“Cavalo de Guerra” de Steven Spielberg

Se há coisa que se pode referir em relação ao trabalho do cineasta Spielberg, é que é globalmente coerente. Com raras excepções (o belíssimo Munique, com o mérito de, num conflito tão complexo, fazer um exercício de análise sem tomar partido por nenhuma das partes), há uma fluência narrativa e uma simplicidade natural, quase ao nível da história de encantar, que é transversal à sua longa e profícua carreira, mesmo quando aborda assuntos sérios. Neste campo, há os melhores exemplos, com destaque para a obra-prima Lista de Schindler, os intermédios, como Resgate do Soldado Ryan ou Terminal de Aeroporto, e o falhanço redondo de A.I, Inteligência Artificial.

Em Cavalo de Guerra, a fórmula repete-se. A história passa-se na I Guerra Mundial e o desafio é acompanhar a vida de um cavalo e as suas peripécias fundamentais ao longo desse conflito. Trinta anos depois de E.T. (o verdadeiro filme para toda a família, no que esta expressão pode ter de melhor) e por uma via previsivelmente mais realista, Spielberg volta a tentar aproximar o espectador de um bicho, neste caso um animal e não um extra-terrestre, através do afecto que as várias personagens vão sentindo pelo cavalo, em particular o jovem Albert, responsável pela aprendizagem do animal

A ideia é bem pensada e Spielberg volta a ser um mestre na forma como conduz a história, como agarra o espectador, como o tempo vai passando sem que se dê conta, com John Williams a dar o toque musical da ordem. E tem pequenos pormenores deliciosos, como a aparição do ganso na fase inicial, ou óptimas cenas de cinema, com destaque para a trégua anglo-germânica para libertar o cavalo do arame farpado, um mini-apontamento na mesma linha que o comovente e muito bonito Feliz Natal, baseado em factos verídicos. Só que, ao mesmo tempo, perde-se um pouco com aspectos paralelos à margem do cavalo, tem bons bocados que são perfeitamente dispensáveis, como a presença do avô/neta franceses, que pouco mais dão que acrescentar algum sentimentalismo barato, e o final podia perfeitamente ter sido antecipado uns 10 minutos (o leilão e o que se lhe segue é verdadeiro happy end hollywoodesco).

Não é um grande filme e estará longe do Spielberg vintage, mas vê-se com prazer.

6/10

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