Zona laranja

Há uns anos, quando os americanos ocuparam o Iraque, refugiaram-se no palácio do antigo ditador, um enclave luxuoso com piscinas e centros comerciais que ficaria conhecido por “Zona Verde”. Mal ali chegaram, no afã habitual que os caracteriza, funcionários inexperientes nomeados por Bush trataram de traçar, no sossego do computador, soluções burocráticas para o país. Um deles, chamado James K. Haveman (qualquer semelhança com “Caveman” é uma deliciosa coincidência fonética), a quem alguém ainda mais tonto do que ele entregou a pasta da Saúde, decide que aquilo de que o Iraque precisa é de uma campanha anti-tabaco. Nas ruas de Bagdad vai uma guerra mortífera; nos hospitais, cortes de energia matam bebés em incubadoras. Não há analgésicos nem medicamentos. Mas para o funcionário americano, o problema, claro, é o tabaco.

Vem tudo contado no excelente “Vida Imperial na Cidade Esmeralda”, do jornalista Rajiv Chandrasekaran:

Haveman arrived in Iraq with his own priorities. (…). He urged the Health Ministry to mount an anti-smoking campaign, and he assigned an American from the CPA [Coalition Provisional Authority] team — who turned out to be a closet smoker himself — to lead the public education effort. Several members of Haveman’s staff noted wryly that Iraqis faced far greater dangers in their daily lives than tobacco. The CPA’s limited resources, they argued, would be better used raising awareness about how to prevent childhood diarrhea and other fatal maladies.

Quando li isto, há uns anos, não consegui afastar a imagem de um iraquiano barbudo a fumar para cima dos posters sanitários do ocupante: “Smoking kills”. Barbudo, a fumar e a rir: é assim que eu gosto de imaginar o meu iraquiano — embora reconheça que o humor, essa válvula de escape, também tem os seus limites.

Fast forward para o presente: Portugal, 2012. A Troika ocupou o país. Aconselhado pelos burocratas da Comissão Europeia e do FMI, o ministro da Saúde fecha hospitais e maternidades. Relatos na imprensa dão conta de gente a morrer com cancro por não conseguir pagar os tratamentos. O povo deixa de ter dinheiro para as urgências. Estar de baixa passa a ser um luxo reservado a doentes ricos. Comer também: criancinhas vão para a escola sem terem jantado, e pequeno-almoço, viste-lo. Mas o Governo está atento à saúde dos menores: vai proibir os paizinhos de fumar no carro, e exigir além disso a colocação de “advertências mais explícitas nas embalagens que mostrem e exemplifiquem as consequências do tabagismo na saúde”, Paulo Macedo dixit. Não sei o que é que este ministro anda a fumar, mas deve ser MUITO fixe.

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