Uma Esquerda Ambiciosa

A Assembleia Popular de 15 de Outubro aprovou, entre outras medidas, a proposta da Rubra de expropriação da banca sob controle dos trabalhadores. Os mais distraídos fingiram que o tema não foi sequer aprofundado e mesmo na esquerda radical o silêncio sobre o tema é ensurdecedor. Porque a suspensão do pagamento da dívida, a única política leal e séria de defesa dos direitos dos trabalhadores, não pode ser levada a cabo sem o controle do sistema bancário e financeiro.

Leo Panitch escreveu como está estupefacto, não pela falta de capacidade da esquerda mas pela sua falta de ambição – afinal, no calor de salvar os bancos e entregarem a factura aos trabalhadores, a burguesia abre caminho para que a consciência de classe supere o lixo ideológico que normalmente a adormece. Nunca foi tão fácil como desde 2008 explicar a necessidade da expropriação da banca e, em última análise, a defesa de um projecto socialista. Ao invés, a esquerda fala de «corrupção», «taxação financeira», «falta de regulação dos mercados», apelando à intervenção do mesmo Estado que a garroteia, explica Panitch.

No momento em que assistimos, como ponto central da cimeira de ontem, a mais um pacote de nacionalização dos prejuízos bancários – eufemismo para «recapitalização da banca» – deixando porém a propriedade dos bancos incólume, a estupefacção de Panitch é o sentimento mínimo que os marxistas partilham.

Continuamos a navegar no capitalismo moral, ou seja, numa ilusão assente em coisas tão estrambólicas como a «necessidade de regulação dos mercados financeiros». Porque apela a esquerda à regulação quando hoje a economia é mais regulada do que nunca, muito mais regulada do que há 3 anos atrás? Há algo mais regulado do que o keynesianismo que se vive hoje de tirar dos impostos dos trabalhadores os valores dos títulos podres da banca? Há algo mais regulado do que a centralização da produção e reprodução da vida em sociedade, milhões de europeus, em torno de uma dívida que não contraíram mas que é criteriosamente regulada e cobrada pelo FMI, a Alemanha e a França? A resposta é que há… há, o keynesianismo radical do esforço de guerra, a forma mais perfeita de keynesianismo.

http://www.socialistproject.ca/leftstreamed/ls81.php

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11 respostas a Uma Esquerda Ambiciosa

  1. Vasco diz:

    De que «esquerda» fala a Raquel? O PCP há muito que defende a nacionalização de toda a banca comercial…

  2. Raquel Varela diz:

    1 – Com ou sem suspensão do pagamento da dívida?
    2 – Toda a banca ou deixando de fora o capital estrangeiro como em 1975?
    3 – Com controle operário ou com bancos administrados por uma joint venture sindicatos/Estado?

    O que hoje são questões aparentemente de pormenor, amanhã decidem os destinos de uma revolução:

    http://analisesocial.ics.ul.pt/documentos/1223914945K5vDD0qz2Cc92GZ9.pdf

  3. João Pais diz:

    1 – mas há facções organizadas dentro das assembleias populares? mas isso não é instrumentalizar o movimento e/ou fracciona-lo?
    2 – como pode a nacionalização da banca viver lado a lado com o “euro mais forte” dos indignados?
    3 – ja reparou no que se passa à sua volta? quem é que levaria a cabo tal empresa neste momento (por muito que seja justa), o Peter Pan ou o Indiana Jones?

  4. Outro diz:

    (agradecia Raquel, que removesses o comentário anterior e que aceitasses este no seu lugar, por qualquer razão perdeu a formatação)

    Viste e leste a intervenção de Panitch diagonalmente, só pode.

    “Ao invés, a esquerda fala de «corrupção», «taxação financeira», «falta de regulação dos mercados», apelando à intervenção do mesmo Estado que a garroteia, explica Panitch.”

    Panitch refere-se à esquerda tipo “Michael Moore” (expressão é dele), que irresponsavelmente defenderam a falência dos bancos que se envolveram em actividade fraudulenta levando à crise de 2007 ignorando pelo caminho que nesses bancos se encontram os recursos dos trabalhadores.

    A crítica que Panitch faz a uma esquerda marxista é outra, fragmentou-se em duas correntes “euro-comunismo” que ele considera uma deriva social-democrata, e a outra que, nos anos 60, criticando o estalinismo capitulou ao pós-modernismo (“pluralismo do pensamento”, “não existe verdade”, “não deverá haver partido” expressões de Panitch).

