27 de Julho de 1974

A 27 de Julho de 1974 o império português era finalmente obrigado a aceitar a derrota na guerra colonial que foi simultaneamente a vitória das revoluções anticoloniais.

Faustino e Chibilite, membros de uma Associação de ajuda mútua aos povos macondes, insistem, na madrugada de 11 de Junho de 1960, que queriam falar com as autoridades portuguesas para negociar o regresso dos Macondes a Moçambique, que estavam no Tanganica. No Tanganica tinham conseguido melhores direitos. Deveriam regressar com «uhulu, isto é, poder viver em liberdade sem trabalho forçado». Durante 4 dias pressionam as autoridades portuguesas e são seguidos por um crescente número de homens, mulheres e crianças, «a pé ou de bicicleta», que se digiram à circunscrição do Macondes – eram já 5000 na manhã de 15 de Junho. Recorde-se que cerca de 60% do salário dos moçambicanos a trabalhar, forçadamente, nas minas de ouro da África do Sul, era entregue diretamente em ouro ao Estado português, e o Estado pagava uma parte aos trabalhadores, vindo o resto direto para os cofres da metrópole.

À pretensão dos macondes, naquele dia, as autoridades respondem com uma chuva de tiros, que ficará conhecida como o Massacre de Mueda, que deixa mortos, segundo um relatório oficial 14 pessoas, segundo a FRELIMO, 150: «Depois dele, os Macondes passam a querer a guerra, mostrando-se prontos a seguir a FRELIMO, quando esta, a 25 de Setembro de 1964, a desencadeou» (Dalila Mateus).

O trabalho forçado no Império português dura até ao fim deste, em 1974. Na década de 60 Basil Davidson calcula que há 2 milhões de trabalhadores forçados nas colónias portuguesas. Como os trabalhadores estavam arreigados à terra, e havia escassez de mão-de-obra, a única forma de os colocar a trabalhar fora dos meios de autossubsistência, longe da terra, para as minas de Moçambique, ou as plantações de Algodão de Angola, era tornar o trabalho obrigatório. “Sem Ouro não há África do Sul, e sem Moçambique não há outro» escreveu Perry Anderson. Sem trabalho forçado não há Estado Novo, acrescento eu.

Guerrilheiros do PAIGC

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5 respostas a 27 de Julho de 1974

  1. jpm diz:

    Tanta confusão

    1- “Sem trabalho forçado não há estado novo”. Era preciso que o trabalho forçado fosse um exclusivo do estado novo.
    2- A informação que põe aí sobre as retenções na fonte para ir para o Rand não são exactas.
    3- Desde quando o Basil Davidson é uma fonte credível?
    4- Apesar de fortes permanências, a realidade do trabalho forçado mudou substancialmente no arco temporal que escolhe.

    Havia bastante mais a dizer. Mas fica para outra altura.

  2. Edgar diz:

    Em Moçambique o “contrato” era obrigatório e os “régulos” eram forçados a entregar uns tantos “voluntários” para o Estado e para as grandes companhias como, por exemplo a Sena Sugar ou a Trans Zambézia.
    Havia também o recrutamento para as minas da África do Sul, por culpa das quais devem ter morrido de tuberculose muitos milhares de “magaíças”.

    “Magaíça, ao partir, não se prende
    mas sofrendo no Rand é que aprende
    que a mina é inferno, desterro e má sina,
    que a terra é o céu de quem vive na mina!”
    … (Reinaldo Ferreira)

    Há muito que contar sobre o sofrimento dos trabalhadores, também aqui, em Moçambique, como em todo o mundo.

  3. JgMenos diz:

    Se há derrota na guerra ela decorre do 25ABR74 e das chefias que então emergiram.
    A derrota do regime levou ao fim da guerra, não foi a derrota na guerra que levou ao fim do regime.
    A história feita por quem tem uma agenda ideológica é sempre uma trapalhada.

  4. notrivia diz:

    Este post é bom pra aqueles desorientados que gostam muito de atirar pro ar que o colonialismo português foi mais ‘humano’ em comparação com as versões dos seus colegas europeus.

  5. A C da Silveira diz:

    Pode fazer as considerações que bem entender sobre os 500 e tal anos que passàmos em África. Mas numa coisa não tem razão: as Forças Armadas Portuguesas não foram derrotadas em nenhuma das guerras que travou entre 1961 e 1974 nas colónias portuguesas; e “as revoluções anticoloniais” como lhe chama, bem podem limpar as mãos à parede com o trabalho que lá fizeram depois das respectivas independencias!

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