Uma escola ocupada no coração do Porto


O cartaz é da Gui, a reportagem é minha e saiu no i

“Já não voto, porque o voto/não dá voto na matéria/política perdeu a seriedade /e duvido que a recupere”, a métrica é do hip hop, a voz de Chullage ecoa na escola ocupada da Fontinha. O músico vindo da Arrentela, no Seixal, canta a letra do “Já não dá”. As palavras parecem ser sentidas da mesma maneira nas ruas desta zona popular do Porto. No pátio da escola acotovelam-se dezenas de pessoas, ao lado de uma vintena de tendas. Vieram de muitos lados para defender a Es.col.a, o nome que dão ao projecto autogerido que se instalou há quase um ano nas imediações das antigas habitações operárias da Fontinha. Despejado pela polícia uma vez, voltou a renascer. A Câmara Municipal do Porto terá prometido legalizar a situação. Ofereceu apenas um contrato de arrendamento até Junho. Reunidos em assembleia, populares e ocupantes não aceitaram o documento, que representa um despejo anunciado.

A reportagem começou várias semanas antes. Os activistas que ocupam a Es.col.a não confiam em meios de comunicação social “corporativos”, como dizem. O jornalista é convidado a apresentar-se numa assembleia com a proposta de reportagem ou a enviar por email aquilo que pretende para ser decidido por todos. A decisão é tomada na assembleia seguinte e mantém a política de não permitir fotografias dentro da escola, mas abre uma nesga: as actividades públicas podem ser fotografadas e é permitido ao repórter entrevistar quem aceitar dialogar com ele. Contudo, ninguém falará em nome do projecto.

O dia já entardeceu. Três polícias sobem a Rua da Fábrica Social. Trajecto inclinado de um purgatório operário, ladeado pelas casas baixas e cinzentas de pedra áspera que alojavam os trabalhadores fabris. O mais corpulento e idoso pede, arfante, para falar “com um responsável”. Não é certamente a palavra mais indicada para um libertário. Desconfiado, aproxima-se um jovem mascarado de técnico de controlo de radioactividade. O polícia pretende saber por onde vai andar o desfile de Carnaval. “Por aí”, responde o mascarado. “Sabe, os polícias não servem só para reprimir”, diz, já meio desesperado, o agente da autoridade. “Era para vos ajudar a atravessar a estrada”, acrescenta, solícito. O jovem anarquista garante ao polícia que vão pelas passadeiras e respeitarão os sinais luminosos. Está feita a paz social, os tambores começam a rufar.

Estamos em pleno Carnaval. A actividade anunciada é a queima do Judas. Dentro do recinto ocupado um boneco de fato cinzento às riscas com ar de autarca próspero. Os ocupantes e os jovens da redondezas afadigam-se a fazer as máscaras e a experimentar as mais estranhas bicicletas já construídas, montadas por adolescentes ruidosos. Uma massa colorida de jovens e menos jovens vai descendo pelas ruas da cidade. Regularmente, o boneco vai apanhando umas pauladas. A cara do autarca não dura no estafermo. As ruas tornam-se mais escuras, uma centena de mascarados vão passando pelo centro do Porto, perante a curiosidade bem-disposta dos transeuntes. Chegados à câmara municipal, um homem com uma máscara brilhante lê um manifesto de defesa da Es.col.a em que se acusa a câmara de não honrar o prometido à população e pretender despejar os okupas. O fogo é ateado e o boneco arde no meio das labaredas e da explosão das bichas de rabiar. Regresso à Fontinha, sempre com a companhia prestável da polícia. No edifício da escola começam os preparativos da refeição comunitária. Algumas pessoas afadigam-se na cozinha, enquanto outros arrumam a divisão que funciona como sala de convívio. Tentamos falar com algumas das pessoas do projecto. Um dos estrangeiros presentes, um anarquista belga, corta-nos a conversa. Não é boa altura. Não nos conhecem e estão em plena reunião. O jantar vegetariano decorre e as conversas animam-se, o trabalho terá de ficar para outro dia.

