França e Grécia: vencem as ilusões europeístas

Não há dúvidas de que os povos quiseram castigar os responsáveis pela crise capitalista. Mas também é certo que os resultados das eleições em França e na Grécia não traduzem uma ruptura com o modelo político e económico dominante. Em França, os banqueiros tinham dois candidatos de direita, um conservador e outro liberal. Foi François Hollande quem venceu. Uma vez mais, cabe ao PSF acabar o trabalho que Sarkozy começou. Não é por acaso que os socialistas exultantes com a vitória de Hollande não dão um pio sobre a derrota histórica do PASOK.

Na Grécia, apesar da perda de mais de 10 por cento dos votos, espera-se a vitória da Nova Democracia. É que por aquelas bandas há uma lei que dá ao partido vencedor mais 50 deputados do que aqueles que foram eleitos nas urnas. O que permite que a Nova Democracia e o PASOK já tenham a maioria absoluta. Para dar estabilidade, claro está. Mas se tal lei fosse alguma vez aprovada na Venezuela explodia a fúria anti-bolivariana de jornalistas de todo o mundo sobre Hugo Chávez.

O grande derrotado é, sem dúvida, o Partido Socialista com uma quebra de quase 30 por cento. Depois de arrastar o país para um pacto de agressão com a troika, o povo grego identificou o PASOK como o principal responsável pela actual situação da Grécia. Previsivelmente, o próximo governo será, novamente, de coligação entre estes dois partidos. Mas tem um problema. Para aprovar um novo resgate precisa de 180 deputados, 2/3 do hemiciclo.

À frente, vem o Syriza. Este partido que tem muitas semelhanças com o Bloco de Esquerda e que recebe o apoio dos eurocomunistas PCE e PCF vai ser, sem dúvida, o grande vencedor da noite. Do outro lado, à direita, uma dissidência da Nova Democracia atinge os 10,35 por cento e os fascistas conquistam quase 7 por cento dos votos. O Partido Comunista da Grécia tem uma ligeira subida de quase 1 por cento e supera os 8 por cento.

Se por um lado se agudizam as contradições e se dão cisões nos partidos dos banqueiros e empresários, por outro lado segue a ilusão de que há solução para a actual situação política e económica dentro da União Europeia e do euro. É essa a mensagem que resulta da subida espectacular do Syriza, um partido social-democrata que não concebe essa solução.

Há poucos dias, a secretária-geral do KKE afirmava que o executivo que saísse destas eleições seria de curta duração. Essa afirmação corresponde não só a fragmentação parlamentar como à luta de massas. O responsável pelas relações internacionais do KKE destacava também que acordos “com partidos que alguns denominam de «esquerda» inclui políticas diametralmente diferentes, e não significa nenhum «ganho». […] semearia a esperança de que pode ter solução sem entrar em conflito com o sistema capitalista, sem a retirada da OTAN e da UE, mas isso traria a dissolução deste «projecto», o que geraria a decepção dos trabalhadores”.

Alguns comentadores atacam o «sectarismo» do KKE e elogiam o avanço do Syriza. Pessoalmente, considero justa a posição dos comunistas gregos de ter como prioridade a aliança social de base com os trabalhadores e com as populações. E quando a União Europeia se assume como protagonista ao serviço dos bancos e das grandes potências parece-me estranho que se peça ao KKE para que se alie com quem não tem uma postura consequente. É que esta é uma fronteira política que o Syriza não está disposto a atravessar. É a sua posição. Mas não se venha exigir ao KKE que deixe de estar onde sempre tem estado.

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10 respostas a França e Grécia: vencem as ilusões europeístas

  1. João Pedro diz:

    A questão, meu caro Bruno, é que os critítos do KKE não parecem ter percebido o que é essa coisa de um partido ser coerente, consequente, consistente. E isso faz toda a diferença… É que o KKE já cá anda desde 1918; não é algo volátil como outros o serão.
    Saudações

    João Pedro

  2. Fernando Valente diz:

    Eu compreendo a análise que faz à inconsistência ideológica do Syriza, embora a afirmação categórica de que é um partido social-democrata seja controversa. Mas verdade seja dita o KKE é, na minha opinião, um partido bastante isolacionista, quer no plano nacional quer no plano internacional.

    Acho de uma enorme falta de respeito por parte do KKE arremeter de forma por vezes bastante dura contra os seus camaradas de outros partidos comunistas, incluindo o nosso! Chegou ao ponto de publicarem no seu órgão central, o Rizospastis, um artigo onde analisavam a “perigosa reunião” que houve em Abril de 2011 entre o PCP e o BE. Pode-se ler aqui: http://pt.kke.gr/news/news2011/2011-04-20-marinos-portu/

    Ou quando o KKE ataca o PCE e a IU dizendo que o seu programa era social-democratizante e não visa o fim do capitalismo ( http://es.kke.gr/news/news2011/2011-12-05 ). Mas o que é isto? Eu sinceramente custa-me a ler isto vindo de um partido comunista tão combativo como o KKE. Podiam até ter divergências com os outros partidos comunistas mas arremeter dessa maneira é demais! Fizeram o mesmo com o PCF e Jean Luc Melenchon.

