Bloqueio Continental

O Bloqueio Continental foi uma imposição de Napoleão, através do Decreto de Berlim de 22 de novembro de 1806, barrando o acesso aos portos dos países então submetidos ao domínio do I Império Francês (1804-1814) a navios do Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda. A desobediência de Portugal a este bloqueio levou às invasões francesas de 1807-08, 1809 e 1810.

Aprende-se muito olhando para os mapas. Se olharmos para um mapa da Europa da altura, veremos um enfrentamento entre potências continentais (então hegemonizadas pela França) e países da orla marítima, onde a Inglaterra, com o seu domínio dos mares, era a potência hegemónica.

A França (e a Bélgica) eram as grandes beneficiárias do bloqueio continental. Os países afectados teriam de comprar produtos franceses para substituir nomeadamente as importações britânicas. O importante comércio de Portugal com a Inglaterra ver-se-ia gravissimamente afectado.

Se olharmos para o mapa actual da Europa, com a aliança Merkel-Sarkozy, veremos outro bloqueio continental. O instrumento deste novo bloqueio continental não é o fecho dos portos, mas o mecanismo das «dívidas soberanas». Beneficia o eixo franco-alemão, mais os seus apêndices, nomeadamente o Benelux (com a Holanda, onde muitas empresas europeias, entre elas as de alguns dos nossos patriotas empresários, tratam de sedear as contas das suas empresas para pagar menos impostos, e o Luxemburgo, onde aos fins-de-semana vão regar o jardim das suas contas mais ‘íntimas’). Perde a “periferia”. Mas olhe-se novamente para o mapa: da Escandinávia à Grécia, passando pelo Reino Unido e Irlanda, Portugal, Espanha e Itália, o que não falta na Europa é “periferia”. Esta ‘periferia’ já teve correspondência, em tempos, numa outra união europeia: a EFTA.

Será que caminhamos para uma nova divisão da Europa, entre uma ‘União Europeia’ encolhida e uma nova EFTA alargada? Os Europeus só têm a beneficiar de estar unidos, mas se o eixo franco-alemão, ou Merkozy, pretende impor uma Europa a duas (ou mais) velocidades seria bom que houvesse alternativas à sua “Oirropa”.

A burguesia portuguesa parece não ter nada a ver com isto. O seu campeonato é outro: esmifrar-nos até ao tutano para fazer regredir as conquistas sociais das últimas décadas em nome de pagar o tributo a Sua Majestade a Finança. O último objectivo na vida de algumas das suas luminárias dir-se-ia não ir além de serem CEOs da Iberdrola ou do Lloyds Bank. Têm uma sólida vocação para sócios menores.

Uma Europa alternativa, solidária, uma Europa dos que a fazem no trabalho do dia a dia pode e deve ser a alternativa a isto que a UE tem revelado ser. Mas a classe trabalhadora e as suas organizações estão a anos-luz da grande tradição internacionalista que levava a Internacional Comunista a discutir, já na primeira metade da década de 1920, os «Estados Unidos Socialistas da Europa». Essa tradição perdeu-se na maré de nacionalismo que se seguiu à derrota das revoluções dessa década e ainda não recuperou. Hoje, os trabalhadores da Auto-Europa e os seus congéneres europeus (e mundiais) da VW estão relegados para a triste sina de, dirigidos pelos seus patrões locais, concorrerem com os seus camaradas de além fronteiras pelo fabrico de tal ou tal modelo daVolkswagen. O mesmo se pode dizer dos de outras multinacionais. Um importante sinal de vida seria a discussão, através de inter-comissões sindicais ou de inter-comissões de trabalhadores, de cadernos reivindicativos europeus, de contratos colectivos europeus. Seria um bom começo.

 

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