Parece que alguém tem andado a meter o testículo em virilha alheia

«(…) O empobrecimento dos trabalhadores, não só da Administração Pública, mas também do sector privado, dos reformados e pensionistas e da população em geral é, não só socialmente injusto e intolerável, como contraproducente, porque a quebra do poder de compra está a ter efeitos devastadores no mercado interno, levando ao encerramento de empresas e à consequente perda de postos de trabalho.

A generalidade da população, dos trabalhadores, dos jovens, dos desempregados e dos reformados e pensionistas está a pagar a factura de uma crise que não provocaram. (…)

Neste sentido, o Conselho Nacional da CGTP-IN, reunido a 18 e 19 de Outubro de 2011, decide:

(…)

Parece que, para a direcção da CGTP-IN, não é evidente que houvesse uma conexão entre as “reiteradas exigências de manifestações em dia de greve” e um qualquer “discurso anti-sindical”. E, se por acaso achou que havia, parece que tem suficiente consciência da incomparável importância e força do movimento sindical (em termos absolutos e em comparação com os restantes e louváveis movimentos sociais) para não subordinar o impacto e capacidade de mobilização da Greve Geral a sectarices mesquinhas.

Parece que, para a direcção da CGTP-IN, não é evidente que uma Greve Geral seja uma coisa que só diga respeito aos trabalhadores assalariados, devendo a restante população arranjar nesse dia um entretém qualquer e não chatear. Parece que, pelo contrário, considera que o seu protesto e reivindicações são expressão dos interesses da população e do país. E parece que, pelo contrário, não só considera bem-vinda a mobilização cívica dos desempregados, dos jovens, dos reformados e da população em geral, como acha que cabe ao movimento sindical organizar, por todo o país, acções públicas no dia da Greve Geral, onde os trabalhadores e a restante população possam dar expressão pública à sua indignação.

Parece que, para a direcção da CGTP-IN, não é evidente que a realização de piquetes e a paralização dos transportes públicos sejam impedimento à organização e realização de acções públicas.

Parece enfim que, para a direcção da CGTP-IN, não é evidente que a forma mais eficaz, pura e justa de fazer uma Greve Geral na situação que atravessamos seja, por definição, ter um garboso e empenhado punhado de activistas nos piquetes e o resto dos grevistas em casa ou a passearem nos centros comerciais. 

 

Também parece que, como diz (em versão mais vernácula) uma conhecida expressão popular, andou por aí muito boa gente a meter o testículo em virilha alheia.

Ou, para usar uma outra colorida expressão popular, parece que andou por aí muito bom mestre de revolução e sindicalismo a querer ensinar o pai a fazer filhos. De forma “evidente”. E “por definição”.

 

post scriptum – parece que é necessário um glossário.

«Meter o colhão em virilha alheia»: expressão popular oriunda da Beira Litoral, com o significado de reagir em nome de outrém a acontecimentos ou acusações, como se fossem nossas as dores que se imagina sejam sentidas por essa pessoa; usurpar as reacções alheias com base nas próprias opiniões, por excesso de zelo ou intenção malévola.

 

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21 respostas a Parece que alguém tem andado a meter o testículo em virilha alheia

  1. Pedro Penilo diz:

    Oh, Paulo, toda teoria e a história foram dar em tão pouco:

    “acções públicas em diversos distritos”

    Todas as greves gerais tiveram acções públicas em diversos distritos – normalmente concentrações de activistas sindicais ao final do dia. (A primeira, com direito a uma carga policial no Rossio.). Não há nisto a mínima novidade.

    Ambos sabemos que o que se tratava está a milhas disto – aquilo que o discurso anti-sindical e a nova moda “encomende-a-data-da-sua-greve-geral” exigem é outra coisa.

    • paulogranjo diz:

      Pedro:

      Acabo de, inadvertidamente, clicar no “cancelar”, em vez de no “publicar”, no fim de um longo e cuidadoso comentário ao teu. Começava por dizer que nem a intenção do post nem a altura era de medir pilinhas, explicitava o que é que o comunicado demonstra acerca da consciência, confiança e abertura à sociedade por parte do movimento sindical, e discutia os efeitos perversos (e contrários aos valores que sei serem teus) do agressivo combate a sugestões públicas que, ao contrário dos seus auto-designados defensores, o movimento sindical não encara como ataques que lhe sejam feitos. Acabava desejando que estas irrelevantes escaramuças bloguísticas (e, não estava lá escrito mas acrescento agora, o seu carácter ridículo mas erosor) nos façam parar para pensar em comportamentos e atitudes, evitando efeitos bem mais graves, em situações e contextos bem mais sérios. Acabava mandando-te um abraço.

