9 de Março

O Dia Internacional da Mulher está a perder o sentido, é certo, sobretudo porque se declara muito sem se estar disponível para mudar nada. Aproveita-se a comenda para fazer da mulher biombo de sala.

A classe dominante, sobretudo a do género feminino, tomou conta da efeméride para falar de tudo e poder continuar a assobiar para o lado. Ainda assim, se do natal ao animal tudo tem dia neste mundo, qual o mal que quem assim entenda celebre os direitos que já se conquistaram, lembre os que ainda estão por chegar e brinde àquelas que ao longo dos anos deram sempre o corpo às balas?

Uma mulher pode simultaneamente ser revolucionária e usar véu como ser retrograda e fazer nudismo. A dimensão da liberdade que se conquista para os seios nem sempre é proporcional à emancipação de quem as leva penduradas. O papel que jogam numa dada sociedade não se traduz pelo diâmetro do decote mas pela profundidade das raízes da sua consciência de classe. As latifundiárias têm grilhões diferentes dos que castam as camponesas e as madames nunca saberão como vive a operária.

Ainda há palermas que acham que o machismo se enterra com palavras e o feminismo se decreta com boas intenções. Outros, menos espertos ainda, entendem que a exaltação do corpo, independentemente da formosura com que são desenhadas, reflectem por si só a heterossexualidade de quem as exibe. Para eles, uma lésbica terá sempre buço, curvas fortes e andar de cavaleiro, ao passo que um gay tem que ter trejeitos, voz fininha e olhar de Cinderela.

Os imbecis, coitados, dirão sempre que quem deu o peido foram eles e não elas, perpetuando o patriarcado em nome de uma qualquer corte ao feminismo burguês, do burn the bra ao evangélico.  À emancipação da mulher devia aliar-se a emancipação do homem, sem cair na ratoeira de achar que a única posição não sexista para foder é fazer amor de lado. O pífio que estufa o peito para dizer que superou o machismo deve ser investigado. É na assumpção do vício que se começam a esboçar virtudes, não o contrário. A moral sem bons costumes nunca pariu resultados.

Não há nada mais sexy do que um homem feminista, não é assim Sérgio Lavos?

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