A minha viagem pela Síria

Um ano depois da guerra entre Israel e o Líbano, quis visitar o Médio Oriente. Levava a resistência heróica do Hezbollah, do Partido Comunista e do povo libanês na memória. Apanhei um avião de Roma para Sófia e daí viajei de camioneta até Istambul. Na Turquia, não só ninguém confiava em que conseguisse atravessar a fronteira com a Síria como lhes parecia estúpido que alguém a quisesse visitar.

Cinco anos antes, George W. Bush havia apontado aquela nação árabe como fazendo parte do ‘eixo do mal’. Os Estados Unidos prosseguiam com a democratização à bomba do Iraque. Desde a Guerra dos Seis Dias, em 1967, que Israel ocupava os Montes Golã. E entre a Turquia e a Síria havia mais a separa-las que a longa fronteira de minas e arame farpado.

A minha entrada no ‘eixo do mal’

Quando a atravessei e cheguei ao posto fronteiriço da República Árabe da Síria, percebi que não estavam habituados a que turistas chegassem ali a pé. E eu não esperava que aquele homem sentado, na estrada, dentro da sua t-shirt e calças de fato-treino, numa velha cadeira de campismo a ler um jornal fosse um agente do Estado sírio. A única coisa que destoava naquela fotografia domingueira era a kalashnikov.

Mas como viria a acontecer em toda a minha estadia na Síria, nunca vi qualquer tipo de postura autoritária, agressiva ou arrogante por parte das forças de segurança daquele país. Fui eu, aliás, quem se chateou com a passividade dos soldados que tardaram em carimbar-me o passaporte. Do outro lado do separador de vidro, dedicavam mais tempo a cantar e a beber chá que a cumprir a sua função. E eram aqueles os perigosos soldados que guardavam o ‘eixo do mal’…

Alepo, a maior cidade da Síria

Para chegar à maior cidade da Síria, tive de apanhar um táxi. No banco de trás, duas mulheres choravam compulsivamente. Dirigiam-se, provavelmente, para um funeral. No banco da frente, o taxista tentava matar-me de susto. Acelerava e ultrapassava tanto pela esquerda como pela direita. Às vezes, sorria-me e dizia com orgulho a única palavra que lhe compreendi em toda a viagem: “Schumacher”.

Alepo tem cerca de 2,5 milhões de habitantes. É maior que Damasco e a par da capital síria reclama o título de cidade mais antiga do mundo. Uma boa parte da população é árabe. Mas também há muitos curdos e uma grande comunidade arménia. Esta é, aliás, a razão por que Alepo tem uma dos maiores grupos cristãos de todo o Médio Oriente.

Foi nesta cidade que conheci uma das mais personagens mais caricatas de toda a viagem. Chamado de emergência a socorrer uma turista italiana que havia apanhado febre tifóide e que tinha entrado em delírio, o Dr. Khaled encontrou-me a controlar-lhe a temperatura e a dar-lhe banhos com a água mais fria que se pôde encontrar. Depois do susto, convidou-me para um café.

Contou-me, então, que, na verdade, se chamava Cesar. Mas como casara com uma muçulmana teve de mudar para Khaled. Como muitos em Alepo, era filho de refugiados arménios. Os pais haviam escapado à barbárie do Império Otomano e refugiaram-se na Síria. Ainda jovem, estudou medicina na Checoslováquia. Para ele, não havia dúvidas de que o fim do bloco socialista no Leste Europeu fora uma tragédia. Confessou-me que tinha um retrato do Staline no seu escritório.

Esta admiração pela União Soviética pude, aliás, senti-la nas ruas de Alepo quando vesti uma t-shirt com o brasão da URSS que havia comprado na Festa do «Avante!». Recebi a saudação e os sorrisos de muitos populares com que me cruzava na rua, muitos deles com t-shirts com a imagem de Che Guevara, e o pedido insistente de um vendedor ambulante de sumos e gelados que não me largou até ter percebido que eu não estava disposto a ir em tronco nu até ao hotel.