      Se sabes como é que se, aqui, se recupera um texto depois de clicar no “cancelar” (se é que tal é possível), afradeço.
      Se não dá, tentarei mais tarde reproduzir o que escrevi.
      De momento, não posso. Vou limitar-me a aprovar os comentários que entretanto chegaram, sem sequer os ler, e ir à vida.

      • Pedro Penilo diz:

        Não sei como se faz isso de ressuscitar comentários. Também já me aconteceu.

        • paulogranjo diz:

          A chatice é que me exigiu muito trabalho e tempo, tinha ficado exactamente como queria, me fez chegar atrasado a uma reunião de serviço e… para nada. Se não fosse alentejano, tinha-me dado uma coisinha ruim! A gente depois fala, pessoalmente. Abraço.

  2. JMJ diz:

    “Parece enfim que, para a direcção da CGTP-IN, não é evidente que a forma mais eficaz, pura e justa de fazer uma Greve Geral na situação que atravessamos seja, por definição, ter um garboso e empenhado punhado de activistas nos piquetes e o resto dos grevistas em casa ou a passearem nos centros comerciais.”

    Este parágrafo é todo um tratado…

    Onde seria obvio que quando falamos de piquetes, falamos, em primeiro lugar, de trabalhadores a manifestarem-se no seu local de trabalho, responde o autor do parágrafo com “um garboso e empenhado punhado de activistas”. Está bonito…

    Aparentemente, a ideia da mobilização do conjunto dos trabalhadores para um piquete é algo que não passa pela cabeça de muita gente, porque (voltamos a pontos anteriormente discutidos) os trabalhadores querem é ir para o Centro Comercial e só os sindicalistas é que querem fazer greve.

    Serei o unico que defende que toda a acção de mobilização para a Greve Geral de 24 de Novembro deve começar pela constituição dos piquetes no máximo possível de locais de trabalho e só depois destes assegurados, começar a pensar em manifestações?

    • paulogranjo diz:

      Afinal comento.
      Não tem participado nem visitado muitos piquetes de greve nos últimos anos, pois não?

      • JMJ diz:

        Como sou trabalhador, tenho por hábito participar nos piquetes no meu local de trabalho, pelo que me sobra pouco tempo para visitar outros piquetes.

        Mas se o que diz é verdade, não será então a hora de se apelar prioritariamente à participação de TODOS os trabalhadores nos piquetes nos seus locais de trabalho, deixando a mobilização para manifestações de rua para outro momento (que pode ser, por exemplo, o próprio momento em que decorre o piquete)?

        • paulogranjo diz:

          Se calhar, a progressiva (mas rápida) redução dos piquetes aos delegados sindicais e meia-dúzia de activistas mais empenhados, ficando o grosso do pessoal em casa, não mereceu a preocupação que merecia.
          Não sei se, instalado e generalizado esse hábito (excepto nos casos de empresas em risco de fecharem, de fuga de equipamento ou de substituição dos trabalhadores por amarelagem, em que isso normalmente não se passa), ele será possível de inverter. Fácil não será. Mas, pelo menos nos casos de greves locais e sectoriais, parece-me que seria muito importante, por diversas razões.
          Mas não me parece que isso deva ser considerado incompatível com acções públicas (como desfiles, manifestações, concentrações ou plenários em lugares centrais, esclarecimentos à restante população acerca dos motivos da greve), quer falemos de greves gerais, quer das mais delimitadas. Aliás, nada disso é novo – embora seja mais frequante no caso de empresas sob ameaça de fecho ou de despedimento colectivo.