    E será em relação a esta última que iria encaputada a recusa do conceito de “economia planificada” por fuga ao “estatismo”. É aqui que chegas:

    “Continuamos a navegar no capitalismo moral, ou seja, numa ilusão assente em coisas tão estrambólicas como a «necessidade de regulação dos mercados financeiros».”

    “…estrambólicas como a «necessidade de regulação dos mercados financeiros».”???
    Panitch, para que não houvesse dúvidas chega mesmo a dizer: (minuto 13:58)

    “We can not conceivably, in my view, even begin to think about solving the ecological crisis, which coincides with the economical crisis, whitout returning… the left returning, to an ambitious notion of economic planning. It’s inconceivable, it can’t be done, we run away from this for half a century, because of (command planning of the Stalin estate)*, and all its horrific effects, its inefficiencies, but even more its authoritarianism. We can’t avoid this, and having credit in the hands of a public utility, or series of public utilities, is at the core of what economic planning would have to be.
    (…)
    We need capital controls because without them, we can’t have democratic control of investment, it is not just capital controls on the border, even more, it is controls on capital for the point of directing, in a democratic fashion (if we’re socialists): what gets invested; where it gets invested; how it gets invested; etc.”
    *é pouco audível

    E continuas:
    “Porque apela a esquerda à regulação quando hoje a economia é mais regulada do que nunca, muito mais regulada do que há 3 anos atrás?”

    Este argumento é o mais perigoso de todos! Mesmo, mesmo perigoso! E para uma rapariga de esquerda aconselho-te, sinceramente, a dares mais atenção à questão económica.

    O facto de a regulação existir mas não ter evitado a bolha especulativa de 2000-2007, o facto de ter sido introduzida mais regulação pós 2007, e estarmos hoje literalmente à beira do colapso economico-financeiro (e também politico), quer apenas dizer que a regulação em causa foi nuns casos insuficiente para evitar a crise, noutros casos foi violada, noutros casos ainda foi mesmo responsável directa da fraude que se gerou. A conclusão a tirar é que o conluio da classe governante com as corporações e o capital financeiro fizeram a “regulação” à sua medida para chegarmos onde chegamos ilibando-se totalmente da própria responsabilidade sacudindo-a para cima do contribuinte e dos povos.

    Referências da regulamentação que permitiu a crise global de hoje com genese nos estados unidos:
    1999 – Gramm–Leach–Bliley Act que supera o Glass-Steagall Act e permite a fusão entra banca comercial e a banca financeira
    2000 – Commodity Futures Modernization Act que veio abrir o mercado de “derivados” financeiros

    Ambos instrumentais em elevar o fosso entre capital especulativo face ao capital “real”, espalhando o risco, nunca antes experimentado, por toda a cadeia financeira na criação de crédito fazendo refém a economia e os povos que dela dependem.

    Esta legislação foi talvez a mais avançada experiência em “Anarco-Capitalismo” alguma vez feita e de consequências tão previsíveis que se pode suspeitar mesmo de um golpe de estado da alta-finança sobre todo o globo, por outras palavras a “Globalização” foi precisamente isto.

    • Raquel Varela diz:

      Outro,
      Passarei à frente das sugestões/intenções e vamos ao que interessa:

      Panitch coloca sobre a mesa um projecto de socialização dos meios de produção, falamos de propriedade privada ou socializada, e não de mecanismos de intervenção estatal. O que é que isto tem a ver com a taxa tobin ou qualquer outro sistema de regulação do capitalismo? Regulação da economia e regulação do capitalismo não são a mesma coisa.

      • Outro diz:

        Sem prejuíso do comentário anterior, Panitch dá enfase à necessidade incontornável (para esquerda) defender a socialização de sectores da economia, menciona a Banca, mas também os transportes. Mas isto até aqui não seria nenhuma novidade para as esquerdas (dignas da designação pelo menos)…

        Parece-me é que interpretas mal quando ele refere que a “falta de ambição” da esquerda o é ao limitar-se em apresentar essas medidas (coisa que não é verdade para todas as esquerdas).

        Medidas de curto prazo (de Panitch):

        -“But in the current crisis the Left’s immediate demand could and should have centered around bringing the banks into public ownership.”

        -“We should be also demanding universal public pensions, as the private pension plans won by trade unions now are coming unraveled for both public sector and private sector workers.”

        -“We should also be calling for free public transit – to be available like public libraries, public education and public health care.”

