EM DEFESA DA MAÇONARIA – Devia ter aceite o convite. De lá para cá nunca mais voltei a comer trufas e tem-se revelado difícil encontrar um emprego com contrato sem termo, progressão na carreira e 14 meses de salário.

Não tenho qualquer simpatia pela Maçonaria, sobretudo pelo que ela hoje representa, mas não deixa de me causar algum desconforto a caça às bruxas que parece motivar quem a combate. Irrita-me quase tanto como a insistência, dos que estão na legalidade, em reivindicar a dimensão progressiva do seu trajecto histórico, sem ter em conta o resultado da sociedade que ajudaram a parir. Da esquerda à direita, das trevas do saudosismo nazi-fascista às purgas estalinistas, o que pauta grande parte dos ataques que lhe são deferidos não me merece maior respeito do que as seitas, nada secretas, que se dedicam quase em exclusivo ao tráfico de influências e ao bom gosto, discutível, dos seus vícios privados. Embora quase todas as críticas estejam cobertas de razão, não obstante os telhados de vidro dos seus detractores mais selvagens, a sua decadência através dos tempos, a sua conivência com as regras da ditadura do capital e dos partidos de poder, bem como o fim da sua clandestinidade, várias foram as causas da sua assimilação e a razão profunda pelo qual ela deixou de contar no campo da resistência. Hoje, num tempo em que o número de lojas é superior ao número de maçons impolutos, meia dúzia de líricos que vivem fora do seu tempo, sobra o deboche. No que diz respeito ao exercício do poder, a Maçonaria não apita mais do que a Opus Dei, a Fundação Champalimaud, o Vaticano ou o FMI. Diria mesmo que não terá uma capacidade de influência com envergadura superior a qualquer uma das ramificações do clube Harvard ou que o grupo dos amigos do 31 da Armada. Tal e qual como as escolhas em matéria de apetite sexual, ideológica e até religiosa, a Maçonaria assemelha-se a uma decadente sala de negócios, onde é maior o capital que se perde no Poker, nas Trufas ou no Elefante Branco do que aquele que se ganha na alta roda da burguesia internacional.  A Maçonaria tornou-se numa espécie de Select, mas só para quadros médios. Uma versão da nobreza decadente que acabou a temperar o melão com sal à conta de ter empenhado o presunto. O coração da besta, felizmente, tem apartado. Afinal, se até o Fernando Nobre é Maçon, ninguém deve ficar muito preocupado.

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