As funções do capital e do trabalho: em torno da identificação económica das classes sociais 3/3

 

III – A classe é… social

Pelo que foi escrito anteriormente não se pode retirar a ideia de que as classes sociais apenas existiriam no espaço económico. As classes sociais não são separáveis das dimensões política e cultural/ideológica. Ao contrário das teses de Max Weber que distinguia classe, status e partido, portanto, restringindo as classes sociais ao universo económico, a análise marxista é bem mais frutífera na medida em que assume uma perspectiva de totalidade. Por outras palavras, se é verdade que as classes têm o seu substrato matricial nas relações de produção, também é verdade que elas se objectivam no plano político e ideológico-cultural. Não por acaso, Marx e Engels defenderam no “Manifesto do Partido Comunista” que «todas as lutas de classes são lutas políticas» (Marx e Engels, 1975, p.66). Assim, as classes sociais são sempre uma realidade palpável, quanto mais não seja no plano económico, onde os mecanismos de extracção de mais-valia constituem o nervo central das sociedades contemporâneas. Deste nível primordial as classes podem projectar-se para o domínio político e cultural.

Por conseguinte, as classes definem-se como um processo histórico, na medida em que à relativa estabilidade das relações de exploração capitalista não se somam automaticamente uma classe trabalhadora (e seus possíveis aliados) alienada e uma classe burguesa altamente organizada, coesa e consciente dos seus desígnios. De facto, no que toca à classe trabalhadora, esta tanto pode adquirir um posicionamento conservador como um posicionamento revolucionário, dependendo sempre da conjuntura histórica em que se encontra. No fundamental, quanto mais organizada e coesa internamente, quanto mais ligada a sindicatos e partidos políticos pertencentes ao universo operário, mais ela pode aparecer na cena política como um sujeito colectivo capaz de transformar as estruturas sociais e políticas e, consequentemente, trazer ao de cima o seu cariz revolucionário. Se se preferir uma formulação alternativa, a classe trabalhadora é sempre (ou quase sempre) revolucionária quando se consegue libertar política, ideológica e organizativamente das influências profundas e incrustadas da(s) ideologia(s) dominante(s).

Todavia, nem sempre esta é a situação da classe trabalhadora e as últimas décadas têm apontado para um difícil processo de mobilização colectiva. Evidentemente, nada nesse estado de retracção política e identitária da classe trabalhadora é definitivo e congelado, ou sequer natural como defendem os apologetas do capital, mas é o resultado de um complexo processo económico, político, social e histórico onde a ofensiva de classe da burguesia tem colocado a generalidade dos trabalhadores e dos povos numa situação de (temporária) defensiva. Com a luta colectiva de massas e tendo em mente o legado de décadas e décadas de extraordinárias movimentações operárias e populares, mobilizemo-nos, mobilizemos ainda mais a classe trabalhadora. Viva a Greve Geral de dia 24 de Novembro!

 

Bibliografia

AGUIAR, João Valente (2011) – Classes, valor e acção social. Lisboa: Editora Página a página.

CARCHEDI, Guglielmo (1977) – On the economic identification of social classes. London: Routledge and Kegan Paul

MARX, Karl (1992) – O Capital, Livro I: o processo de produção do capital, tomo II. Lisboa: Edições Avante

MARX, Karl (1990) – O Capital, Livro I: o processo de produção do capital, tomo 1. Lisboa: Edições Avante

MARX, Karl (1983) – Carta a Joseph Weydemeyer. In MARX, Karl; ENGELS, Friedrich – Obras escolhidas: tomo I. Lisboa e Moscovo: Edições Avante e Edições Progresso.

MARX, Karl (1974) – Trabalho assalariado e capital. Lisboa: Edições Avante

MARX, Karl; ENGELS, Friedrich (1975) – Manifesto do Partido Comunista. Lisboa: Edições Avante

MOURA, José Barata (1997) – Materialismo e subjectividade: estudos em torno de Marx. Lisboa: Edições Avante

NUNES, Adérito Sedas (2001) – Questões preliminares sobre Ciências Sociais. 12ªed. Lisboa: Presença

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6 Responses to As funções do capital e do trabalho: em torno da identificação económica das classes sociais 3/3

  1. xatoo diz:

    “as classes definem-se como um processo histórico”, mas culturalmente. apesar desta ou daquela inovação ou alteração da sociedade, permanecem sujeitas à influência de pertença a um tronco com raizes nas tradições históricas – aquilo que Gramsci teorizou como sendo um “Bloco Histórico” – este enforma na prática o maior partido de massas, porque atravessa transversalmente todos os programas dos partidos burgueses (do CDS ao PCP). É por esta razão que o dominio cultural é importante para a classe dominante, porque impede a revolução desarmando a vontade combater, um método que sai relativamente barato, comparado com gastos em material de repressão. Os actuais suspiros por Salazar que se vão ouvindo por toda a parte resultam de um investimento nesse bloco histórico, enquanto uma nova ordem mundial vai sendo paulatinamente implantada e as raizes da antiga sociedade tradicional vão sendo desmanteladas e destruidas.
    Enquanto isso, vemos os potenciais escravos do “exército social de reserva ao serviço dos capitalistas” a clamar pela intervenção daqueles que os hão-de escravizar de forma cada vez mais atroz; e eles sugerem: emigrem, como fizeram os nossos avoengos das descobertas, porque o portugal daqui é demasiado pequeno, acanhado e ocupado pela Nobreza para que vcs caibam todos aqui na exploração.
    Mas esta aceitação passiva do auto-sacrificio da maioria silenciosa não é de forma nenhuma inocente. É um produto de décadas de colonização cultural. Resulta de um investimento concreto do Imperialismo. Se lermos Frances Stonor Saunders em “The Cultural Cold War: The CIA and the World of Arts and Letters” compreenderemos que nos primórdios dos Escritórios de Serviços Estratégicos (“Office of Strategic Services OSS) de onde viria a emergir depois a CIA, se tinha já em vista unicamente abrir caminho para as figuras de topo que hoje todos conhecemos: os Bushs (pai e filho) que acabaram depois por, em duas tacadas fulcrais (1963, o assassinato de Kennedy – 2001, o 11 de Setembro), estabelecer as bases do novo mundo de dominação global, a cuja tentativa de implantação assistimos hoje.
    Mas vamos lá dizer isto a um aculturado açoreano da ilha do Corvo que tenha parentes na América, insinuando que eles estão a colaborar na implantação de uma nova forma de fascismo…

  2. Reply diz:

    Antes de mais, parabéns ao João Valente Aguiar pela interessante série de textos que aqui tem publicado. Queria apenas deixar aqui uma que o JVA, com certeza não se importará de esclarecer caso eu esteja a fazer um juízo apressado ou superficial das suas palavras.
    Quando escreve que “No fundamental, quanto mais organizada e coesa internamente, quanto mais ligada a sindicatos e partidos políticos pertencentes ao universo operário, mais ela pode aparecer na cena política como um sujeito colectivo capaz de transformar as estruturas sociais e políticas e, consequentemente, trazer ao de cima o seu cariz revolucionário.” não estará a cair num apriorismo. Não poderá, em dado momento histórico, a classe operária estar coesa e organizada e os partidos e organizações estarem manifestamente atrasadas face à consciencialização que os trabalhadores adquiriram em determinado processo de luta e desfasada desse processo, isto é, não poderão essas institituições estar a fazer uma avaliação objectivamente errada das relações de forças que se estabeleceram e, com isso, a subvalorizar um cariz revolucionário de classe que lhe escapa ao mesmo tempo que sobrevaloriza os efeitos da ideologia burguesa. Ao fim ao cabo, não poderão, essas instituições, consciente ou inconscientemente, estar contaminadas pela ideologia dominante e, consoante a sua força política, servirem de freio à radicalização da luta de classes e, por isso mesmo, de travão à expressão das contradições do capitalismo?

  3. Raquel diz:

    A classe é Social.

    Uma perspicácia inigualável!! Porra!!!

    • João Valente Aguiar diz:

      Há quem ache que a classe é um conjunto de estilos de vida, há quem ache que a classe é uma mera soma de indivíduos com tarefas profissionais aproximadas, há quem ache que a classe é só económica, há quem ache que a classe seja o resultado de uma construção rácica, há quem ache que a classe é um agregado de indivíduos com uma determidade corporalidade e fisicalidade…
      E há quem considere que a classe tem a sua matriz na esfera económica e que tb pode actuar na cena política e ideológico-cultural. Só nesta acepção ela é SOCIAL.

  4. Raquel diz:

    No contexto (filosófico-ideológico) em que apresentou o termo, o conceito de classe é necessariamente social.

    Seria interessante ouvir Marx a falar da classe em termos e finesse, corporalidade e savoir faire.

    Tanto bla bla para nada.
    Vocês adoram a verborreia.
    Passe bem.

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