          Como disse ao Orlando, considero (e, segundo parece, os líderes sindicais também) todos os instrumentos democráticos de luta sindical e social, e ainda outros que se inventem e valham a pena, devem ser utilizados e combinados, quando se considera que isso é mais eficaz e viável.
          Se uma luta é liderada pelo movimento sindical, cabe-lhe a ele decidir, em cada caso, como e quando isso é feito (ou que só se utiliza uma delas). E, se a questão em causa é global a toda a sociedade, cabe aos cidadãos contribuírem empenhadamente para o debate que leva a essa decisão. Sem virem querer “ensinar o pai a fazer filhos”, nem substituir-se àqueles a quem cabe a decisão.

          Digo eu, vá.

          • JMJ diz:

            pois agora colocou a questão correcta. Cabe ao movimento sindical organizar as suas lutas. O mais escabroso nesta converseta toda das “manif’s e piquetes” é que anda por aqui muita gente que passa o tempo todo a criticar sindicatos e a exigir dos sindicatos mas que não quer actuar dentro das exigências que o movimento sindical encerra.

            Resumindo, até dia 24 há 3 tarefas primordiais:
            – organizar os trabalhadores no seu local de trabalho para a constituição de piquetes de greve;
            – consciencializar, mobilizar e reforçar os trabalhadores nos sectores mais fragilizados para também eles puderem participar nesta luta;
            – consciencializar as populações da importância da greve geral;

            Todas as outras formas de luta são legitimas e úteis e importantes mas é nos locais de trabalho, junto dos trabalhadores, na mobilização para a Greve, que devemos concentrar os esforços.

          • paulogranjo diz:

            A conclusão que retiro daquilo em que estamos de acordo não é bem essa.
            Parece-me que tudo o que refere é imprescindível, mas daí não decorre a sua última frase.
            Diria que, mais do que “consciencializar”, como quem ensina, há que expor e debater, com a sociedade em geral, as razões que nos assistem e os perigos que nos ameaçam a todos. E, com isso, mobilizá-la para uma luta em que as empresas e os trabalhadores assalariados são parte imprescindível, mas cujo sucesso exige que se alargue muito para além deles.
            E, repito, parece-me que a liderança do movimento sindical está bem atenta a essa necessidade. E ainda bem.
            Trabalhemos para isso, na medida que estiver ao alcance de cada um de nós.

  3. Manuel diz:

    A desonestidade intelectual continua desenfreada. Agora infantilmente mutila o retrato na tentativa de levar a água ao seu moinho pequenino…

  4. RML diz:

    Não enfio o barrete no testículo nem este em virilhas alheias (pelo menos não com muita regularidade), mas espero que este comunicado sirva para se sentir satisfeito pelo facto de a greve geral ser marcada em tempo útil (é?), com manifestações (ou qualquer outra coisa, como depois coloca nas explicações ao post) e sem sectarismos (sim? não?). 75% dos favores foram atendidos (se se confirmar a frase anterior).

    Deve ser de Bolonha, que desvaloriza o valor dos mestrados. Fica provado que isto de mestres da revolução e sindicalismo não é para todos.

    • paulogranjo diz:

      Eu acho, antes, que não é para ninguém.
      Quanto à atitude da liderança do movimento sindical, bem expressa nesta convocatória, está felizmente a milhas da que foi seguida por aqueles que (querendo sentir como suas as dores testiculares que imaginam que ela sentiu) tentaram, de forma agressiva, contraproducente e por vezes ridícula, defender os sindicatos de “ataques” que os seus líderes não encaram como tal.
      Sim, fiquei satisfeito.

      • Manuel diz:

        A desonestidade intelectual continua desenfreada. A infantilidade agora tem a ver com aquela da presunção e água benta cada um toma o que quer. E eu a pensar nos heróicos trabalhadores rurais a maioria analfabetos que em pleno fascismo conseguiram arrancar as 8 horas… e na Catarina Eufémia.

  5. Orlando diz:

    Oh Paula, mas se quiser manifs, porque não as convocam ? Porra, isto é preso por ter cão e por não ter. O movimento sindical está a dar a resposta que, a meu ver é necessária, qunato às pessoas que achem que deveria ser mais, então que convoquem as manifestações. Olhe Paulo sabe que neste momento o Rossio em Lisboa estão a ter um dos maiores plenários de que há memória, são milhares de trabalhadores reunidos rejeitando esta politica. Aprenda e desculpa, cresça também um bocadinho.

