Centenário da 1ª greve geral na Australia

Anteontem passaram 129 anos desde a morte de Karl Marx. Mas para comemorações preferem-se datas redondas. Deixo de parte perguntas sobre a esfericidade dos números. Há cem anos, deu-se a primeira greve geral na Austrália, tendo como seu centro Brisbane, Queensland e seus instigadores os trabalhadores dos eléctricos urbanos. A 18 de Janeiro, membros do sindicato iniciaram o seu turno envergando símbolos do seu sindicato. Foram despedidos. A 28 de Janeiro, os trabalhadores de Brisbane  reuniram-se e não satisfeitas as suas condições, entraram em greve durante 5 semanas. Os sindicalistas, em conjunto com a população, realizaram encontros para galvanizar apoio; auferiram fundos; emitiram cheques alimentares apenas às empresas aprovadas pelos sindicatos; organizaram alimento para os hospitais e outras instituições do estado durante a greve; formaram grupos de vigilância. O Comité de Greve tornou-se um governo alternativo em Brisbane: trabalho só era realizado com permissão do Comité de Greve. A 31 de Janeiro, entre os milhares de trabalhadores que desfilavam e os milhares de apoiantes encontrava-se 75% da população da cidade.

A permissão para uma manifestação no dia 2 de Fevereiro foi negada. Mas 15 mil trabalhadores congregaram-se para se manifestar, enfrentando a fúria policial, numa jornada que veio a ser conhecida como a Sexta-feira Bastão (ou Negra).

Emma Miller (1839-1917)

As mulheres tiveram papel destacado na luta desse dia. Quando a multidão enfrentou centenas de polícias com espingarda e baioneta, cerca de 600 mulheres desafiaram as ordens policiais e marcharam para o parlamento. Foram depois forçadas para trás à bastonada e presas em grande número. Entre as líderes, encontrava-se a sindicalista e sufragista Emma Miller que, apesar dos seus mais de 70 anos de idade e meros 35 kilos, manteve-se firme e (reza a história) puxou do seu alfinete do chapéu e enfiou-o na coxa do cavalo do comissário da polícia, que em resultado da queda terá ficado coxo para o resto da vida.

A greve geral terminou oficialmente a 6 de Março, quando foi acordado que os grevistas não seriam victimimizados. Os trabalhadores demitidos nunca foram recontratados. A violência do dia 2 de Fevereiro perdurou na memória. A proibição de identificação sindical persistiu até 1980.

Sobre André Levy

Sou bolseiro de pós-doutoramento em Biologia Evolutiva na Unidade de Investigação em Eco-Etologia do Instituto Superior de Psicologia Aplicada, em Lisboa
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13 respostas a Centenário da 1ª greve geral na Australia

  1. ravachol diz:

    vovês intelectuais marxistas do século XXI adoram celebrar estas efemérides de episódios de confrontação física, revolta, motins, sabotagem, greve selvagem e destruição de propriedade.
    mas eles só vos servem como relíquias históricas, memórias de trazer ao peito de um tempo passado, pré-moderno, onde a civilização não tinha ainda amenizado os humores das classes sociais em confronto.

    Agora, hoje, vemos em todo o planeta o maior ataque da ideologia do dinheiro e do poder à dignidade humana, à liberdade, às possibilidades de criar autonomias e satisfazer as necessidades e os instintos básicos de todos os seres humanos despossuídos. Se calhar o maior desde sempre – na sua perfeição, na sua plenitude, na sua intensidade.

    Ainda assim, o horizonte de luta da elite indignada e activista são os cartazes com frases bonitas na janela, as manifestações pacíficas e ordeiras às horas e nos percursos negociados com a polícia, … as greves POR UM DIA!!! controladas pelos sindicais moderadores de desejos e de revolta , as simulações aldrabadas e autoritárias de um anti-poder colectivo que são as assembleias populares e acampadas…

    Quando é que vão perceber, que independentemente do que queremos para o dia seguinte, de sermos ou não marxistas, nihilistas, autónomos, pessimistas, surrealistas, pós-situacionistas, tudo se sintetizará e se clarificará para se tornar pó, evidência, possibilidade, num SÓ dia. O dia em que um grupo considerável de pessoas decidir assumir a responsabilidade de acabar com o monopólio da violência surda, repressiva e ideológica a que se chama o Estado, a normalidade, a Ordem. Usar o seu corpo, o seu número, a sua força de vontade e alegria para perder o medo e avançar, pegar no que estiver à mão, paus, pedras, espingardas, garrafas e dizer alto: acabou.

