Carta ao primeiro-ministro da Cultura, artigo de Fernando Mora Ramos

 

 

 

 

Dirijo-me a Vossa Excelência pois tutela a cultura e dedica-lhe, segundo o Senhor Secretário de Estado, duas horas semanais. O corte de 38% aplicado às estruturas de criação do teatro e da dança não é só uma diminuição da escala de apoio, como seriam 10% ou 15%. É uma liquidação, um acto de terror. 38% é uma amputação, o que, num corpo já frágil, gerará paralisia e por certo, pois muitos continuarão a teimar viver, condições desqualificadas de agir pelo acrescento de precariedade estrutural, técnica e artística, ao exercício pluridisciplinar. O que alterará radicalmente a eficácia da sua função social, remetendo as artes para a trincheira e a pura resistência – não há muito, o I.N.E referia a existência, num ano saudável de crescimento, de um milhão de espectadores de teatro.

Experimente Vossa Excelência cortar 38% ao orçamento doméstico, à gasolina, ao seu gabinete, ao serviço da sua segurança, à verba que tem para as despesas de representação, à limpeza do palácio, ao que quiser e logo verá que instaurará a entropia. O resultado deste corte será, a prazo, o regresso ao folclore servil de antes de Abril, aos viras e torna a virar de antigamente desaparecendo o que a dinâmica democrática consolidou e que, por consagração de facto no real português – o teatro e a dança existem no todo nacional, mesmo não sendo fruto de uma política – também a fundou, qualificou e expressou, à democracia.

O projecto de manter apenas os Teatros Nacionais para a Senhora Merkel ver é pequena política, forma de fingir um cosmopolitismo e um avanço civilizacional que se ignora como desígnio – que país será europeu sem um sector de iniciativa estatal, teatros públicos, uma visão nacional da sua estruturação? Para nós trata-se só, daqui em diante, de simular pela parte a existência do todo, os nacionais como o próprio teatro, álibi de esperteza a fazer de conta que se respeitam os imperativos constitucionais do acesso à criação e fruição artísticos.

O país não é Lisboa e Porto e Lisboa e Porto não são o seu centro. As companhias de teatro, aos quase 38 anos de democracia – o número do corte -, já deveriam ter-se convertido num sector público ágil em consonância articulada – isso seria uma política realizável com os meios havidos – com as autarquias, as regiões plano e as estruturas de criação. É assim na Europa. Se falamos de integração não pratiquemos a periferia, a marginalização do que é europeu. E europeu não é cortar cegamente, isso é, ao invés, uma forma de resolver irracional e desarticuladora de um devir europeu que o teatro e a dança são. Não acredito que Vossa Excelência quando a frequenta, a Europa europeia, não a identifique justamente com os seus espaços culturais, em qualquer ponto da sua própria geografia, de Bilbao a Edimburgo. Nessa Europa europeia os Estados desenvolveram políticas artísticas nacionais, no território e respondendo aos desequilíbrios demográficos. Ninguém é excluído do acesso às criações artísticas que quotidianamente praticam tradição e modernidade, Shakespeare e Beckett, Strindberg, Ibsen, ou Ésquilo, Sófocles, um Rei Édipo ou a Flauta Mágica. Por cá, o desprezo por Camões, dramaturgo, Gil Vicente, o nosso Shakespeare e génio europeu, fazem com que o português tenha entrado numa espiral de desqualificação e expressão de pensamento trágicas. Mas o idêntico desprezo por Fernando Pessoa, Jorge de Sena ou Natália Correia, pela encenação de textos narrativos, de Carlos Oliveira a Lobo Antunes, por Luís Miguel Cintra – prémio Camões – entre outros criadores teatrais de valor reconhecido, impede-nos de aceder à modernidade tão propalada pelos decisores, assim como nos afasta de novo do convívio com a dramaturgia europeia actual, de Brecht a Barker ou Martin Crimp. O teatro e a dança são, com a investigação científica e sectores de produção de ponta, o que nos aproxima dessa Europa europeia.

São artes com um potencial educativo profundo, de dimensão cognitiva iniludível e de um fazer que pensa, em que emergem na representação formas de pensar – “teatro de ideias” chamou Antoine Vitez (Dir. da Comédie) a Electra. Mas a arte não é pedagógica por ser pedagogia mas por ser arte e isso respeita-se, nos lugares em que Europa e civilização avançada se casam. Um país que destrói o teatro e a dança faz o que os talibãs fizeram com os budas, uma barbaridade e coloca-se do lado do que as ditaduras fazem, destrói a possibilidade da prática da vivificação da memória, esse “perigo” que mostra que tudo muda e permite, no presente, convocar a tragédia reconhecida para que se evite. Censurar, por via financeira, o debate democrático que as artes possibilitam e estimulam, atacando assim o teatro, veículo essencial de prática da língua é um crime de lesa pátria.