        Visão de longo termo (de Panitch):

        “Despite the ‘Another World Is Possible’ rhetoric, the left has been more oriented to attempting to hold on to things than to taking things in a new direction.”

        “This is, oddly enough, one of the limits of a perspective that says you can change the world without taking power, without engaging on the terrain of the state, without transforming the structures of the state.”

        “Speaking more generally, it is increasingly clear that trade unions, as they evolved through the 20th century, not only in the advanced capitalist countries, also in most of the countries of the South, are no longer capable of being more than defensive.”

        Aceitando a extrapolação, ele não critica um “sistema de regulação do capitalismo” por serem nocivos à economia na optica da esquerda organizada, ele considera-os é demasiado “defensivos” como soluções, uma espécie de mera cosmética à face Capitalista.

        “The challenge now is to build a trade unionism that is actually a class organization, one that goes beyond organizing people by the workplace alone and organizes people in relation to the many facets of their lives touched by this crisis.”

        É aqui que me parece que ele sugere que a “esquerda pós-moderna” se supere a si própria trazendo consigo as lições desse contexto em que a classe trabalhadora se encontra fragmentada.

        • Raquel Varela diz:

          «Mas isto até aqui não seria nenhuma novidade para as esquerdas»??? Mas essa é precisamente a novidade, meu caro, é que nem o programa mínimo temos direito.
          Saudações!

        • Outro diz:

          Bom… então já não sei mesmo por onde vão os teus raciocínios. A esquerda que melhor conheço, com maior representação e histórico parlamentar (não poderei falar pelas outras) desde há muito que defende a nacionalização da Banca(encontrarás aqui referência aos seguros bem como aos fundos de pensões) em coesão com o seu programa político há muito assumido.

          “Mas essa é precisamente a novidade, meu caro, nem o programa mínimo temos direito”, mas isso não é mesmo novidade, Raquel, é que não é mesmo:

          As cedências reivindicativas, ou a passagem à “defesa” (no sentido de Panitch), ou ainda de outra maneira, a desradicalização da luta, não se podem dissociar do processo de correlação de forças, e que precisamente foi balançando no sentido contrário aos interesses da classe trabalhadora. E isto não acontece por acaso, os fundamentos reivindicativos permanecem nos programas (onde permanecem), acontece é que a deriva capitalista neoliberal “chicaguense” tornou bem mais imediata e necessária a reivindicalção de questões mais superficiais (talvez por uma questão de pragmatismo). Cooptou por esta via a social-democracia e enfraqueceu a esquerda mais “ortodoxa”. Acredita que isto não é novo, tem barbas mesmo.

          Permitir-me-ia, interpretando mais além as palavras de Panitch, que este efeito foi exacerbado pela pulverização da classe trabalhadora na actividade económica do sector económico terciário, fragmentado a sua unidade de luta, já que esse sector é mais dado a uma individualização dos postos de trabalho e consequentemente uma particularização da luta. Isto sim parece-me o contributo mais inovador de Panitch, não a idea que as esquerdas já não defendem reivindicações fundamentais, senão que, mais difícilmente impoêm essa mesma agenda.

          No entanto, e agora indo mais ao teu encontro, concordo com a ideia que “Nunca foi tão fácil como desde 2008 explicar a necessidade da expropriação da banca e, em última análise, a defesa de um projecto socialista.”. A crise efectivamente trouxe para cima da mesa os fundamentos das reivindicações.
          E lá porque assim é, não quer dizer que as outras mais particulares mas que das fundamentais derivam, não mereçam a atenção das esquerdas.

          Saudações Revolucionárias
          Pedro (são muitos “Pedros” por aqui)

          • Raquel Varela diz:

            Pedro,
            Bom dia!
            Se esse é o programa – e a mim parece-me central em qualquer programa – porque não está ele nas palavras do secretário geral e espalhado nos materiais de propaganda?

            Saudações revolucionárias
            Raquel

          • Outro diz:

            Teremos talvez que agradecer à capacidade selectiva dos editores que actualmente definem o critério jornalístico e o interesse público, por um lado, visto que a notícia que passei e se refere a 2009 não se trata de caso isolado nos discursos do sec. geral.

            E aproveito para chamar às campanhas do PCP em 2010, no sentido do reforço do Sector Empresarial do Estado (ponto 3.):

            Nacionalizações

            Não às Privatizações

            Saudações revolucionárias
            Pedro

  5. António Paço diz:

    Bom debate este! Tenho de ir ver o que defende esse Panitch, que nem conheço.

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