Sobre o regime sírio, Cesar apontou algumas críticas mas defendeu o seu carácter progressista e anti-imperialista. Ele era, aliás, candidato nas listas apresentadas às eleições municipais que se verificariam daí a duas semanas. Estava explicada, finalmente, a quantidade de faixas e cartazes espalhados pelas ruas que tinha visto desde que chegara a Alepo.

A Mesquita dos Omíadas e o fantasma de Saladino

Para Cesar, a melhor forma de se chegar a Damasco era de comboio. Era uma composição confortável e moderna que me levaria até à capital em poucas horas. Cesar não ia à Europa há quase duas décadas mas, sem querer, quase acertou. A viagem foi tão agradável como as horas de tortura que tantas vezes passei no português Sud Expresso entre Lisboa e Hendaia.

Damasco está a cerca de 100 km de Beirute. É o centro político da Síria e tem mais de 1,5 milhão de habitantes. É uma das principais capitais da cultura árabe e, por vários motivos, razão de peregrinação para distintas comunidades religiosas. A Mesquita dos Omíadas é o quarto espaço sagrado mais importante para o Islão. Acabou de ser construída em 715 e é ali que estão os restos mortais de João Baptista, um importante profeta para cristãos e muçulmanos.

Lá dentro, fui abordado por um teólogo sunita. Queria saber o que me trazia à Síria e que opinião tinha sobre os preconceitos europeus em relação ao mundo árabe. Conversámos durante uma hora. Ficou-me a imagem de um homem inteligente e bastante tolerante. Falou-me no laicismo do Estado sírio e no respeito entre as diversas sensibilidades religiosas.

Mas não gostei de tudo o que ali vi. Enquanto procurava os meus sapatos deparei-me com uma cerimónia xiita. Como local de veneração para o xiismo, a mesquita recebia anualmente milhares de iranianos. E num canto, dezenas cumpriam um ritual de auto-flagelação que me fez lembrar algumas cerimónias católicas em Itália.

Lá fora, centenas de pessoas esperavam para visitar o túmulo do lendário Saladino. Ante, as recentes cruzadas do imperialismo contra o Afeganistão, o Iraque e o Líbano não admirava que Saladino assumisse uma dimensão ainda mais heróica aos olhos dos povos do Médio Oriente.

“Down down USA! Down down Israel!”

Em quase todas as conversas com sírios, palestinianos, curdos, iraquianos e iranianos, inevitavelmente, o tema de Israel aparecia. Não precisava de tocar no assunto. Havia três coisas que todos queriam saber: o que achava da Síria, o que achava de Israel e o que achava dos Estados Unidos.

Eu sabia de antemão que nenhum estrangeiro com carimbo israelita no passaporte poderia entrar na Síria e que a mesma coisa se passava com quem tivesse o selo sírio e quisesse visitar Israel. Na verdade, são dois países em guerra. Os sírios vêem os palestinianos como irmãos e, pelas suas palavras, notamos que não há qualquer animosidade entre ambos. Em relação a Israel, a definição é clara: o inimigo. É isso mesmo que está exposto na pintura que decora a estação de caminhos-de-ferro de Alepo. Um quadro que ilustra os combates contra o exército israelita, há 44 anos, na Guerra dos Seis Dias, que abriu feridas que ainda duram como a ocupação dos Montes Golã.

Há quase um milhão de palestinianos a viver na Síria. Conheci alguns deles. Perfeitamente integrados na sociedade síria, todos, sem excepção, me declararam a firme e inabalável convicção de que algum dia voltariam à sua terra. Muitos deles não haviam sequer pisado o solo da Palestina. Eram os netos e os filhos daqueles que foram expulsos pelo terrorismo sionista ao longo do século XX.

No meio do deserto

Uma das vantagens de se ser turista num país pouco habituado ao turismo é o interesse com que se é abordado. Ao longo das semanas, vi poucos estrangeiros que viajassem como eu. A maioria dos turistas chega em pacotes organizados por agências de viagens e são conduzidos directamente às ruínas de Palmira. Largam-nos como gado e depois recolhem-nos quando se enchem as memórias das máquinas fotográficas.

Quando, finalmente, viajei para Tadmor, onde se encontra o antigo interposto romano de Palmira, e vi as placas na estrada a sinalizar Bagdade, é que me dei conta que ali ao lado, a poucas centenas de quilómetros, o povo iraquiano resistia ao imperialismo.

