Fantasias, sonhos húmidos e uma realidade desejada

Sol trouxe-nos mais um episódio proporcionado pelo stalker de serviço. O Tiago já aqui sintetizou a entrevista de forma exemplar, deixando no ar uma das questões que realmente importaria que o anarquista saltitão respondesse: «ainda ninguém lhe perguntou o que fez pelo povo que o elegeu para o Parlamento Europeu». Outra seria pedir-lhe que explicasse como se permite dar ares de paladino da democracia enquanto vai passeando por Bruxelas 1/3 do voto que usurpou aos 382.010 eleitoras e eleitores que com o seu voto (mais o meu) permitiram ao BE eleger três euro-deputados! Seja como for a entrevista permite deixar claro que o bondoso anarquista não enjeita a paternidade do Manifesto das Papoilas!

O Manifesto para Uma esquerda livre, que o Rui Tavares lançou, diz que a esquerda é sectária, mole e dominada pelo feudalismo. É uma declaração de guerra aos partidos?

Não. É para a esquerda reconhecer que também tem falhado e é por causa dos seus erros que o país está como está. Os culpados da crise não são só o neo-liberalismo e os mercados financeiros. A esquerda, em Portugal como na Grécia, faz parte de um sistema político que não tem dado soluções. A esquerda radical diz que a culpa é da esquerda social-democrata e vice-versa.

Mais à frente podemos constatar que o anarquista moralista prefere os sociais-democratas do PS e do BE aos militantes da «esquerda radical»:

Dado o meu posicionamento ideológico, quanto mais forte for a ala esquerda do PS melhor, quanto mais forte a ala social-democrata do Bloco melhor.

Desiluda-se quem se tiver iludido. Para mim é mais uma confirmação do que penso sobre o anarquista de inspiração escandinava há anos suficientes para perfazerem duas décadas.

Exposta que está a fantasia, passemos, sem delongas, ao sonho húmido.

Se até há uns dias atrás ainda me restavam algumas (poucas) dúvidas quanto à saída do Francisco Louçã do cargo de coordenador do BE, restam-me agora praticamente nenhumas.

A discussão interna em torno da sucessão do Chico foi-nos apresentada pela jornalista do i duma tal forma que há certas ‘passagens’ do texto que mais parecem obra dum ficcionista sem imaginação. A maneira como a UDP é retratada deixa perceber uma de duas coisas: ou uma fonte bastante mal informada ou uma fonte declaradamente mal intencionada! Basta ler a Resolução Política aprovada na VII Conferência Nacional da UDP (2-3 Junho 2012) para perceber que não há uma posição definida e/ou assumida no que respeita à coordenação do BE. Assim, assumir que «o nome do deputado [João Semedo] levanta reservas entre uma das correntes internas – a UDP – que terá feito saber que se oporá a esta solução de liderança» não pode ser tido como sério. A não ser que na UDP as coisas sejam decididas ao arrepio dos membros da Associação Política. Sendo eu um deles, não creio que tal se verifique.

Já a hipótese cuja autoria é atribuída a «um bloquista» passa faz com que a ‘peça’ entre directamente para a categoria do sonho húmido. Dizer que «sem acordo para a liderança, não há acordo para nada» e ainda acrescentar que se em Setembro nada ficar definido isso levará as «as várias correntes a apresentarem nomes alternativos» é acreditar que a maioria dos militantes do BE se entregarão a uma luta fratricida da qual pouco ou nada restará para aproveitar.

Também as soluções avançadas como alternativa à irredutibilidade dos bravos albaneses são do domínio do freudiano. Assumirá o «bloquista» que serviu de fonte que os seus camaradas encaram a direcção de um partido como se uma associação de estudantes se trate? Não estou a ver que isso aconteça. Sinceramente.

A Renovação Comunista no tempo em que eu e o João Semedo ainda por lá andávamos.

Embora não me sinta obrigado a isso, devo esclarecer que conheço o João Semedo há alguns anos. Conheci-o pessoalmente nos tempos imediatamente anteriores à nossa saída do PCP e à subsequente fundação da Renovação Comunista (RC). Recordo-me de muitas coisas desses tempos, mas recordo, principalmente, uma: quando o João colocou aos camaradas que compunham a chamada Dinamizadora Nacional da RC a questão do convite que lhe fora dirigido pelo BE para que se candidatasse a deputado nas suas listas do Porto, a minha foi uma das poucas vozes que se levantaram contra. O João soube aceitar essa minha posição com toda a naturalidade. Acima de tudo, sem qualquer melindre. O respeito pelo trabalho que depois veio a desenvolver até aos dias de hoje, no seio do grupo parlamentar do BE, veio a dar razão à decisão contra a qual votei. Esse mesmo respeito (e não só) faz-me ter a certeza de que o João será um excelente coordenador do BE. Se assim o entenderem eleger os seus e as suas camaradas.

Se me fosse dado participar nessa decisão o João, desta vez, não poderia contar com o meu voto contrário!

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