Trabalho Imaterial e Classe Social: uma perspectiva dialética

Há uma nova configuração da classe trabalhadora fruto do desenvolvimento de trabalhos imateriais? O trabalho imaterial mudou a configuração da estrutura ocupacional, no entanto, as formas de apropriação de trabalho e de geração de lucro com base na produção de mercadorias não foram alteradas e, por consequência, a divisão social em classe também não.

Texto de Henrique Amorim, professor na Universidade Federal de São Paulo

Nos últimos 40 anos a diminuição de postos de trabalho ligados à industria, sobretudo automobilística, na Europa e Estados Unidos levou muitos intelectuais a se interrogarem sobre o fim da chamada “era do trabalho”. No final da década de 1980, início dos anos 1990, em países de economia avançada, esse argumento se avolumou por conta do surgimento e crescimento de serviços de telemarketing, publicitários, de programação informacional, de engenharia de projetos, de informação jornalística, entre tantos outros que se apresentavam como tipos de trabalhos basicamente intelectualizados. Considerou-se também nessa época um possível fim do trabalho industrial e das “sociedades industriais”, como expressão da superação do trabalho intelectual em relação ao trabalho manual. Esse último, considerado típico do período industrial. Como desdobramento dessa argumentação, projetou-se o fim da relação trabalho material / trabalho imaterial e, por conseguinte, o fim da produção de valores de troca baseada na exploração do trabalho assalariado.

Diante desses argumentos, a primeira pergunta que fazemos é: superadas as relações centrais típicas do capitalismo, que sociedade estaríamos reproduzindo? A resposta seria óbvia por parte daqueles que advogam o fim da produção de mercadorias e do trabalho industrial: estaríamos em uma sociedade denominada de capitalismo cognitivo. Então, aprofundemos nossa interrogação: qual o sentido de material e imaterial para as teses que apontam para o surgimento do capitalismo cognitivo?

Para nós, essas questões estão relacionadas ao conceito de classe social, ou melhor, estão relacionadas a como o debate sobre o imaterial considerou o conceito de classe trabalhadora. Nesse sentido, o entendimento sobre o que é material e imaterial e sua relação com o conceito de classe explicita os inúmeros equívocos da abordagem sobre o capitalismo cognitivo.

Retomemos Karl Marx de O Capital, autor e texto base para a afirmação ou refutação dos argumentos que compõem a tese do capitalismo cognitivo. Em O Capital, ao introduzir a forma dupla do valor de troca e de uso na mercadoria, Marx submete a produção do valor de troca ao tempo de trabalho necessário à produção, sendo essa produção caracterizada por necessidades sociais oriundas do estômago ou da fantasia.

Nesse sentido, não parece haver diferenciação substancial entre a produção ou o trabalho material ou imaterial. Quando Marx analisa a produção de mercadorias, fundamentada socialmente pela produção do valor-trabalho, a caracteriza como uma relação político-temporal, isto é, com base em uma relação de exploração de um coletivo de trabalho histórico e socialmente determinada. Assim, a produção de mais-valia é sempre entendida por Marx como uma relação abstrata do ponto de vista da troca de quantidades de tempo expropriado pelo capital, não importando se a produção e o resultado do trabalho são materiais ou imateriais.

A teoria de Marx sobre a natureza do trabalho se fundamenta em um conjunto específico de relações sociais e não no conteúdo físico utilizado, como matéria-prima, para a produção de outras mercadorias. Se falamos de uma mercadoria-conhecimento ou de uma mercadoria-máquina o que está em questão, para o autor, é a forma como elas são produzidas e não sua fisicidade. A materialidade é, assim, histórico-social e não física. Ela é dada pelo conjunto de relações sociais presentes em um processo de produção (no caso capitalista). Portanto, não se trata da tangibilidade ou intangibilidade de produtos, mas de como essas mercadorias são produzidas.

A produção de mercadorias, nestes termos, é expressão e ao mesmo tempo fundamento da divisão capitalista em classes sociais. É nesse sentido, que o conceito de classe mostra-se central para compreendermos a produção capitalista, seja na fábrica de informação ou na fábrica de carros ou liquidificadores.

Classe social e, particularmente, classe trabalhadora não podem ser lidas, em Marx, como uma simples soma de indivíduos dotados de sentido conceitual pela posição e qualificação profissional de seus postos de trabalho. Eles, esse conjunto em classe social, não se resumem a uma determinação sócio-profissional, no entanto, foi a partir dela que o fim do trabalho, do valor e, então, da classe foi anunciado e a tese do capitalismo cognitivo acabou por tomar forma.

Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

10 Responses to Trabalho Imaterial e Classe Social: uma perspectiva dialética

Os comentários estão fechados.