Amanhã vou à manif, “sem violência, mas sem fraquezas!”

O slogan é dos pequenos produtores da região de champagne que nas duas primeiras décadas do século XX impuseram a Região Demarcada da produção deste néctar, para protegerem a pequena propriedade e evitarem a sua própria proletarização.

Sábado, dia 21, vou à manif, unida com todos os que lá estiverem, pela derrota integral do Governo de Passos Coelho. A Rubra, como dezenas de outros grupos, defendeu na Plataforma do 15 Outubro, uma plataforma de dezenas de organizações que chamou esta manifestação, o convite aos sindicatos e aos indignados e a todos aqueles que sabem que à frente está a luta colectiva ou o desespero individual.

Pergunto-me: amanhã vamos lá estar todos? Há alguma exigência desta manifestação que leve a CGTP a ficar de fora dela?

Voltamos ao passado. Há quase 40 anos, PCP e PS digladiavam-se sobre a estrutura sindical em Portugal. O PCPdefendia uma única central (unicidade sindical) e o PS mais do que uma. Ninguém da minha geração percebe – e com razão – porque ainda hoje se grita nas manifs «CGTP, unidade sindical», slogan que não diz nada a alguém com menos de 40 anos.

O PCP queria estrategicamente construir uma única central dos trabalhadores – a Intersindical – porque a dominava politicamente e porque esta era uma fonte de força, quadros e dinheiro para o PCP (esta é aliás, creio, uma das principais razões por que o PCP resistiu ao fim da URSS melhor do que outros PC europeus). O PS queria um movimento operário fraco e construir uma central alternativa, a UGT, ancorada nos sectores de serviços.

É intolerável que o Estado defina uma única central sindical – isso é uma forma de corporativismo – e é lamentável que os trabalhadores tenham aceitado participar numa central sindical, a UGT, cujo objectivo não era fortalecer com lutas e quadros a resistência, mas dividir os trabalhadores.

A unicidade é uma lei imposta pelo Estado que regula a forma como os trabalhadores se devem organizar. Ora, como os trabalhadores se organizam é algo que só a eles diz respeito e não pode nem deve estar na lei qualquer limite a essa organização. Imaginem que só existia a UGT e uma lei que impedia outras centrais sindicais?

Unidade não é unidade de pensamento mas unidade de acção – é inaceitável que a CGTP diga quem participa ou não nas suas manifestações, fazendo por vezes corredores de polícias à volta e limitando o uso de faixas ou panfletos. É normal e salutar que os trabalhadores, estudantes, movimentos populares de activistas, precários, desempregados, saibam caminhar juntos nas mesmas manifestações tendo quem quiser o seu jornal, a sua faixa, os seus panfletos, o seu pensamento. Unidade não é unicidade. Unidade significa juntar o que é diferente, respeitando as diferenças.

É incompreensível que a CGTP se recuse a aderir e apoiar estas manifestações, ancoradas num poderoso movimento de precários e desempregados que realizaram em 9 meses 3 manifestações gigantescas – facto único na história do país.

É uma infantilidade que movimentos de indignados assumam à partida que não participam nas manifestações convocadas pela CGTP, metendo no mesmo saco os milhares de trabalhadores que lá estão e a direcção burocrática da CGTP.

A derrota do Governo está na linha de ruptura que escolhemos (e de que aqui não falei, mas certamente não passa pela renegociação da dívida), mas também está noutro caminho: na exigência da adesão da CGTP à manifestação de 21 de Janeiro, convocada pelo 15O, e na participação de todos os movimentos na manifestação de 11 de Fevereiro, convocada pela CGTP.

Todos juntos, lado a lado, cada um com a sua política (e o seu pensamento) nas mãos. E se o logramos certamente também com uma garrafa de champagne, para celebrar a vitória.

“Sem violência, mas sem fraquezas!”

Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

44 Responses to Amanhã vou à manif, “sem violência, mas sem fraquezas!”

Os comentários estão fechados.