Crónica de um país totalmente normalizado

Acho que nunca tive tanto medo na vida como quando vi, para lá do muro baixinho do es.col.a e através do gradeamento, os capacetes do corpo de intervenção a aparecer da rua inclinada. Traziam escadas: alguns passaram a vedação e começaram a desmontar a barricada, outros a cercar-nos e a tentar separar-nos. Ao ouvido, um dos polícias sussurou-me: «irra que as gajas são sempre as mais difíceis», quando eu e outra tentávamos, como possível, agarrarmo-nos para não sermos levadas. Arrastaram-nos para a sala ao lado da cozinha, guardados por vários polícias. Lá de cima, no pátio sobre a cozinha, ouvíamos as rebarbadeiras a cortar a porta de acesso à caixa de escadas. Pouco depois, vimos, incrédulos, através da janela, cortar o mastro da bandeira do es.col.a (uma bandeira pirata que incomodava, ao vento, a autoridade sem sentido de humor…)

Protestávamos com os polícias, tentávamos explicar o óbvio: não há legalidade nem legitimidade no despejo de um projecto voluntário para e com uma comunidade pobre, de uma escola, naquele edifício outrora devoluto; que isto era uma birra política autoritária, que se eles queriam servir a comunidade não o estavam, concerteza, a fazer. Nada feito. Que «cumpriam ordens», desculpa habitual de quem veste a farda despindo a cidadania.

… Que tinham de nos revistar. Não, obrigada – que desculpassem, mas até que me mostrassem algo em contrário era inocente, mostrava a identificação e mai’nada. … e assim fui eu, de arrasto para o pátio, ser apalpada à força. A polícia atestou ainda ‘que não era lésbica’, o que me deixou obviamente muito mais descansada (?!?!) e confirmou por si mesma que eu não tinha mais que água, papeis, cadernos, livros, lápis, identificação, cinco euros, telemóvel, chaves de casa. Arrastaram-me para o pátio e obrigaram-me, como aos outros companheiros, um a um e depois do mesmo processo, a ficar de pé e de mãos à parede. Qual criminosos.

Do pátio, pelo canto do olho, a visão era tenebrosa, para quem não estiver habituado a rusgas policiais nas favelas do Rio de Janeiro: praí cem ‘agentes da autoridade’ (nós éramos pouco mais de vinte), entre encapuzados, robocops e polícias ‘normais’ – no telhado, pelo pátio, no edifício a tentar tirar o grupo de ocupantes do edifício que tinham ido para as palas adjacentes a cada uma das salas. Outro de nós foi caço fora da escola e posto também à parede, aos safanões e pontapés – «onde é que deixaste a câmara, pá?» «…câmara? qual câmara?»

… já que não podíamos fazer mais nada, protestámos o tempo todo: «tenham vergonha!!! destapem a cara!! isto é uma escola!!! nós somos voluntários e recuperámos este edifício durante um ano de trabalho!!! isto estava abandonado pela câmara!! lacaios do rui rio! se no 25 de abril fossem todos como vocês, não tinha havido revolução!! tenham vergonha!!!» … e que tais.

Resultou, em parte: parte dos bombeiros sem farda, soubémos depois que enganados pelo rui rio (ver isto), tiraram os passa montanhas e pararam de obedecer, ficando de pé, no pátio, parados, a olhar para todo aquele espectáculo triste, no pátio de uma escola primária com as paredes pintadas às cores, visivelmente habitada por crianças.

Outros, porém, acabaram o trabalho. Roubaram a câmara de quem filmava, do telhado de um vizinho amigo. Fomos arrastados para fora do pátio, e pela rua fora, com as vizinhas idosas horrorizadas, às janelas, a assistir ao reestabelecer da ordem.

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TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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4 respostas a Crónica de um país totalmente normalizado

  1. Nuno Cardoso da Silva diz:

    Ainda nos vão obrigar a ter de andar aos tiros a esta canalha, para defesa da dignidade, da justiça, dos direitos, da liberdade e da democracia. Não por gosto, mas porque não nos deixarão outra saída.

    • Baresi88 diz:

      Foram mais de 35 anos a deixar-lhes fazer tudo o que lhes apetecia, pois agora que alternativas existem? Votaram sempre nos mesmos. E até começar a haver o estúpido hábito de nem sequer irem votar ou porque está bom tempo para ir para a praia, ou porque não apetece, agora temos isto, o mal é que todos temos que aguentar.

  2. A cultura pública do ódio à democracia dirigida à destruição física é incompatível com um contrato político que exige diálogo para a legitimação recíproca, ao contrário da ação política como uma mera gradação da violência caso em que o contrato moral é destruído e a violência passa a ser a medida de todas as coisas – a resposta arbitrária, desproporcionada, sacralizadora da força bruta não é apenas é apanágio dos regimes autoritários-temos aqui a prova;que o contrato moral está parcialmente destruído a crónica da Gui é a ilustração eloquente, pessoalmente se me é permitido, revivi momentos de luta contra o fascismo com alguma emoção.

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