A afiar as facas nas nossas costas

Não era difícil prever que a afirmação assassina de Passos Coelho – “os sacrifícios são para todos” – sobre os lamentos de Cavaco em torno das suas reformas mereceriam uma retaliação cirúrgica de Belém.
Chegados ao fim-de-semana, floresceram notícias explicando ao povo como incertos cavaquistas estavam descontentes com a política deste governo. Mas esta reacção não deve ser vista apenas no quadro dos ajustes de contas a que Cavaco nos habituou. Em boa verdade, estamos perante interesses divergentes.
De um lado temos uma certa burguesia nacional de visão estreita, feudal e mesquinha, que se movimenta e age como um clã. Gente que olha com um misto de despeito e receio a cultura e o mundo e que vive para proteger os seus. Cavaco tem sido a sua melhor representação. Repare-se que é o político que esteve em praticamente todos os momentos históricos da União Europeia, o único de uma série de governantes que ainda se mantém no activo, e que não tem qualquer dimensão política ou ascendente além-fronteiras. Um discurso de Cavaco é mais irrelevante para as políticas europeias que o bater de asas de uma borboleta em Bruxelas.
Por outro lado, no governo, temos um conjunto de jovens tecnocratas absolutamente convencidos de que a maioria andou a gastar à tripa forra. A sua solução para o país passa por uma desvalorização dos salários e pela fundação de um estado mínimo como nunca se viu na Europa. A austeridade é uma condenação, sendo secundário que as decisões passem a ser tomadas por quem não se elege ou por interesses de entidades exteriores, estados ou empresas.
Entre um bando de adeptos de curas por sangramento e um clã de defensores das suas posses há um oceano de diferenças. O problema é que, a uns e outros, pouco interessa que nos afoguemos nesse oceano.

No i.

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