O pin do chinês

Sempre que vejo o primeiro-ministro Passos Coelho e o seu grupo de alegres ministros com um pin da bandeira nacional na lapela lembro-me da série britânica “Yes Prime Minister”. Num conhecido episódio, um assessor de comunicação explicava ao governante Jim Hacker que se ele queria apresentar na televisão uma medida revolucionária convinha que viesse vestido de fato e gravata e que o cenário fosse um fundo clássico com tons de madeira conservadores, usando o genérico da dita comunicação um curto intróito da música clássica em passo de ganso. Pelo contrário, caso a mudança proposta fosse para deixar tudo como estava, convinha que o ministro fosse vestido informalmente, com um traje jovem, que o fundo fosse uma obra de arte moderna berrante e que a música escolhida para a função, fosse pelo menos tão moderna como a difícil “Sagração da Primavera”, de Stravinsky, mas de preferência uma obra de electrónica contemporânea.

Cada vez que observo um dignitário do governo de Passos Coelho a vender-nos as políticas de austeridade para alegadamente nos salvar, recordo que essas políticas foram ditadas em documentos do executivo da chanceler Angela Merkel em que se defende que os governos nacionais vão responder directamente a responsáveis estrangeiros. Olho para o pin vermelho e verde com as quinas e tenho duas certezas: a primeira é que a bandeira nacional está lá para disfarçar uma política que serve apenas a um governo estrangeiro e aos seus grandes grupos financeiros. A segunda é que certamente o pin é made in China.

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TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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14 respostas a O pin do chinês

  1. JgMenos diz:

    Desconfio dos patriotas para quem o dinheiro emprestado pelo estrangeiro é ‘quanto mais melhor’ e a quem as regras da dívida são servidão a estrangeiros.

    • Nuno Ramos de Almeida diz:

      Meu caro, fantásticos são os patriotas que fizeram as parcerias público-privadas, que vendem o património dos portugueses ao desbarato e, sobretudo, que fazem de lulus dos alemães nas cimeiras europeias: Tendo aceitado no passado uma moeda que tirou 20% da competitividade nacional, e aceitando agora um acordo de agiotagem em que se vão pagar todas as dívidas com juros de mais de 5%, num país que devido a políticas cegas de austeridade vai perder 5% do produto nacional bruto. Numa Europa que empresta aos bancos 500 mil milhões de euros a três anos à taxa de 1%… Finalmente, patriota deve ser um governo que a máxima ambição que tem é receber uma festa e um cubinho de açúcar da chanceler alemã, cujo governo escreve memorandos em que defende o controlo das democracias estrangeiras por comissários seus. Esses é que são patriotas certamente.

      • Justiniano diz:

        Mas mais patriotas, ainda, mesmo patriotas são aqueles que estavam na fila da frente do Tratado de Lisboa, à laia de claque e prenhes de orgulho patriotico, mas que agora muito se admiram!! Esses é que são os verdadeiros patriotas (E dizem, eles e outros deles, saber ler, escrever e pensar)!!

      • JgMenos diz:

        Quando a adesão ao euro – e uma lei de rendas impraticável – pôs os trabalhadores portugueses a comprar casa com juros bonificados, não ouvi ninguém reclamar! E tanto mais…
        Cometeram-se erros? Não podia estar mais de acordo.
        É tempo de soluções, não de lamentações.
        Os direitos adquiridos não podem valer para salários? Também não podem valer para as parcerias PPP.
        E por aí adiante…

        • Nuno Ramos de Almeida diz:

          Meu caro, sobre tudo isso houve gente que protestou. Temos um maravilhoso capitalismo em que os lucros são privatizados e os prejuízos socializados.

        • Luigi Fare Niente diz:

          ‘Também não podem valer para as parcerias PPP.’
          Ãh!já vi que é um bói….

        • Luis Almeida diz:

          As ÚNICAS soluções passam por correr com a associação de malfeitores que nos governa o mais rápido possível!
          E não me digam que foram “democraticamente” eleitos. Aquilo em que povo votou não foi nada do que estão a fazer.
          Se mentiram durante a campanha, enganaram e, se enganaram foi tudo menos democracia!…

      • De diz:

        Na mouche.Brilhante

    • Vítor Vieira diz:

      Pois eu cá acho que o Miguel de Vasconcelos também usava pin…

    • Luis Almeida diz:

      Eu não desconfio! Tenha a certeza de a bandeira nacional na lapela é como aqueles gays que. por horror a “sair do armário” e se assumirem, se comportam como os mais primários e violentos dos homofóbicos, assumindo ares de grande machão…
      A pátria deles está em Berlim ( já nem sequer em Bruxelas e Estrasburgo ) e nos off-shores.
      É por isso que, para responder ( e por antinomia a ) esta quadrilha “anti-patriótica e de direita”, só uma política “patriótica e de esquerda”.
      TODOS À MANIF DO PRÓXIMO DIA 11!!

  2. bg diz:

    melhor texto do ano ate ao momento

  3. A.Silva diz:

    Se não estivessem a jogar com as nossas vidas, provocariam mais gargalhadas que a série referida, tal o ridiculo dos seus comportamentos.

  4. tric diz:

    realmente, agora vão ter de substituir pelo Pin do partido comunista Chinês!!! o engraçado é que cá em Portugal andam tocheios com o pin…mas saem da fronteira para fora escondem o pin…

  5. Luis Almeida diz:

    Grande texto, Nuno Ramos de Almeida! Um dos melhores que li ultimamente.

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