Mas no deserto reinava o silêncio e cheguei já de noite. As falhas de energia davam à povoação um ambiente sinistro. As rajadas de metralhadora que ouvia cortavam-me a respiração. Em momento algum me senti inseguro na Síria mas enquanto não me explicaram o que havia não descansei. Foi o dono do hotel que me tranquilizou. Não era uma guerra. Era um casamento.

O dono, cujo nome não me recordo, dormia todas as noites na rua, à porta do edifício. Ao ver-me, ficou exultante. Era o primeiro português que albergava. Mais. Era o primeiro português que via na vida. Por isso, como espécie desconhecida, tive direito a um preço mais barato.

Mas o hotel tinha uma estranha fauna. Estava eu, um professor francês que dava aulas de inglês no Cairo, um casal de jovens canadianos que faziam a volta ao mundo, um camionista iraquiano, uma estudante norte-americana e um australiano que trabalhara na Irlanda e que agora fazia negócios entre o Iraque e o Líbano.

A noite já ia avançada quando a norte-americana respondeu ao australiano que achava injusta a imagem que o mundo tinha do seu país. O francês, cordialmente, contestou que havia boas razões para isso. O australiano limitou-se a dizer que não conhecia um único ianque inteligente e deu o exemplo de Alice Springs. A estudante de árabe insurgiu-se mas não soube explicar do que se tratava. Antes que a coisa azedasse ainda mais, aproveitei a deixa dos canadianos e fui dormir.

No dia seguinte, acordei de madrugada. Queria ver o nascer do sol entre as ruínas de Palmira com o oásis como pano de fundo. Como fui o primeiro a chegar, tentaram impingir-me uma viagem de camelo. Estranhados com a minha recusa, perseguiram-me até à exaustão. Falhar o primeiro negócio do dia representa um mau augúrio. Só foram à vida deles quando perceberam que nem de borla me poria em cima do animal.

Das conversas mais interessantes que tive nesse dia foi com o guarda do Templo de Baal. Chamou-me à parte e sentámo-nos do outro lado da bilheteira. Acendeu o camping gaz e preparou-nos chá. Contou que havia combatido na Guerra dos Seis Dias contra Israel e que a Palestina era para a maioria dos sírios como uma pátria. Não me esqueço das palavras que me disse: “Posso ser velho mas voltarei a pegar em armas se os sionistas nos atacarem”.

“Foi a Resistência, mentirosos!”

Não é uma novidade que os povos do Médio Oriente dão grande importância aos seus heróis. A última moda em Alepo e em Damasco eram os pára-brisas traseiros com as imagens de Hassan Nasrallah, líder do Hezbollah, do presidente Bashar al-Assad e do pai Hafez al-Assad. Este era o trio que estava espalhado pelo tráfego caótico das grandes cidades sírias. Há muita coisa discutível dentro do regime sírio mas, pelo que pude observar, existia uma genuína admiração por estas figuras. Não era gratuito ou uma obrigação. É aquilo que não podemos ver através dos principais meios ocidentais. Um importante apoio ao regime sírio mas, acima de tudo, um ódio profundo ao imperialismo.

Um turista francês contou-me como num bar viu os clientes contestarem as afirmações da CNN que dizia que um helicóptero dos Estados Unidos se havia despenhado no Iraque por avaria: “Foi a Resistência, mentirosos!”. No histórico mercado de Damasco pude comprovar a solidariedade com a resistência iraquiana. As duas últimas t-shirts à venda comprei-as eu e os vendedores explicaram-me que era um dos produtos mais vendidos.

Poucos dias depois de sair pela mesma fronteira por onde havia entrado, rumo a Gaziantep, na Turquia, chegou a notícia de um ataque israelita em solo sírio. Nos anos que se seguiram, Israel continuou a lançar a morte sobre a Palestina. A ocupação do Iraque não terminou e, agora, é também a Síria que está debaixo de fogo. Na minha cabeça, repetem-se as palavras do porteiro do Templo Baal: “Posso ser velho mas voltarei a pegar em armas”.

Publicado em Diário Liberdade

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