Regresso à Fontinha no dia seguinte. Os jovens já estão impacientes à porta da Es.col.a à espera que alguém lhes abra a porta. Há várias chaves distribuídas entre activistas e populares, mas ainda ninguém chegou. José Lino, que vive numa habitação ao lado, aparece com as tão desejadas chaves. Os jovens das vizinhanças, impacientes, entram no pátio. Rapazes a jogar futebol e raparigas a falar umas com as outras. Uma das activistas mostra o espaço com indisfarçável orgulho. Fala das obras e do trabalho em que todos se afadigaram para recuperar o edifício, que estava abandonado e degradado. Aproveitaram materiais reciclados. A pintura, a carpintaria e a colocação de vidros exigiram centenas de horas de trabalho. Há a sala de convívio e a cozinha, uma biblioteca e várias salas de actividades, uma delas com aparelhos de musculação. Pergunto-lhe a razão, explica-me que foi uma reivindicação dos jovens das vizinhanças. O programa da semana inclui de aulas de ioga, capoeira, acompanhamento de estudos, música e muitas outras actividades. Todo o funcionamento e a programação do projecto são decididos numa assembleia semanal.

José Lino é morador da Fontinha e defende que aquilo que se passa no bairro é um espelho daquilo que está a acontecer no centro da cidade, onde os jovens estão a ser expulsos e apenas ficaram os velhos. “Se for a uma bancada do estádio das Antas é difícil encontrar habitantes do centro da cidade. São todos dos arredores.” O projecto foi para ele uma autêntica revolução. Afirma que as pessoas mais velhas foram ganhas pela Es.col.a. “Os mais novos aderiram antes, as pessoas de idade foram ganhas pelas actividades e pelo facto de isto dar mais segurança à zona. Isto antes era um espaço degradado.” Viu morrer muitas colectividades no centro do Porto. As pessoas deixaram de acreditar nas coisas. Teme que quando a câmara despejar a Es.col.a “as pessoas mais uma vez vão comer e calar”, murmura, resignado. Participa nas assembleias e na actividades do espaço, sorri e confessa que ainda não está habituado à forma de funcionamento em consenso e ao tipo descontraído de organização. “Isto é uma grande organização completamente desorganizada, mas a verdade é que todos os dias se fazem coisas.” O facto de nas assembleias não haver votações e as decisões serem consensuais ainda não o convence. “Vou às assembleias, mas acho que às vezes a minoria acaba por impor a sua opinião à maioria devido à questão do consenso, mas a verdade é que as coisas têm funcionado.”

Uma das razões que permitiram a ocupação e a manutenção do projecto da Es.col.a da Fontinha é a existência de trabalho continuado de um conjunto de colectivos anarquistas na cidade do Porto, envolvendo dezenas de activistas. Esta situação deve-se muito ao trabalho continuado do colectivo Terra Viva, de onde saíram muitos militantes que fundaram outros grupos anarquistas na Invicta. Parte desses activistas vieram por levas, uma das mais importantes no final dos anos 80, quando os acordes do punk ecoavam nas cidades.

Na Rua dos Bacalhoeiros, num bairro popular da cidade, é a sede da Associação Internacional dos Trabalhadores Secção Portuguesa, uma organização anarcossindicalista, e da Terra Viva. A sala das duas organizações é escura, pejada de livros. No espaço coexistem uma bicicleta e uma pequena cozinha. Nas paredes, cartazes, muitos deles desenhados por José Paiva. Foi ele que leu o manifesto junto à câmara durante a queima do estafermo. Este operário reformado e antigo militante maoista nos anos 70 é um dos activistas históricos das correntes libertárias. “Em Portugal, antes das organizações maoistas só existia o PCP. Embora fosse uma máquina em termos de acção, politicamente só poderíamos esperar dele que fizesse a unidade dos portugueses honrados. Ora a Guerra Colonial, a invasão da Checoslováquia e o Maio de 68 exigiam de nós jovens outro tipo de empenhamentos para combater a ditadura.”

