Síria: contra o ditador e contra os ‘amigos’ da NATO

A história não é a preto e branco e um dos grandes equívocos da esquerda no século XX é o campismo, ou seja, a teoria de que há dois lados da barricada, o imperialismo e o antiimperialismo, e nós só temos de escolher um deles, nada mais. Putin parece opor-se à hegemonia dos EUA? Estamos do mesmo lado, risca-se a palavra Chechénia do dicionário. O Irão denuncia o esmagamento da Palestina por Israel? Não se diz nada da opressão das mulheres, dos sindicalistas e da oposição democrática a Ahmadinejad. Cuba resiste ao domínio norte-americano? Silêncio total sobre as malfeitorias da ditadura castrista. A ditadura síria procura manter-se no poder esmagando o seu povo, mas é ao mesmo tempo ameaçada de invasão pelos EUA? Só podemos escolher entre estar com Assad ou com Obama.

Matar um povo barricado numa cidade é genocídio, e qualquer insurreição popular democrática contra uma ditadura – independentemente das direcções políticas que estão à frente dessa insurreição – deve contar com o nosso apoio. O ditador sírio deve ser derrotado e pagar pelos crimes bárbaros que está a cometer.

Porém, se a Síria for invadida pelas tropas imperialistas dos EUA, da UE e outros, não faz qualquer sentido alinhar ao lado dos ‘democratas libertadores ocidentais’. Na hierarquia mundial das nações, a Síria é um país dominado, e os supostos ‘democratas’ norte-americanos e europeus são os dominadores. Não há, a não ser muito conjunturalmente, nenhuma ditadura no Mundo que não conte com a complacência ou o apoio directo dos ‘democratas’ imperialistas norte-americanos e europeus.

Se o regime sírio, ainda que tibiamente e apenas para salvar a própria pele, decidir enfrentar a invasão imperialista, o dever de qualquer revolucionário internacionalista continua a ser o de combater os invasores imperialistas – neste caso, e durante essa hipotética conjuntura, militarmente (não politicamente) poderíamos ver-nos a disparar para o mesmo lado que o ditador do país dominado. Enquanto/se isso não acontecer, estamos do lado dos insurrectos contra o ditador. Não é esmagando um povo que se reforça a sua capacidade de resistência ao imperialismo.

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