«Eu não quero vingança! Eu quero que se faça justiça!»

Dando continuidade ao que aqui anunciámos, passo a apresentar alguns factos.

O Tony tem 46 anos. Nasceu em Cabo Verde e veio para Portugal em 1991. É motorista de pesados. Não tem cadastro.

Embora de fraca qualidade (imagem), o som permite ouvir a revolta dos muitos vizinhos que, aos gritos, exigiam que os agentes (fardados e à paisana) parassem com as agressões ao Tony. Tudo aconteceu na noite de 25 para 26 de Maio, por volta da uma hora da manhã. O Tony estava à espera que a companheira acabasse de limpar o café para seguirem ambos para casa. Como era costume… naquela noite os hábitos desta família foram brutalmente interrompidos e as liberdades, direitos e garantias destes cidadãos foram atirados para a sarjeta

Os agentes da PSP chegaram e, pouco depois, passaram à acção. As agressões começaram logo ali, à porta do café. Primeiro o gás pimenta nos olhos para que a cegueira impedisse qualquer resistência. Das janelas dos prédios em redor, os vizinhos gritavam em desespero. Há mais testemunhas, para além dos vizinhos, que estão dispostas a acompanhar o Tony nesta luta.

Da porta do café, a violência foi transferida para a Esquadra da PSP de Santa Marta de Corroios.

O gás pimenta foi uma constante. O Tony, que já chegou à Esquadra inconsciente, demorou a recuperar os sentidos. Deitaram-lhe água nos ouvidos. Repetidamente. Por volta das 5h30 os Bombeiros do Seixal foram chamados e transportaram o Tony para o Hospital Garcia de Orta, em Almada. Saiu ao meio-dia. Líquido nos pulmões. Hematomas por todo o corpo. Costelas partidas. Tudo isto vai passar. A dor que transmite com o olhar não.

Ao contrário de muitos outros, o Tony não está sozinho. O caso será levado até às últimas instâncias. Ao sair do Hospital Garcia de Orta, em Almada, o Tony disse a um amigo: «Eu não quero vingança! Eu quero que se faça justiça!»

«Será que ou não será que,o mundo verá que,
um brother terá que,não continuar sujeito a este ataque,
hipocrita,violento,pior do que a América no Iraque,
Onde média só põe crimes de brothas em destaque,

O governo faz jogo racista e o povo apoia tipo claque,
Skinheads em toda claque, será que,
este pais só aceita um emigrante se for um craque?
Que leve as quinas ao pódio e faça a tuga acreditar que,

Existe união ate que a televisão venha mostrar que,
Houve um arrastão e agora a população dirá que,
Não é divisão, emigração para rua já que,
Os nossos filhinhos não podem brincar seguros no parque,

Será que, não haverá uma merda que acontecera que,
Um gajo não seja o bote expiatório,
ou que com as culpas um gajo não arque,
Ou será que só a guerra fará que,

Um negro possa ser respeitado com a sua aparência,
raízes, cultura e sotaque,
Será que,a sociedade só conseguirá que,
um negro continue a ser explorado por desumanos

Ao estilo exacto, por preconceitos,
ser o ultimo atendido mas sempre o primeiro suspeito,
Na entrevista para o trabalho encontrem sempre defeitos,
Que nunca sejamos defendidos pelos fdp’s eleitos!

Será que,irmaos nao se apercebem que há que,
Deixar que falar e sair para a rua em protesto
Porque é lá que, vamos acabar com o racismo, capitalismo
E todas as outras formas de saque.

Será que.»

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