Depois do 25 de Abril, este operário da siderurgia rompeu com as correntes marxistas-leninistas (ML). “Reparei que os problemas do autoritarismo que se levantavam em relação ao PC eram muito mais pronunciados nessas organizações, em que era clara uma rígida hierarquia e a existência de militantes de primeira, de segunda e terceira.” A releitura de livros de que o avô lhe tinha falado permitiu-lhe pensar em formas diferentes de fazer a política. “O meu avô insistia muito que eu lesse autores anarquistas e eu respondia-lhe que esse movimento já não existia, para mim o anarquismo estava ligado aos operários artesãos de ofícios desaparecidos. Quando peguei nesses textos libertários percebi que muitas das minhas preocupações em relação à questão do poder das hierarquias estavam aí. Deixei de distribuir propaganda maoista na fábrica e passei a distribuir propaganda libertária.”

Neste momento a sua militância divide-se entre ajudar as acções da Terra Viva, em que as questões ambientais e ecológicas são a principal preocupação, e o trabalho no sindicato anarcossindicalista. Estão concentrados em dois processos de lutas de trabalhadores, estiveram a ajudar na greve e na ocupação dos trabalhadores da Cerâmica Valadares para manter a fábrica a laborar. Acha que há um ressurgimento das ideias anarquistas. A crise tem demonstrado que “há uma falência do representativismo e as pessoas estão a redescobrir a democracia directa”. Para ele, a experiência da Es.col.a, mesmo que possa vir a ser violentamente interrompida, é fundamental. “Estas iniciativas são muito importantes, dão vivências de liberdade, dão vivências de participação, dão vivências aos jovens que não podem ser obtidas por livros. Aquilo que para mim mais positivo tem esta iniciativa é esta coragem de quebrar a modorra e fazer alguma coisa pelas próprias mãos.” Para o activista, a câmara tem medo da ligação que se estabeleceu entre um grupo de jovens libertários e a população. “Até porque o centro do Porto está a cair aos bocados e há ao todo mais de 800 casas devolutas. A Fontinha pode ser contagiosa”, adverte.

Se a Es.col.a fosse um vírus, parte dele podia ter sido incubado neste prédio de quatro andares, com um quintal e um terraço, em plena Praça Marquês de Pombal no Porto que se chama Casa Viva.

Neste centro cultural alternativo coexistem salas para exposições, reuniões e concertos e uma rádio para a internet. Saíram do colectivo que anima esta casa parte dos activistas portugueses e estrangeiros que montaram o projecto da Es.col.a. No andar térreo está a sala de convívio e a cozinha, no andar seguinte o estúdio de rádio e a biblioteca, mais acima a sala de concertos e no último andar um espaço em que podem habitar algumas dezenas de activistas. Vai-se falando ao ritmo da cerveja na sala de convívio.

As cerca de 20 pessoas presentes vão–se afadigando entre ajudar na cozinha e conversar. Por uma moeda come-se um arroz com seitã ou outra iguaria de terminação equivalente. As pessoas vão chegando. Nos corredores está uma exposição de ilustradores. As imagens estão entre a ironia e a militância. Misturadas com as frases grafitadas nas paredes. Na sala de concertos, umas 40 pessoas esperam a actuação dos britânicos Khuda, que fazem uma digressão europeia por centros culturais alternativos em várias cidades da Europa. O baterista de tronco nu vai massacrando literalmente os pratos num exercício de enorme violência, enquanto o guitarrista vai debitando ritmos, misturados de samplers em loop com um sorriso beatífico que nunca o abandona. O público abana a cabeça ao compasso das pancadas. A cerimónia dura 40 minutos. As tatuagens do baterista suam como se estivessem vivas. Pequeno e musculado, parece ter uma energia ilimitada. Quando a música xamânica acaba, as luzes parecem acender-se e ao meu lado uma rapariga ainda mais pequena pergunta a uma amiga: “Achas que ele tem a mesma energia em todo o lado?”

Na manhã seguinte subo a Rua do Bonjardim. Muitas das casas estão à venda. Há oficinas abandonadas. Encerradas durante o dia, vejo duas discotecas de alterne. Subo a rua até entrar na Fontinha. Aí os cafés têm colados nas paredes cartazes de apoio ao projecto da Es.col.a. Dentro deles as pessoas cumprimentam-se pelo nome. A meio da rua está a associação Musas. O sítio já foi uma casa do Benfica, hoje é um grupo libertário que pratica agricultura comunitária e participa em campeonatos de xadrez. Dezenas de pessoas estão envolvidas na gestão comum da associação e na sementeira dos produtos agrícolas. Apesar de usufruir de um espaço alugado, a associação encontra-se ameaçada de despejo pelo senhorio, que pretende vender o imóvel.

