Martin Breaugh e a Política Plebeia

O nome de Martin Breaugh não será familiar a muita gente. No entanto, ele é o autor de um interessantíssimo livro intitulado L’expérience plébéienne. Une histoire discontinue de la liberté politique, editado pela Payot em 2007, e que passou despercebido não só ao público livresco em geral, como também àqueles que costumam estar mais atentos ao que se vai produzindo em filosofia política e em teoria da história.

Este discreto professor da Universidade de York tem, pelo menos tanto quanto sei, passado ao lado dos grandes debates que têm marcado, nos últimos anos, com bastante visibilidade pública, o regresso de uma certa radicalidade política de esquerda, visibilidade que associamos a nomes como Badiou, Žižek ou Negri. E no entanto, L’expérience plébéienne é um enorme contributo para esse debate, tanto a nível teórico como a nível da espessura histórica com que Breaugh aborda o problema principal do seu livro: o sujeito colectivo da política. Importa por isso ir hoje às 18h30, ao Teatro Maria Matos, bem como amanhã, dia 18, ao Colóquio “The Many – History, Theory and Politics” (de cuja comissão organizadora faço parte), ouvir Breaugh e discutir com ele as suas teses sobre a política e os seus sujeitos.

Essas teses, tal como as de muitos outros teóricos contemporâneos, vão no sentido de procurar para a política uma fundamentação não-objectiva, isto é de procurar entender a acção política como uma afirmação igualitária que não é, em última análise, expressão de interesses de determinados grupos objectivamente identificáveis, como classes, grupos estatutários, etnias ou outras categorias identitárias. A “plebe” não designa, assim, uma classificação identitária, nem recorta, no todo social, um grupo específico, a que corresponderia uma posição na estrutura da sociedade. “Plebeia” ou “plebeu” é antes o nome que Breaugh dá a uma experiência histórica, pela qual se constitui o próprio sujeito da política dos muitos, e que assenta no duplo movimento de recusa da dominação dos poucos, e de afirmação da igualdade de todos.

Recusando qualquer tentativa de substancialização da “Plebe”, que resultaria no entendimento desta última como mais uma identidade social, Breaugh faz dela o próprio princípio orientador da acção política, nas raras ocasiões históricas em que esta, de facto, se verificou. Um dos aspectos interessantes do seu trabalho é justamente o modo como o autor se propõe a analisar o princípio plebeu nos momentos da sua verificação histórica, propondo aquilo que ele chama “uma história descontínua da liberdade política”. Descontínua porque a política é, para Breaugh, como para Badiou ou Rancière, necessariamente rara, e tem o carácter de um “acontecimento”, de uma ruptura no andamento normal das sociedades.

A temporalidade da plebe é a da interrupção, e não da instituição, e por isso a análise da génese histórica do princípio da plebe corresponde á apresentação dos momentos dessa interrupção igualitária e radicalmente democrática de uma ordem contínua de dominação: a primeira secessão plebeia, no tempo da República Romana, a revolta dos Ciompi, em Florença, o carnaval de Romans e a revolta napolitana de Masaniello.

Do mesmo modo que traça a sua génese histórica, Breaugh procura traçar a génese filosófica do princípio emancipatório da plebe, isto é, o modo como, em diversos momentos da história do pensamento político, o acesso do grande número à igualdade se deixou teorizar. O movimento de génese do princípio filosófico da plebe começa, assim, em Maquiavel e prossegue através de Montesquieu, Vico, Ballanche, De Leon e Foucault, terminando com Jacques Rancière. O conteúdo teórico do livro não se limita, contudo, à genealogia da plebe como figura do pensamento da política, sendo que outros autores são convocados (Lefort, Lyotard, Arendt, E. P. Thompson) quando alguns dos seus conceitos se tornam úteis para conferir inteligibilidade a este ou aquele aspecto da política plebeia.

Mas a série histórica e a série filosófica não são, por assim dizer, paralelas, como não podia, de certa forma, de deixar de ser. Num livro que é ele próprio uma intervenção teórica no pensamento contemporâneo da política, a equanimidade com que os diversos momentos históricos são ajuizados, e a distância que permite ao autor retirar de cada um deles as lições políticas úteis para uso futuro da política emancipatória, não se espelha no modo como são tratadas as diversas contribuições teóricas analisadas por Breaugh. Pode mesmo dizer-se que todo o entendimento de Breaugh do que constitui a política se deixa marcar por um dos autores tratados: Jacques Rancière.

Esta filiação ajuda a explicar alguns dos problemas que o livro encerra, nomeadamente a concepção da política como intervalo e interrupção numa ordem contínua de dominação, a que a espessura histórica do livro de Breaugh atribui um carácter de quase necessidade. Embora não seja um exclusivo do pensamento de Breaugh, há nele uma indisponibilidade para pensar a possibilidade de uma sociedade justa, de tentar conceber um momento da instituição cuja possibilidade teria sido aberta pelo acontecimento da afirmação igualitária.

Este aspecto do seu pensamento não deixa de ser fortemente marcado pela filiação do seu pensamento em Claude Lefort, para quem a aceitação de uma divisão do social  é necessariamente constitutiva de toda a política democrática, e a sua recusa a marca do totalitarismo. Assim, para Breaugh a política plebeia também foi, nos momentos históricos da sua emergência, a afirmação do princípio lefortiano de divisão irredutível do social, contra o princípio de unidade que foi sempre apanágio do domínio dos poucos. No entanto, o princípio da divisão social, seja em classes, seja em grupos dotados de poder desigual, é também ele o princípio sob o qual assenta a dominação (independentemente da operação ideológica que reconduz essa divisão a uma unidade mais fundamental: a pátria, o corpo social, etc.). Reconhecer essa divisão como pano de fundo inevitável da política não tem senão conduzido o pensamento contemporâneo à esquerda senão para uma certa melancolia, ou para a celebração de uma metafísica do antagonismo, para quem a pedra lançada á vitrine é princípio e o fim da política.

Vamos então hoje ao Maria Matos e amanhã, quinta e sexta à Faculdade de Ciências Sociais e Humanas na Nova discutir estas e outras coisas.

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