    Em Atenas é essa a angústia que se vive neste momento. Já muita gente percebeu que em breve terá que pegar em armas, virar carros, arrombar portas, obrigar os Coelhos e os Mexias todos lá do sítio a despir o pijama, as ceroulas, as gravatas e a enxotá-los à rua para ver o que lhes resta da sua humanidade.

    Aqui, continuamos a olhar para o lado à espera que passe.
    Na minha opinião o primeiro passo é dizer juntos: já somos muitos, mas ainda estamos assustados, pensar nisso ainda nos derrete de medo.

    abraço. ravachol

    • Caro ravachol, não vejo mal em celebrar a história, para com ela apreendermos. Na sua própria linha de pensamento, a invocação desta greve traz a lume uma greve geral (numa cidade) que durou dias, que implicou grande preparação e organização, que foi alvo de forte repressão. Outras greves e lutas de ainda maior duração poderiam ilustrar essa mesma possibilidade de greves de larga duração. Para não ir muito longe no tempo nem no espaço, recordo a luta dos trabalhadores da Pereira da Costa, na Amadora, durante 18 meses. Mas recordo que greves de longa duração têm historicamente sido travadas ao nível de empresas ou sectores; não greves gerais. Na Grécia, onde a luta sindical assume um vigor e tenacidade mais avançados que em Portugal, que eu me recordo (e corrijam-me se estou enganado) a Greve Geral mais extensa foi de dois dias.
      Entendo a sua necessidade de uma luta ainda mais combativa, face às adversidades do momento. Fico aquém do seu apelo às armas e garrafas (e das suas bocas aos “intelectuais”, “elites” e “sindicais moderados”). Mas não desvalorize a greve geral de um dia. Greve geral que vem no seguimento da greve geral do dia 24 de Novembro e da grande concentração no Terreiro do Paço a 11 de Fevereiro, além das múltiplas lutas regionais e sectoriais. Pode não ser uma greve geral por tempo indeterminado com barricadas nas ruas, mas é um significativo processo de luta contínua, persistente. Acha sinceramente que existem condições objectivas e subjectivas para um levantamento (que é o transparece das suas palavras)? Parece-me uma proposta desligada da realidade. Não creio que se possa dizer que o constrangimento seja o medo. Este existe sem dúvida. Mas faltam ainda a mobilização de mais pessoas, mais sectores, maior unidade e solidariedade, maior organização (que queira ou não passa pelos sindicatos). Isso desenvolve-se com a continuação do processo de luta em curso.

  2. ravachol diz:

    será?

    não será que os modelos de luta (as formas práticas como acontecem e a sua reflexão no nosso quotidiano e no nosso imaginário íntimo) desenhados hoje determinam o nosso empenho e a nossa predisposição para outros combates.

    Não tenho dúvidas que há uma diferença abismal, galáctica, entre um grupo ordeiro de carolas a gritar ao ritmo do megafone “Salaário sim! Desemprego Não!” ” Está na hora, Está na hora, do Governo se ir embora” e, por outro lado, uma ocupação (de fábrica, de edifício público, de casa abandonada que possa servir um qualquer projecto de autonomia), uma sabotagem, uma expropriação de supermercado (pingodoce p.ex.!) com distribuição de comida pelos grevistas; um de grupo de estivadores organizado a lançar petardos e a provocar atenção com a sua presença e fúria.

    Não tenho dúvidas que enquanto no primeiro modelo, a forma como ele ecoará dentro de cada um de nós, soará a derrota, a amargo de boca, a vazio, a mais-do-mesmo, a regressar a casa ao fim d’outro dia de greve para ver os números e os discursos na televisão; no segundo se criarão laços, se desenvolve a noção de que somos nós os inevitáveis e os incontornáveis, se devolve a noção de que o poder se sustenta na nossa complacência e inacção, que qualquer corte de estradas, qualquer sabotagem de comboios, interrompe o fluxo de mercadorias, perturba o0 funcionamento do capital e arrasa ptoencialmente o poder que nos suga a vida.