Virando à direita na Rua do Bonjardim começamos a caminhar em direcção ao edifício ocupado. No pátio está o Fábio a jogar à bola, uma das activistas, a Clara, passa e manda-lhe uma boca: “Fábio, é só jogar à bola… Não te vais baldar ao acompanhamento ao estudo?” O Fábio ri-se e diz que até tem ido. A Clara não desarma: “Olha que o teu teste de história desta semana não foi famoso.”

Aproveito a deixa e meto conversa. O Fábio diz-me que a escola está ocupada desde Abril de 2011 e que as coisas mudaram e não foi pouco. “Dantes nesta rua não se via ninguém, agora o que não falta é gente.” Ri-se para a Carla. “Faço muita coisa, jogo à bola, faço bicicleta e de vez em quando faço trabalhos de casa. Chego a participar em algumas assembleias. Quando tenho o computador aponto as coisas e ainda jogo um bocadinho. Quando não tenho o computador, acho um bocado chato e não vou.”

O Hugo é um dos activistas do projecto, mora na Fontinha há quatro anos. Participa desde a abertura do espaço. “Senti que o projecto fazia sentido, como parte dos vizinhos pensaram. Achei que não era um capricho de adolescentes, que era válido fazer disto uma espécie de sala de estar do bairro.” Sentámo-nos nesta sala, eu, o Hugo e a Clara. O Alex mantém-se de pé a pontuar a conversa. Enquanto falamos entra uma rapariga morena atraente e bem vestida, a monitora das aulas de ioga, e pergunta se há gente para a sessão. Há uns dias o grupo propôs-se fazer levitar o executivo camarário do Porto juntamente com o edifício, para iluminar a decisão. Não se sabe se o prédio voou, mas a vereação não mudou de opinião.

A Clara diz-me que o projecto é muito mais que uma série de serviços prestados à população da Fontinha. O mais importante está em descobrir regras para que todos participem. Daí a ideia do consenso. “As pessoas vivem juntas e vão aprendendo a estar umas com as outras e a respeitar-se.”

Um dos trunfos do projecto é a sua relação com a população. A Es.col.a só funciona até às 22 horas, para não incomodar os vizinhos. A população tem uma voz activa no projecto. Uma activista ironizou comigo que quando alguns órgãos de comunicação social pretendem vender uma imagem de violência e de perigo em relação aos libertários falam sempre de violência e de black bloc. “Na Fontinha o nosso black bloc são as mulheres de idade vestidas de preto que participam nas actividades.” Uma delas é a D. Amélia, sempre preocupada com a saúde dos seus jovens libertários e pelo facto de os mais novos não se alimentarem bem. Há dias exigiu ser ela a cozinhar para melhorar o estado anímico dos activistas. Fez uma massa com bacalhau. Perguntei ao Alex qual foi a reacção deles, devido a serem todos adeptos de alimentação sem proteínas animais. “Comemos tudo, e repetimos porque estava muito bom”, sorri, do alto do seu metro e oitenta e muitos centímetros, o jovem que trabalha como artista de rua. O Hugo quer acrescentar qualquer coisa: “Tem de ser, claro, que nós não somos missionários, nem temos o espírito de que estamos aqui para interagir com os pobrezinhos e dar-lhes coisas que eles não têm e assim ganhar-lhes a simpatia, isso é coisa de políticos. Nós fazemos coisas com eles de uma forma solidária”, conclui. Ao longe ouve-se o rap dos jovens da Fontinha: “ Estratégia solidária, consciência e obra. A nossa escola está de volta. O povo manda.”

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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3 respostas a Uma escola ocupada no coração do Porto

  1. Morgada de V. diz:

    Já tinha lido no i. Excelente.

  2. subcarvalho diz:

    Papel. Mas qual papel?