    Estes são só alguns exemplos, mas até contra o PC da Federação Russa escrevem dizendo que não querem a superação da actual sistema capitalista!

    Julgo que jamais o PCP faria uma coisa dessas, aliás o PCP até felicitou a IU, o PCF e o PCFR pelos excelentes resultados nas últimas eleições, embora existam algumas divergências ideológicas.

    • Obrigado pelos links. Já tinha lido umas coisas do KKE, mas esse ataque ao BE e ao PCP é uma obra de arte. Acabo de perceber como em condições políticas tão favoráveis conseguem subir menos de 1%. Para as próximas espero que desçam.

      • Rocha diz:

        O KKE assusta alguns porque é “demasiado” revolucionário.

        Devo deixar claro que não concordo com todas as posições do KKE, nem sequer as acima mencionadas, mas agradeço as suas opiniões francas e públicas, as quais prefiro ao paternalismo hipócrita ou o tabu reformista que grassa em muita esquerda de cordel “pro-europeia”.

        É claro que alguns preferem dar palmadinhas nas costas uns dos outros e fazer apelos a “governos de esquerda” sem enfrentar a questão central do nosso tempo que é o fracasso e catástrofe social que são o Euro e a União Europeia – as duas razões de ser da Troika.

        • Como vejo na ofensiva dita neoliberal muito mais do que um fracasso (antes o fosse) e uma catástrofe social, não conseguindo ver a diferença entre esta gente e o fascismo puro e duro (até porque a receita deles só é aplicável em ditadura como a Grécia acaba de demonstrar), e tenho a mania de aprender umas coisas com a História, basicamente encontro ali muito radicalismo pequeno-burguês de fachada socialista.

          • Zuruspa diz:

            A luta vai-se fazendo. Se o KKE dispara em todas as direcçöes, especialmente para a Esquerda, desaparece.

            A esmagadora maioria dos gregos (ao contrário dos portugueses e espanhóis) votou anti-troyka. Se o KKE continuar na sua senda isolacionista e purista, aí sim, abre as portas do governo à Troyka. Estou convencido que muita gente votou no KKE por näo acreditar que fosse possível ao Syriza ganhar as eleiçöes. Mas essas pessoas querem na mesma um governo anti-troyka, e sentir-se-äo traídas se o isolacionismo do KKE trouxer ND+PASOK novamente, e daqui a 6 meses é que vota mesmo útil no Syriza (que näo para eles engolir sapo nenhum). O Syriza fez o seu papel, estendeu a mäo ao KKE para conversaçöes governamentais, já a pensar nas expectáveis próximas eleiçöes.

  3. Ocidental diz:

    Porque é que o partido stalinista/trotskista/maoista/marxista é apresentado como o partido syriza e os igualmente criminosos (ideológicamente) Chryssi Avghi é apresentado neste texto apenas como “os fasistas”?

  4. um gajo qualquer diz:

    Ocidental… realmente tens razão!!! O Bruno devia ter chamado esses gajos de NAZIS – que é o que eles são

  5. António diz:

    Engenharia eleitoral vicia o sistema Grego (nada) representativo:
    – o 1.º partido mais votado, com cerca de 19 % conquistou 108 ou 109 deputados (50 dos quais oferta do sistema);
    – o 2.º partido mais votado, Syriza, com cerca de 17 % conquistou apenas 51 ou 52 deputados.
    Mas a improbabilidade esteve apenas a menos de 2 % de se voltar contra os engenheiros do sistema eleitoral.
    Por isso é preciso participar, continuar a lutar, e acreditar que o sonho é possível de realizar… Quem não luta não poderá nunca saborear a vitória.
    Na França como na Grécia fez-se ouvir um ruidoso voto de protesto contra a ditadura franco-alemã do casal desfeito MERCOSY , arquitetos duma austeridade desumana, que tem levado países, empresas e famílias à ruína. Sustentadores duma estratégia favorável à fúria dos sacro-mercados vampirescos. Sarcosy saiu derrotado e Merkel também perdeu em eleições regionais alemãs.
    Foi uma bofetada de muitos milhões de eleitores europeus cansados de tanta austeridade, antevendo-se uma réstia de esperança de mudança, no sentido de readquirir tanto do que foi conquistado pelas classes laboriosas em muitas décadas, desbaratado em tão poucos anos, num profundo ataque ao estado social e ao emprego.
    Em Portugal, para além de muitas empresas, a falência assola agora 20 famílias por dia.
    Não nos podemos calar !

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