    A greve parte do princípio abosolutamente revolucionário e incontornável de que a base, o combustível, do capitalismo é a nossa força – o nosso trabalho. E que se nos recusarmos a participar, ele cai. Com os seus conhecimentos históricos saberá concerteza que quando a noção de “greve geral” surgiu era um sinónimo de revolução: significava, parar TUDO!

    Hoje a força do capitalismo não está só no nosso trabalho, está em todas os domínios da nossa vida, da nossa normalidade. Na circulação, na comunicação, nos telefonemas, na comida, no tempo-livre, toda a nossa actividade normal é mercadoria. Quando apanhamos o comboio ou o carro e vamos abastecer na Galp para ir à greve, depois bebemos uma mini ou um café e voltamos a casa para ver a coisa na televisão. Isso é o capitalismo também!

    Se não cortarmos com isso não paramos nada. Sujeitamo-nos apenas a sentirmo-nos insultados com as declarações de um Cavaco a congratular-se pelo exercício normal e ordeiro dos trabalhadores do seu direito à greve.

    O que podem fazer 4 pessoas organizadas com umas centenas de pregos dobrados a uma hora de ponta no marquês de pombal? e 10 trabalhadores dos telefones num dia de páscoa?
    e 30 homens-do lixo com desejos delirantes? e 50 estivadores determinados não bastarão para parar todo o fluxo? e 60 camionistas?

    queremos comparar o impacto dessas 154 pessoas bem organizadas, e com vontade de passar a outras dimensões de luta com mais um cortejo da cgtp?
    Será que uma organização tão grande e tão poderosa com a cgtp não tem capacidade de infligir um golpe incontornável e um bloqueio da economia e da vida de maneira a que este ataque cleptocrático não possa continuar? claro que sim! Mas preferimos sempre o jogo institucional, a repeitabilidade mediática, a normalidade democrática… enfim, o costume.
    É que essa gente tem um emprego, uma família e uma televisão para defender…

    Mas é sobretudo isso que nos separa, não é?

    outro abraço
    R

    • Caro ravachol, não pense que argumentei contra formas de luta mais abrangentes, diversificada, uma luta que coloque diversos contratempos na vasta maquinaria que é o capitalismo. Apenas argumentei que a luta é um processo, e tenho toda a confiança que intensificando-se a agressão do Governo e da Troika, também se intensificarão e diversificarão as formas de luta. E admito que saber quando subir a barra qualitativa da luta não é fácil. Há o risco de uma vanguarda dar um salto que os demais não acompanham.Não há que ser demasiado cauteloso. Mas há que ter em conta a participação nas luta, a capacidade organizativa e mobilizadora, e percepção das lutas (mesmo que vistas pelo filtro distorcido dos media). A marcação desta nova Greve Geral foi vista como alguns como má estratégia (opinião que não partilho). E há a possibilidade de toda uma frente avançar. O movimento de Occupy Wall Street, inicialmente de pouco mais que uma centena de pessoas, tomou uma dimensão que poucos poderiam prever. Mas não partilho é o seu pessimismo face a actual fase de luta (“154 pessoas … num cortejo da cgtp“)

  3. ravachol diz:

    ahhh, quanto ao seu comentário sobre as greves longas serem travadas ao nível micro e das empresas… Está mal informado.

    Infelizmente a maioria dos sindicatos maioritários na Europa são de facto mediadores e atenuadores da agressão capitalista. Mas ainda assim há vários exemplos de greves gerais por tempo indeterminado que tiveram sucessos imbatíveis em toda a linha, com recuos monumentais por parte dos governos e com a criação de dinâmicas de autonomia revolucionárias.

    E não é preciso recuar ao gloriosos tempos do início do século xx. Ainda em Dezembro de 95 em França podemos encontrar um caso desses. Durou cerca de 1 mês e meio, penso.

    Durante esse tempo a circulação automóvel em Paris ficou completamente bloqueada! Paris! 10 milhões de habitantes! Ocupação de universidades, fábricas e liceus, confrontos diários na rua, comboios parados. Para ter uma noção: o meio mais rápido de se deslocar de uma ponta à outra da cidade eram os bateau-mouche controlados pelos grevistas para fazer o transporte de pessoas para as manifs, com musica jazz e cházinho a bordo, tudo sentado no chão!

