Jesus não me convence

Há muito que penso que Jorge Jesus não é treinador para o Benfica. Declaro-o a contra-ciclo, agora que estamos em 1º lugar e a subir de rendimento. É nestes momentos que o coração benfiquista me permite falar destas coisas.
Reconheço a Jesus, duas grandes qualidades: a capacidade de mobilizar quem entra dentro de campo com regularidade e a persistente defesa de um modelo de jogo.
Mas tal como em tantas outras profissões uma das qualidades que mais respeito em treinadores de futebol é a capacidade de desaparecer nos melhores momentos e de dar o corpo às balas nos piores. No fundo, uma certa humildade que só conquista quem tem confiança nas suas capacidades.
Durante estes últimos anos Jesus não soube criar períodos de silêncio e só me recordo de ter dado o corpo às balas, consistentemente, por Roberto. Aliás, a inusitada defesa de Roberto encerra uma das grandes dúvidas que tenho sobre Jesus: seria apenas uma incrivelmente estúpida teimosia ou havia algo mais?
Por outro lado, a sua crónica teimosia, trouxe-nos duas derrotas humilhantes (Porto e Liverpool) numa das épocas mais brilhantes de que tenho memória sempre que insistia em não fazer alinhar Coentrão queimando David Luiz no lado esquerdo da defesa, e gerou inúmeras dissidências de jogadores fundamentais para a identidade do Benfica.
Bernard Tapie, que Vata consagrou como Bernadette, para manter o seu poder no OM defendia que toda a equipa devia ser transferida de uma temporada para a outra. Provavelmente por limitações financeiras, Jesus não o tem feito, mas tem isolado todos os jogadores que podem criar um discurso identitário que lhe possa fazer sombra. Estes são os casos de Moreira –  que, sempre que era chamado a substituir Quim ou Roberto, fazia excelentes exibições – Nuno Gomes ou Mantorras – ainda que em final de carreira tinham uma enorme importância dentro do plantel – Simão Sabrosa – que Jesus terá impedido de vir terminar a sua carreira no Benfica – e mais recentemente, Rubén Amorim – cuja possível saída, pelo seu perfil polivalente e histórico benfiquismo, devia motivar uma onda de protestos dos adeptos. A estes acresce uma lista de odiados de que Enzo Pérez, Capdevilla ou Carlos Martins, são os exemplos mais recentes.
Mais, Jorge Jesus tem-se borrifado em estabelecer a relação entre a formação e o plantel sénior, optando por mandar comprar jovens promessas formadas noutros clubes para  valorizar e mais tarde vender, criando fantásticas mais valias financeiras que fazem as delícias dos traficantes-empresários. Nelson Oliveira (um dos melhores jogadores do mundo da sua geração), Roderick, David Simão, Luís Martins ou Miguel Vítor têm sido lançados às feras a despropósito e, ainda que não comprometam, imediatamente condenados ao degredo.
É por tudo isto que Jorge Jesus não me convence. Jesus pauta a sua actividade profissional por um complexo que lhe faz temer quem lhe possa fazer sombra. Em qualquer actividade profissional, quem tem receio dos profissionais que gere, não consegue retirar o melhor da equipa que deve liderar.

 

 

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