    • paulogranjo diz:

      De facto, se o Orlando lá estava no Rossio, estávamos os dois. Óptimo!
      E, se lá estava e prestou atenção, ouviu os dois últimos oradores apelarem explicitamente ao recurso a todas as formas de protesto e luta legais no nosso regime democrático, durante a Greve Geral e durante um processo de luta que não se esgota nela, nem na aprovação ou não do orçamento. E ouviu a primeira oradora intervir no mesmo sentido, embora sem o explicitar por estas palavras.

      Eu acho que o movimento sindical optimamente o seu papel, de acordo com o que deve e sabe, de experiência passada e de análise das mutáveis condições e necessidades presentes.
      E que deu bastas indicações de que irá pesar maduramente, em permanência e sem preconceitos ou sectarismos (um outro apelo explícito dos oradores) as combinações de formas de luta que considere mais eficazes e adaptadas às condições de cada momento.
      Essa é (conforme parece não querer ver quem se empenhou numa guerrinha contra tudo o que fosse mais do que piquetes) uma vantagem da formulação «promover acções públicas»; não define a priori, a um mês de distância, nem para todo o país, qual o tipo de acção ou acções mais eficazes para a situação da altura, num processo em que alterações muito grandes estão a ocorrer de semana para semana.
      Pela minha parte, estou satisfeito, estou confiante, apoio e aprendi coisas.

      A gente vê-se na tal manif na primeira quinzena de Novembro, que foi ontem sufragada pelo plenário. E, espero, em todas as acções que sejam necessárias, nesta luta em que é necessário unir toda a gente que a queira vencer.

  6. Óscar Cardoso diz:

    Caro Paulo, uma vez que o seu objectivo principal é provar a todos que tem um caralho maior do que o de nós todos, sugeria-lhe que o curvasse ligeiramente e o enfiasse no seu cuzinho!
    um grande bem haja!

    • paulogranjo diz:

      Tem que me ensinar essa técnica do corpo que, aparentemente ao contrário de si, não domino. Se calhar, é por ter uns problemas de coluna.

      Mas, se se interessar por outros assuntos para além da auto-sodomia, pode ler a resposta ao comentário do orlando.

      Bem haja, por abrir as minhas perspectivas quiçá limitadas acerca dessa parte tão agradável da existência humana que é a sexualidade.

  7. António Fonseca diz:

    “Por cada camarada que cai que floresçam mil revoltas” porque é que o Tiago Mota Saraiva apagou o post de ontem com este título?

  8. Francisco d'Oliveira Raposo diz:

    A “aparência da não evidência” do amigo Pedro, para mim, apenas revela algum distanciamento do mundo sindical.
    No Plenário de Emergência do Sindicatos de onde surgiu o apelo ao debate para a Greve Geral de 24 de Novembro do ano passado a questão da manifestação foi colocada. Por dirigentes sindicais de vários níveis.
    O argumento prevalecente na Comissão Executiva da CGTP é que n”não havia condições” que “os transportes estariam em greve”… etc e tal.
    Durante a Greve Geral do ano passado, integrando um piquete de greve móvel do meu sindicato foi quase permanentemente abordado pro trabalhadores e transeuntes perguntando pela manifestação. Eu e muitos outros do meu sindicato, e pela amostra, creio que dos outros todos.
    Ao decidir, e nisto obviamente estou de acordo, “Promover, através das Uniões Distritais de Sindicatos, no dia da Greve Geral, acções públicas em diversos Distritos para dar expressão pública à indignação geral(…) a Comissão Executiva evoluiu na sua posição de há um ano. Tanto quanto sei com bastante debate interno. E isso é salutar. Reflecte o enfrentamento de várias perspectivas no seio dos trabalhadores para dar resposta à crise. E a crescente pressão da situação objectiva, face à brutalidade do ataque do governo de colaboração e o patronato e a pressão dos activistas sindicais e sociais. Mas é claro que óbvio que nem todas as correntes de opinião no seio dos trabalhadores estão representadas nesse órgão. É a vida, mas há sempre que não suporte isso e tenha de por “clarividência” numa decisão que custou a alguns muito mais do que é expresso.
    Estou a falar, por exemplo, do sector da CE da CGTP que manifestou preocupação com o “radicalismo” da CGTP.
    Enfim, agora o que conta é construir uma grande Greve Geral e o clima adequado para a continuação da luta depois de 24 de Novembro de 2011.

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