    Se se informar encontrará outros exmplos…

    • Caro Ravachol, muito justa e pertinente a sua observação de que apesar dos sindicatos do centro da Europa serem reformistas – ocupando nacionalmente e internacionalmente a posição da nossa UGT – as lutas dos trabalhadores são aguerridas. Demonstra, a meu ver, a importância e capacidade das organizações sindicais de base de forçar as direcções das centrais sindicais a tomarem posições de classe.
      Mas instrua-me se estiver enganado: no final de 1995 não houve uma Greve Geral de um mês e meio seguido. Ocorreram efectivamente várias greves, particularmente no sector público, e uma greve prolongada no sector dos transportes. Aliás ainda mais recente: em 2010, ocorreram 14 Greves Gerais Nacionais: 23 de Março; 1 e 27 de Maio; 14 e 24 de Junho; 7 e 23 de Setembro; 2, 12, 16, 19, e 28 de Outubro; e 6 e 23 de Novembro. http://en.wikipedia.org/wiki/2010_strikes_in_France
      (A minha evocação do centenário da greve em Brisbane não foi uma referência a uma “Era de Ouro”. Encontrei referência à greve ao surfar a net, achei alguns aspectos interessantes, e quis partilhar. Não tive nenhuma intenção de fazer comparações qualitativas entre o esse passado e o presente.)

  4. Luis Almeida diz:

    Acho bom darmos a palavra a Jerónimo de Sousa ( pluralismo, não é ? ) e cito de cor: “Eles” não temem a luta. Só a temem quando é organizada e crescente de intensidade!”
    Não, não vivo de citações, repito-a aqui apenas porque condensa tudo o que eu próprio penso e porque o diz, creio, melhor do que eu o diria…

  5. ravachol: temos o mesmo comprimento de onda.

  6. Caro André Levy, amigo passante, pergunto-lhe se tem algum critério, que desconheça, para comentar as suas palavras (ou neste caso a de outros passantes)? Se assim for, agradecia que me esclarecesse.

    (Com estima)

    • Só pode ser ironia este seu último comentário. Particularmente dado a sua contra-resposta, que mais uma vez hesitei mas aprovei não lhe fosse dar para depois erroneamente fazer acusações de censura. Reafirmo, erroneamente. Já tenho visto essa acusação entre os comentários no 5dias, mas ela não é justa. Os autores deste blog, grande parte dos quais estão claramente identificados, têm a responsabilidade pelos seus artigos e pelo tom da discussão na secção de comentários. A menos que haja apelo à defesa da honra, nenhum comentarista tem direito a ter o seu comentário publicado no 5dias. Pode exprimir-se noutro local qualquer da internet livremente. Chumbar um comentário não constitui a meu ver uma violação da liberdade de expressão. Mas não duvido que tenha sobre tal opinião diferente. Não fosse eu orgulhosamente militante de um Partido que você furiosamente despreza.

  7. Caro André Levy, estou elucidado.

    Permita-me só, sem querer abusar em demasia desta caixa de comentários, a seguinte a observação: incrível a sua capacidade para presumir que nutro um “furioso desprezo” pelo seu Partido. Com todo o respeito: dedique-se ao tarot.

    • Caro wconstrangido, por erro meu a minha resposta “Só pode ser ironia este seu último comentário…” não lhe era dirigida. Era para o Luis A. Afonso, num outro post. As minhas desculpas pelo engano e mau-entendido que possa ter daí resultado. Explicado o equivoco, e procurando responder a sua pergunta original – “pergunto-lhe se tem algum critério, que desconheça, para comentar as suas palavras (ou neste caso a de outros passantes)?”. Não creio entender bem a pergunta, mas se me está a perguntar se tenho algum critério para julgar um comentário construtivo, até hoje nunca mandei para o lixo nenhum comentário. Prezo comentários que sejam divergentes dos meus, desde que mantenham um tom de respeito e algum nível de lógica. Procuro responder a comentários quando posso.

  8. Caro André Levy, está tudo mais claro agora. A sua última resposta leva-me a pensar que afinal, me precipitei um pouco no meu segundo comentário. Esqueçamos tudo. Voltemos à primeira forma.

    E desculpe-me o tom menos próprio à sua pessoa.

    Com estima.

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