Vossa Excelência sabe que os cortes ao teatro e à dança não têm expressão na dívida. Se o engano de trezentos milhões nas contas do orçamento nada significa, como afirmaram as Finanças, o que significará o pouco que se investe nestas artes? Sei que os demagogos e populistas dirão, “lá estão estes”,“querem privilégios” e outro tipo de ordinarice mental e verbal – ninguém enriqueceu com o teatro ou a dança e nenhum dos seus praticantes dedicados investe na bolsa ou pratica deslocalizações e fugas de capitais. A voz do vulgo não é a da razão e um país inculto não terá futuro e a cultura artística elaborada só pode fazê-la quem fizer dela profissão, o mesmo que para qualquer sector. Falo-lhe do que gerações de políticos não fizeram de criação de um dispositivo cultural, não apenas dos que praticam as artes e também da existência de mais de vinte escolas de formação teatral, nos ensinos secundário, politécnico e universitário, frequentadas por milhares de jovens que, deste modo, também não terão organizações que os acolham, pois as que existem já não respondem ao crescendo imparável das suas “clientelas”– é a dita procura.

A Senhora Merkel, em Berlim, reforçou o orçamento da cultura em 5%, 50 milhões de euros agora anunciados, um vigésimo do bolo de um território específico, já que os orçamentos das regiões são outros dinheiros, cada região com os seus teatros públicos, como era o caso e é da companhia criada por Pina Bausch em Wuppertal.

Admitamos que, por imperativo de solidariedade nacional, o teatro e a dança sofressem cortes. Seriam certamente simbólicos pois o que fazem, com o pouco que têm, tem ocupado o espaço de um serviço público que o Estado não estruturou. As estruturas de criação substituem-se na realidade à inexistência de uma política cultural.

Sugiro que Vossa Excelência repense no que está a permitir e porventura implementar. Trata-se de um voltar para trás sem regresso a meio de uma viagem a um futuro melhor que tarda em chegar. O país da austeridade não é projecto, este só pode ser o da qualificação dos portugueses, do seu crescimento cultural, condição do económico. As artes são uma das vias da qualificação, na liberdade dos seus exercícios. E esta liberdade não se faz, em nenhum país europeu, fora de um quadro de estruturação pública.

Como Vossa Excelência sabe o discurso da subsidiodependência usado por gente que vive a expensas do orçamento, de modos duplos e triplos, não resolve um problema maior e que é o da estruturação democrática constitucionalizada das artes e da cultura no todo nacional, expressão da nossa identidade plural, tradição, inovação e suas práticas contemporâneas. Daqui lanço portanto o repto a Vossa Excelência que reflicta bem no que se está a fazer e evite o pior.

Fernando Mora Ramos – Encenador na província

(Publicado hoje, 12 de Dezembro, no Jornal Público – indisponível online)

(disponível na página do Facebook de Fernando Mora Ramos aqui)

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15 Responses to Carta ao primeiro-ministro da Cultura, artigo de Fernando Mora Ramos

  1. tric diz:

    “Por cá, o desprezo por Camões, dramaturgo, Gil Vicente, o nosso Shakespeare e génio europeu, fazem com que o português tenha entrado numa espiral de desqualificação e expressão de pensamento trágicas. Mas o idêntico desprezo por Fernando Pessoa, Jorge de Sena ou Natália Correia, pela encenação de textos narrativos, de Carlos Oliveira a Lobo Antunes, por Luís Miguel Cintra – prémio Camões – entre outros criadores teatrais de valor reconhecido, impede-nos de aceder à modernidade tão propalada pelos decisores, assim como nos afasta de novo do convívio com a dramaturgia europeia actual, de Brecht a Barker ou Martin Crimp. O teatro e a dança são, com a investigação científica e sectores de produção de ponta, o que nos aproxima dessa Europa europeia.”

    modernidade!!! a dinheiro da cultura portuguesa é para promover exclusivamente a cultura portuguesa !! era só o que faltava os contribuintes andarem a financiarem Brecht, Barker ou Martim Crimp…ou analogos! o dinheiro da cultura deve ser para promover exclusivamente os autores portugueses e as tradições culturais teatrais portuguesas ! se querem Bretch, Barker ou Martim…que peçam dinheiro às embaixadas dos paises de que esses gajos são originarios…” querem aceder à modernidade”!?? a modernidade é defender a cultura portuguesa…dos virus da “modernidade”, que nos conduziram à actual situação económica, Banca-Rota…

    • Pedro Penilo diz:

      Tenho sempre muito gosto em expor a imbecilidade que certamente serve de sustento às medidas que têm sido tomadas. Sim senhor, é de eleitores como o senhor que esta corja de bandidos precisa.

