Souviens-toi!

Passei este dias por Oradour-sur-Glane.

Já a perder a guerra os alemães dão ordem de concentração dos soldados na Normandia. Do centro da França partem em direcção ao Norte. Entre eles um batalhão, chefiado pelo comandante Adolf Dieckman que manda os soldados, na retirada, fazer uma acção exemplar: queimar vivos os habitantes de uma aldeia.

Oradour é a escolhida, pensa-se, porque estava no caminho e porque era uma aldeia sem actividade da resistência, de camponeses abastados relativamente alheados da guerra, e que à passagem dos alemães não desconfiariam de nada. Às 14 horas os alemães chegam, colocam os homens dentro de 3 casas e as mulheres e crianças na Igreja. São todos regados com querosene e puxam fogo a toda a aldeia. Às 6 da tarde a aldeia tinha desaparecido e 642 pessoas tinham morrido no meio do horror. 6 conseguem fugir, 1 é morto pelas costas. Da Igreja foge uma mulher.

No fim da guerra os franceses decidiriam que a aldeia não ia ser reconstruída. Ia ficar como está hoje – uma aldeia inteira, protegida por um muro e um grande portão de ferro com um letreiro «Souviens-toi», «Lembra-te».

Dieckman e uma parte do seu batalhão das SS viriam a morrer na Normandia.

Entramos no portão e começamos a percorrer as ruas da aldeia: ruínas das casas, cada uma com uma placa com o nome e a profissão de quem ali viveu, em todas elas conservam-se peças de ferro retorcido, de carros, de bicicletas, instrumentos de trabalho, alfaias agrícolas. Na casa do ferreiro um torno e uma peça que não chegou a acabar, alguns azulejos.

Uma funcionária vem ter connosco e explica-nos que a aldeia vai fechar. Perguntamos-lhe um detalhe qualquer e ela pára e começa a contar-nos a história de Oradour: «Ninguém foi responsabilizado pelo massacre. Dieckman foi acusado 13 anos depois do massacre, mas entretanto já tinha convenientemente morrido em 1944. Os generais alemães alegam no julgamento que Dieckman tinha ultrapassado as ordens». Dos homens que fugiram dois ainda estão vivos. Um deles, com quase 90 anos , é ainda hoje de quando em quando guia das crianças que visitam o local.

Ficamos debaixo de uma chuva fininha, sozinhos no meio de Oradour a ouvir as vozes do passado. Dieckman e os heróis que fugiram. A barbárie e a coragem. A cobardia de quem pratica o horror protegido por um exército armado sobre pessoas indefesas e a coragem de quem enfrenta o medo. A resistência. Souviens-toi!

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