“Vergonha” de Steve McQueen

Fome, a primeira longa-metragem de Steve McQueen, era, baseada numa história verídica, o retrato poderoso de Bobby Sands, um prisioneiro do IRA em defesa do estatuto de prisioneiro político para si e para os seus camaradas. Não era um manifesto político, até porque ia expondo algumas contradições e acções ilegítimas do movimento, mas focava-se principalmente na luta a qualquer custo de um homem por uma causa. Apesar de bem diferente, Vergonha dá mais um longo passo em frente na carreira do realizador.

O filme aborda um lado destrutivo e perverso das relações sentimentais / sexuais e, nesse campo, podia aproximar-se do poderoso Closer – Perto Demais. Contudo, apesar de algumas semelhanças estéticas, o ângulo é completamente diferente. Brandon tem uma vida profissional bem sucedida (esse lado não é muito explorado, nem interessa) que, na intimidade escondida, é um homem sozinho e viciado em sexo, seja na forma de one night stand, na contratação de prostitutas ou através de diversos dispositivos da internet. No entanto, um dia tudo muda quando recebe a visita da irmã Sissy (Carey Mulligan), uma espécie de espelho da personalidade de Brandon, que o vai transtornar de forma irreversível.

Para além da consistência do argumento, a grande mais-valia do filme está na concretização, na montagem, na panorâmica bestial de Nova Iorque, nos planos parados que já eram típicos em Fome, em pormenores deliciosos. Basta pensar naquela cena do metro, logo no início, com uma intensidade dramática perturbadora. É a exploração perfeita do silêncio (aquilo que  Drive tenta fazer, mas que concretiza de uma forma absurda e expondo Ryan Gosling a um ridículo atroz), já imagem de marca da curta carreira de Steve McQueen, completada por uma deliciosa banda-sonora, nomeadamente nos trechos de Harry Escott. E tudo isto é particularmente eficaz porque Michael Fassbender tem um desempenho brilhante, interpretando na perfeição o vício e o conflito existencial de Brandon e confirmando, depois de Fome e Um Método Perigoso, ser um dos nomes do momento, tendo sido premiado em Veneza (a ausência da nomeação para os Óscares só não é uma vergonha, porque há que relativizar a importância dos prémios da academia).

De resto, apesar de haver aqui grande cinema ao longo de todo o filme, é possível destacar outros dois momentos arrebatadores.  Por um lado, a interpretação soberba de New York, New York por Carey Mulligan, principalmente pela forma crua como é filmado e pelas repercussões que tem na trama. Por outro, aquela sequência final, com saltos no tempo e um desenlace tão ambíguo quanto necessário, é de deixar o espectador verdadeiramente em transe.

Um grande, grande filme, que alia um interessante argumento a uma construção formal invulgar e verdadeiramente memorável.

9/10

Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.