      • De diz:

        (Louve-se a paciência de quem tem que lidar com estes imbecis.)

        O retrato vivo e salazarento de quem olha para o umbigo inchado e acha que a Koltura é algo para tratar com a pistola.O pequenino bafiento que desconhece que a cultura tem o mundo como palco e que é matriz fundadora da humanidade, portanto universal.

        Por vezes tenho mesmo a impressão que estes “trics” são a imagem despolida e grosseira dos bem nutridos e obesos secretários de estado,que encostados ao seu cachimbo de pedantes oleosos, fazem do seu discurso, um discurso mundano feito de arranjos florais directamente proporcionais ao tamanho do seu umbigo.
        Mas que quando vistos mais de perto,estes trics e o secretário de estado da cultura se confundem uns com o outro e a matéria de que são feitos é a mesma matéria de que é feita um medíocre ministro das finanças, obediente às ordens do capital e do poder económico.
        Uns com mais pesporrência,outro com mais verniz.Mas todos boçais e servos da escuridão e das trevas do conhecimento

        O cheiro da decomposição ainda é maior nas volumosas figuras dos insuportáveis pedantes

      • tric diz:

        bandidos, são os agentes culturais, que se sustentam à pala do dinheiro de um povo, para depois atacarem a cultura e valores desse próprio povo…e logo são apelidados de “modernismos” e “contemporeanismos”… quando não passam de atrasados mentais…bandidos!!?? bandidos são os que defendem mais a cultura da estrangeirada do a cultura portuguesa…bandidos, são…

    • FPinto diz:

      Que grande frase essa, de que “a modernidade é defender a cultura portuguesa…dos virus da “modernidade””!!! Sem dúvida que este senhor foi atacado por uma virose externa e moderna, porque não diz coisa com coisa! E vá de tomar um antídoto! De se vacinar com um concentrado de Fernando Pessoa, que passou muita da sua vida na África do Sul (sem a qual não se compreenderia a sua obra) de Camões, que andou a banhos pelo Oriente (onde os virus da modernidade lhe iam comendo o original dos Lusíadas mas ele, estóicamente, resistiu!) e de Jorge de Sena, a quem quase negaram a cidadania portuguesa!
      Tenha juízo e abra as saus próprias vistas! Ninguém lhe exige que veja teatro estrangeiro nem cinema americano ou indiano (o que provavelmente faz pela TV), mas ao menos vá ler os portugueses até encontrar neles suporte para o que escreve. Talvêz assim se vá cultivando até deixar de dizer asneiras.

  2. Pingback: Reductio ad Talibanum « O Intermitente (reconstruido)

  3. A.Silva diz:

    Subscrevo!

  4. De diz:

    O intermitente em vias de reconstrução continua por aqui armado em parasita.Sem espaço de manobra para lhe aturarem as piolheiras do sebo neo-liberal com pendor de chulice extremista,o intermitente vive disto.Das sobras.E do amor pelo ideário fascistóide
    Os canídeos têm mais dignidade.
    E não fedem tanto

  5. Orlando diz:

    Mata-se a cultura, marta-se um povo.

  6. Fernando Rebelo diz:

    Não nos trazes novidades. É esta a realidade. 38% de corte significa que esta actividade terá de ser reformulada. Qualquer corte neste sector significaria sempre este princípio.
    Que poderei produzir se antes contava com 500.000 euros e agora me vejo reduzido a um corte de 10% ou 15%?…
    Quem vou despedir? E, nós não usamos esses termos odiosos, utilizamos expressões como: «não vou contar contigo para esta produção», « desculpa, mas este elenco comporta apenas dois actores» e outras desculpas para cumprir de forma séria um projecto artístico, o qual deveria ter uma subvenção condigna por parte do Estado de forma a garantir a sua subsistência para além de uma ‘bilheteira’; o Estado a financiar um serviço público.
    O Estado demite-se das suas obrigações. No âmbito da Cultura acaba por passar quase desapercebido, noutros âmbitos poderá revestir-se de outros contornos.
    O Estado começa a fazer a sua saída (subreptícia) de cena…

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