“Darwinismo” social II

O interessante e plural debate ocorrido ontem, durante o lançamento do novo formato e arranjo gráfico do Le Monde Diplomatique (a propósito: ficou com muito melhor leitura, para além de o conteúdo deste número ser excelente), trouxe-me à memória uma aula recente, sobre a moralidade do capitalismo oitocentista.

Herbert Spencer, inventor da expressão «a sobrevivência do mais apto» e percursor da sociologia, explicava perante plateias de milionários embevecidos que os ricos são inocentes beneficiários da sua superioridade. O rico é rico em virtude da sua aptidão perante as “dificuldades de viver” que todos os seres humanos e animais enfrentam, da mesma forma que o pobre o é em resultado da sua inaptidão e inferioridade.
Dessa forma, a assimetria e concentração de riqueza é (para além de esse processo natural) simultaneamente a justa recompensa da aptidão, o estímulo para que os mais aptos apliquem as suas capacidades, e um instrumento para o aperfeiçoamento da espécie humana – já que os melhores têm melhores condições de alimentação, saúde, alojamento e educação, permitindo-lhes viver mais do que os incapazes e tornar os seus filhos mais aptos.
Interferências estatais sobre a acumulação e distribuição da riqueza são, assim, contraproducentes para a sociedade e a evolução humana.
Mas quer isto também dizer, lembrava o sisudo cavalheiro, que quaisquer mecanismos e acções de apoio aos pobres são negativos para a espécie humana, já que lhes permitem sobreviver e reproduzirem-se, com isso atrasando a extinção dos incapazes e menos aptos.
Por fim, é fulcral que, independentemente dos devaneios democraticistas, os mais ricos dominem o poder efectivo, pois sem eles ou contra eles, os mais aptos, capazes e competentes, será o descalabro para a humanidade.

O seu menos conspícuo pupilo William Summer viria depois a acrescentar mais umas pérolas de sabedoria a este chorrilho de sensatos argumentos.
Acrescentava ele que, afinal, este processo também pode salvar o pobre do extermínio, pois só a luta pela sobrevivência o pode fazer trabalhar, contra todas as suas «inclinações naturais».
Preguiçoso e incapaz, só a concentração da riqueza nas mãos dos ricos é capaz de fazer o pobre labutar duramente, resultando do esforço combinado de ambos a produção e a riqueza, que ajudam mais gente a sobreviver.

Agora, substituam «ricos» por “países do centro”, ou por “países do norte”, “países ricos”, “países orçamentalmente rigorosos” ou, se quiserem, mesmo caricaturando, por Alemanha…
E substituam «pobres» por “países da periferia”, “países do sul”, “países pobres”, “países despesistas e irresponsáveis” ou, de novo simplificando e caricaturando, por Portugal, Grécia, ou novos candidatos a esses epítetos.

Se, em finais do século XIX, ouvíssemos pobres a aplaudir Spencer e a utilizarem, acerca de si próprios e da sua situação, os argumentos tão sábia e sensatamente expostos por ele, falaríamos, na melhor das hipóteses, de gramsciana hegemonia.
Mas, falássemos ou não disso, vir-nos-ia certamente também à boca alguma expressão menos interpretativa e mais descritiva. Como, por exemplo, «SABUJO».

Mas tudo isto nos prova, ainda, que nem sempre as sequelas da história são menos trágicas do que o original, por muito que elas também possam ter laivos de involuntária comédia.

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