    “A licença foi renovada e prolongada até ao passado mês de março”. Esta frase foi repetida em vários cabeçalhos noticiosos há cerca de dois meses, altura em que o Es.col.a veio a saber da intenção da CMP despejar a escola ocupada em Abril de 2011, no Alto da Fontinha. Como é que, de forma instantânea, uma ordem de despejo se transforma num prolongamento dum contrato que nunca existiu? Por mais insistência com que esta data de fim de março seja apresentada pela autarquia e pelos media, a verdade é que apenas soubemos dela através duma carta de despejo, que não foi sequer enviada directamente ao projecto ou à sua Assembleia.

    Mas aqui estamos já a meio dum longo caminho no qual a CMP, através dos media, quer transmitir a versão que lhe convém, travestindo-a de factos assumidos e absolutos. Resta-nos a nós a desmontagem de alguns dos argumentos dos quais a CMP se faz valer para tentar justificar o despejo do projecto que no último ano deu vida a uma escola que estava abandonada há mais de 5 anos por essa mesma câmara.

    “A Câmara acabou, em Julho, por atribuir ao Es.Col.A uma licença provisória para se instalar na antiga escola até ao final do ano”. Guilhermina Rego, em entrevista à RTP1 sobre o Es.Col.A, repetiu os argumentos que a sempre tão interessada jornalista do Público tinha deixado transparecer nessa manhã: como argumentário, parece bem – pena é que, por mais que se repitam mentiras, elas não passem a ser verdade.

    A ‘licença provisória até ao final do ano’ foi uma frase dita numa reunião sem carácter decisório entre representantes da CMP e uma delegação da assembleia do Es.Col.A; uma frase que deveria aparecer numa proposta de contrato que nos seria enviada – e nunca foi. A única relação formal entre a CMP e o Es.Col.A foi um contrato promessa (uma promessa de contrato),na qual nos comprometíamos a deixar o nosso carácter informal, transformando-nos em associação num prazo de 30 dias úteis e onde a autarquia se comprometia a, nos 10 dias úteis subsequentes, nos enviar a tal proposta de contrato. O Es.Col.A cumpriu a sua parte do acordo e, dentro do prazo, fizemos com que a vereadora soubesse que estava constituída a associação. A Câmara Municipal do Porto não cumpriu a sua parte: nunca chegou ao Es.Col.A, nem a alguém a ele ligado, qualquer proposta de contrato que falasse em final do ano. Será deste não contrato que falam Guilhermina Rego e os média, quando dizem que foi prolongado até março.

    De seguida, o despejo foi suspenso, pelo menos até que houvesse diálogo entre a Câmara e o Es.Col.A. Mais uma vez, ficamos a saber pela comunicação social da decisão tomada em reunião de Câmara. Houve, então, uma nova reunião entre a vereação e dois delegados do projecto, e uma nova promessa de envio de proposta de contrato. Que se revelou ser apenas uma carta de despejo, para fim de Junho.

    Em Carta Aberta, o Es.Col.A explicou a sua recusa em aceitar este processo. Nunca tivemos vontade nem necessidade de ter qualquer tipo de existência formal. Decidimos fazê-lo, porque acreditámos que a manutenção do projecto era mais importante para os moradores da Fontinha do que o carácter informal do mesmo. Mas não há diálogo possível com quem acha que as conversas se começam com operações policiais ou ameaças de despejo. Nem vontade de aproximação com instituições que acham que utilizam a mentira, amplificada nas televisões de todo o país, para defender a sua própria incompetência.

    A Es.Col.A é um espaço ocupado, por gentes da terra, moradores do bairro operário da Fontinha e pessoas que procuram sonhar mais do que seguir ordens e, como tal, continua, mesmo sob ameaça de despejo imediato pela CMP, a manter a sua actividade normal com quem queira aparecer, lutando pela libertação de espaços e pela recuperação das nossas vidas no dia a dia, longe das lógicas que nos procuram mostrar como as únicas. O Es.Col.A não precisa de contratos – estava melhor com a indiferença camarária a que nos habituámos durante este ano de trabalho, um ano composto por pequenas vitórias. Os ventos de liberdade e rebeldia sopram pelas ruas da Fontinha: os seus habitantes começam a perceber que basta querer e fazer para que seja possível.

    O Es.Col.A não será nunca despejado, porque não se podem despejar ideias.

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