Um país à beira do naufrágio

Foi despedido há cinco meses. Era jornalista e agora faz parte do exército de desempregados que enchem as filas para os Centros de Emprego. É com mágoa que olha para o horizonte. Não compreende como é que há governantes que estimulem a emigração. Explica, revoltado, que aqui não há futuro. Por isso, na próxima semana apanha o avião para a Austrália.

Assisto a um debate organizado pela ATTAC. Dois professores universitários que leccionam economia discutem ‘a crise do euro’. Da plateia, vários participantes questionam a existência de uma solução com esta União Europeia. Há um jovem que se insurge. Não há qualquer saída fora das instituições europeias e do euro. Impressiona-me bastante. É um daqueles enfatuados estudantes que se julgam progressistas só por defenderem a liberdade nos costumes.

Também vai emigrar. Trabalha numa empresa de consultadoria financeira e investiu no ramo imobiliário. A coisa não deu certo. Por isso, parte para o Brasil onde o espera uma vaga como gestor de uma empresa no ramo da habitação. Considera-se um empreendedor. Questionado sobre as opções políticas e económicas face à crise capitalista, não tem quaisquer dúvidas. O governo está a fazer tudo o que deve fazer para que o país saia da actual situação.

Tem 16 anos. Está na fila para comprar o passe. Diz que os pais não têm dinheiro para o aumento do preço dos transportes. Mas a zona onde vive é complicada e têm receio de que lhe aconteça alguma coisa. Não sabem em que parte do orçamento familiar vão cortar mas deram-lhe o suficiente para conseguir ir e voltar da escola todos os dias de autocarro. Até não haver mais nada para cortar.

É um dos mais importantes jornalistas de economia. Senta-se em frente à câmara e, apesar de pequenas divergências, considera que a execução do acordo negociado com a troika é fundamental. Também acha que não vai ser necessário um segundo pacote de ajuda. Mas, como todos os que defendem esta posição, deixa uma nesga. Há uma diferença entre o querer e o acreditar. Porque, verdadeiramente, nem eles confiam no que dizem.

Atrapalha-se em frente ao microfone. Nunca havia sido entrevistada. Tem 18 anos e foi despedida. Era caixa no Continente. Agora, é mais uma desempregada. Ataca o governo e a troika. Junta-se-lhe um desempregado. Tem 19 anos. A vida está impossível. Ambos gostavam de ir para a universidade mas não podem. Ele nem o secundário completou. Não teve opção. Começou a trabalhar aos 14 anos.

São operárias. Muitas operárias. Guardam a entrada da fábrica por turnos. Se o patrão tentar levar as máquinas, responderão. Já o fizeram uma vez e voltarão a faze-lo. Uma delas dá-nos o retrato da força e da firmeza desta gente: “Somos obrigadas pelo Centro de Emprego a estudar, temos de vigiar a entrada da empresa, temos de cozinhar para os nossos filhos e maridos. Não descansamos. Não temos tempo para isso”. Duplamente exploradas, duplamente revolucionárias. Sem dúvida.

Juntam-se à volta da câmara. Por trás, aparece um graffiti enorme de Amílcar Cabral. É uma figura omnipresente nas ruas da Cova da Moura. Nas paredes e nos que ali vivem. O entrevistado, como todos os que o acompanham, está desempregado. Fala-nos da realidade do bairro: da exploração, da discriminação, da miséria e da repressão policial. E da luta de classes. De como não acredita em qualquer deus, que são as mãos das mulheres e homens que podem fazer a revolução.

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