O silêncio do Carlos Guedes e a azia do Bloco de Esquerda (ou: eis o motivo pelo qual os aderentes do BE nada escrevem desde o descalabro da candidatura presidencial do Manuel Alegre)

A escolha de Marcelo Rebelo de Sousa para lançar um livro do Francisco Louçã e da Mariana Mortágua, feita pelos próprios, merece todas as farpas e alguma, não muita, estupefacção. O Bloco de Esquerda e os seus dirigentes já nos habituaram a este tipo de espectacularização da vida pública e demasiada surpresa só deve espantar quem não tem mantido os olhos bem abertos. A escolha é um disparate, uma patetice, um erro que quase não prejudica ninguém além do Bloco de Esquerda, e claro, o livro que acabou de chegar às bancas. Para lá disso, conspira, conscientemente ou não, a favor da idolatração da mais forte cartada da direita para as presidenciais.

Em primeiro lugar porque se trata de uma escolha reveladora do ponto de vista político. Marcelo nunca lançaria um livro a defender a saída do euro ou a suspensão do pagamento da dívida. Ao fazê-lo, o primeiro atestado que passa é à própria política que é desenvolvida no livro e sabemos, mesmo sem ler uma linha, que ele mais não fará do que a justificação da estratégia que o Bloco de Esquerda vem seguindo, da gestão humanitária dos negócios comuns da burguesia. A presença de Marcelo mais não confirma que a política do BE, sobretudo no que diz respeito à economia, está mais próxima da social-democracia e da democracia-liberal do que da esquerda anti-capitalista.

Em segundo lugar trata-se de uma má opção de marketing. A direita vai continuar sem ler o Francisco Louçã e a Mariana Mortágua e alguma esquerda nunca lerá um livro de economia sugerido por Marcelo Rebelo de Sousa. Uns e outros têm Krugman para citar a gosto, à direita a bênção do Marcelo dificilmente convence mais do que o Vasco Rato e à esquerda estou certo que o figurão não é melhor publicitário que do João Rodrigues. Porque não convidaram o Durão Barroso para o lançamento do Guerra Infinita?

Por último há ainda a agenda do Marcelo Rebelo de Sousa, à qual os autores do livro não são alheios, e cuja estratégia passa por preparar o caminho para as eleições presidenciais. Esquerda nenhuma, mesmo que sem consciência disso, lhe devia prestar vassalagem.

O pior inimigo do Bloco de Esquerda e dos seus dirigentes continuam a ser o Bloco de Esquerda e os seus dirigentes e sobretudo o Carlos Guedes sabe disso. Assim foi com o Sá Fernandes e com o Manuel Alegre, assim continuou com o bombardeamento da Líbia e na defesa da ocupação financeira da Grécia e assim parecer ser na subserviência ao Euro, à Europa e à Dívida que nos querem continuar a impor, entre livros, ensaios e manifestos.

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