre a importância do alvo, espera-se até o nível de inteligência ser elevado (ou seja que o benefício da missão seja garantido). Ao baixarmos o custo, ou risco para a vida das forças atacantes é natural que o nível de exigência sobre a natureza do alvo seja reduzida. Além disso, um piloto toma menos riscos se estiver no ar e souber que pode morrer, que um piloto a milhares de quilómetros de distância, o único custo militar é a perda do avião não tripulado (esquecendo por agora os custos diplomáticos). Isto não é meramente académico. Embora tenham havido danos colaterais com soldados no terreno ou pilotos no ar, o risco de estes ocorrerem tem-se provado superior com o uso de drones.
      Mas a questão não é apenas táctica, pois os ataques a que me referi não tiverem lugar numa zona em abstracto, mas no Paquistão, sem autorização desse país, e em violação do direito internacional.

    • Carlos Carapeto diz:

      Afinal o que é um terrorista? E de que lado tem que estar para ser considerado terrorista? Eis a questão.

      • imbondeiro diz:

        O que é um terrorista? Bem… Se estiver do lado de lá, é um terrorista. Se, pelo contrário, estiver do lado de cá, é um “freedom fighter”. E o que é um “freedom fighter”? Depende… Já vimos de tudo… Já vimos os mujahedines do Afeganistão ( aqueles que, posteriormente, se metamorfosearam em talibãs), os Khmers Vermelhos do Cambodja, os “Contras” da Nicarágua e a UNITA angolana serem, todos à uma, considerados, não horrendos assassinos, mas sim lídimos cultores da mais pura democracia. Mas isto são águas passadas… O Mundo mudou muito. Agora, o conceito de “freedom figther” é de aplicação mais restrita. Hoje em dia, ele só se aplica a gente de credenciais humanistas de uma solidez a toda a prova: ele só se acomoda aos genocidas líbios e aos “democratas” sírios. Como é bonito ver que a Humanidade avança, a passos largos, para o Reino da Harmonia!

  7. A primeira questão a pôr é onde estão os terroristas?
    O que é o imperialismo?
    Quem é explorado,assassinado à fome e miséria,não tem direito a defender-se?
    Os auto-proclamados donos do mundo têm direito a prender,torturar e assassinar quem lhes não convém ou não se lhes submete?
    Já não há nações independentes e povos livres?

    mário

    • Miguel Botelho diz:

      A estrutura de poder dos E.U.A. controla e a mesma estrutura submete.
      Em Portugal, somos dominados pela propaganda que vem desta estrutura. Em muitos casos, a nossa esquerda luta com as armas da propaganda americana. Alguns argumentos de contestação são quase iguais a muitos difundidos pelos canais televisivos da CNN, Sky News e Al-Jazeera inglesa.
      Para combater este domínio é preciso organizar uma verdadeira unidade de contestação, ou seja, combater a propaganda americana, com as injustiças que aplica diariamente no Mundo. Como? Investigando de forma eficiente a imprensa alternativa.

      • imbondeiro diz:

        Concordo totalmente consigo. Boa parte da esquerda portuguesa bebe da mesmíssimas fontes informativas da direita portuguesa ( e mundial). Por conseguinte, a sua visão dos acontecimentos mundiais padece de um enviesamento de raíz. O Mundo é vasto. Vastíssimo. Bem como as leituras que dele podemos fazer. No entanto, nós continuamos a cevar-nos nos ocidentais media “mainstream”. Há que olhar para outras paragens, há que olhar para onde há jornalistas que não obedecem à nossa lógica de mercado e há cruzar informação. Só assim chegaremos à (aproximação) da verdade.

        • Miguel Botelho diz:

          Estou de acordo com a sua mensagem. Ainda hoje, através do blog “An Arab Woman Blues” tive acesso ao número de mortes causadas no Iraque, depois da intervenção americana. O número já se cifra em mais de 1 milhão e 450 mil mortes.
          Sim, o Mundo é vasto e existem boas possibilidades de estar atento ao que ocorre de mais grave no nosso planeta.
          Num caso específico, em relação à Líbia, as mortes e os confrontos continuam, mas aqui o assunto foi esquecido.
          Só através do site “Uruknet” temos um interesse nestas notícias e outras.

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