Os heróis morrem de pé

How you gonna come? With your hands on your head or on the trigger of your gun? (The Clash)

“Passou um bocado e, de repente, vieram os disparos. Um dos guerrilheiros saiu da mata, acreditando que tínhamos fugido e que se podia mover, mas o meu soldado tinha-o a poucos metros. Sem saber que era o ‘Cano’, alertou-o para que se entregasse. ‘Quieto! Levante as mãos! Levante as mãos!’ Mas ele puxou da pistola e os homens que o acompanhavam dispararam”. Foi assim que um militar colombiano descreveu o momento em que o comandante máximo das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia – Exército do Povo (FARC-EP) foi abatido. Alfonso Cano podia ter optado pela rendição mas preferiu morrer de pé, a combater.

As imagens que enchem, estes dias, páginas de jornais e aberturas de telejornais mostram Alfonso Cano como um troféu de guerra. Não é uma novidade. Já o fizeram no passado com outros revolucionários. Quem se esquece do cadáver de Pancho Villa exposto no Hotel Hidalgo ou de Che Guevara nos tanques públicos de Vallegrande. A morte do comandante das FARC é um golpe muito duro mas não é a derrota daquela organização armada. A encenação a que se prestam muitos meios de comunicação está longe da verdade.

São as próprias fontes militares colombianas que revelam que não é a primeira vez que tentam abater Alfonso Cano. Em 2008, centenas de soldados desembarcaram num zona montanhosa no sul de Tolima para cercar o dirigente máximo das FARC-EP. Numa primeira fase, o exército colombiano perdeu 40 homens, entre mortos e feridos. Mas Alfonso Cano conseguiu romper o cerco e escapou-se. Na perseguição, os militares penetraram num campo minado e 42 soldados ficaram gravemente feridos.

Na verdade, a operação que agora concluiu e que levou à morte de Cano não é assim tão heróica. Há mais de um ano que estava em curso e assentava, fundamentalmente, no recurso à inteligência. Quando as forças armadas receberam a informação do local exacto onde se encontrava o líder das FARC-EP, enviaram dezenas de helicópteros Black Hawk, aviões Super Tucano e aparelhos aéreos não-tripulados também conhecidos como drones. Nesse dia, à uma da tarde, depois de violentos bombardeamentos, já tinham desembarcado 890 homens das forças especiais.

Apesar da gigantesca operação militar com o objectivo de matar um só homem, Alfonso Cano resistiu com os seus camaradas desde a madrugada até à noite. Pela manhã, caíra a sua companheira e um guerrilheiro. Depois detiveram ‘Pacho Chino’, responsável pela segurança de Cano, e ‘Zorro’, o responsável pelas comunicações. À solta, pela mata, corriam Pirulo e Conan, os cães inseparáveis do comandante das FARC-EP. Da floresta, os guerrilheiros resistiam ao embate. Sabe-se que, pelo menos, sete helicópteros foram alvejados e que houve feridos e mortos entre os soldados.

Os experientes guerrilheiros esperaram, escondidos, pela chegada da noite. Infelizmente, ela não foi suficiente para os proteger do tamanho inferno que as forças armadas colombianas lançaram naquela zona. Foi ali que morreu Alfonso Cano e foi dessa forma que o Estado colombiano respondeu aos apelos à paz e à negociação formulados pelo líder guerrilheiro um mês antes. À morte do comunista, do intelectual e do guerrilheiro, as FARC-EP responderam como respondem os revolucionários. “Não será esta a primeira vez que os oprimidos e os explorados da Colômbia choram um dos seus grandes dirigentes. Nem tampouco a primeira em que tomarão o seu lugar com a coragem e a convicção absoluta na vitória. A única coisa que a caída em combate do camarada Alfonso Cano simboliza é a resistência imortal do povo colombiano que prefere morrer do que viver de joelhos mendigando”.

Actualização: Foram 969 soldados e não 890 os que participaram na operação. Junto a Alfonso Cano estavam apenas 10 guerrilheiros o que revela bem a dimensão do ataque. O Estado colombiano necessitou de uma força 97 vezes superior à do grupo que acompanhava o comandante das FARC para o assassinar. Ao contrário do que escrevi, ‘Zorro’ também foi abatido.

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