Sintra Misty, 15 de Outubro – Dead Combo + Mazgani: Portugal no Mundo

O terceiro dia do Sintra Misty teve honras de produção nacional e a guitarra em franco destaque. Dois concertos em Portugal, de bandas portuguesas, mas com horizontes sonoros noutros pontos geográficos, essencialmente centrados na América, mas alastrando-se para outras paragens. A fusão global, com algum paralelismo com a que sucedeu neste mesmo dia nas manifestações mundiais, cuja realização viria à baila ao longo da noite.

Com uma sala bem composta, mas não cheia, o primeiro a subir ao palco foi Mazgani. Acompanhado de um segundo guitarrista (Sérgio Mendes), o músico mostrou uma sonoridade algures entre o western, o blues e o folk, ora com mais nervo, ora com mais espiritualidade lenta. Apesar da belíssima conjugação entre as duas guitarras, o maior ponto de destaque será a voz, que, à parte um ou outro excesso interpretativo algo desnecessário, se mostra impressionante, com uma garra e intensidade notáveis. Apesar de peculiar e das dificuldades de comparação, estará algures entre Jeff Buckley (inspiração óbvia) e, nos momentos mais agudos, Nina Simone, salvaguardando as devidas diferenças, desde logo no género. Um contraste claro com a descontracção na comunicação com o público, que, entre referências pouco perceptíveis às marchas dos indignados, foi revelando toques de entertainer (quando respondeu ao repto de uma espectadora para se levantar e dançar) e um sentido de humor particular, nomeadamente na forma de auto-elogio jocoso (“estão a gostar? Isto vai ser sempre a subir”, dizia Mazgani). Com pontos altos na aceleração de Rebel Sword, na interpretação vocal arrepiante de Last Words ou na catarse final de Broken Tree, uma bela surpresa, especialmente para quem, como eu e apesar de Mazgani já ter dois discos editados, pouco mais conhecia que o mais levezinho e desinteressante single Bring Your Love.

Por falar em western, foi esse o ponto de partida dos Dead Combo há quase uma década. Contudo, desde sempre a dupla instrumental mostrou que os horizontes eram bem mais largos, passando pela fusão com a portugalidade adulterada (o tal rótulo de “fado western” que eles rejeitam) ou pela incursão por sons latinos. No seu quarto e mais recente trabalho, Lisboa Mulata, editado este mês, há uma incursão nas sonoridades africanas, embora não de forma totalmente evidente. É, acima de tudo, um disco mais cru e minimal, sem os efeitos e a aparição pontual de outros instrumentos (saxofone ou violoncelo), como sucedia em Lusitania Playboys.

Foi com um cenário aprumado, com grafonolas (a fazer lembrar megafones) e um vasto conjunto de flores (não, não foram só cravos vermelhos), que Pedro Gonçalves e Tó Trips subiram ao palco do Centro Cultural Olga Cadaval. O concerto abriu com o tema título e vibrante single de apresentação de Lisboa Mulata, um dueto perfeito de guitarras. Seguiram-se outras passagens pelo novo álbum e fica claro que a maior crueza se transpõe para palco, não só por não haver convidados (o contraste será particularmente evidente se comparado com os concertos com a Royal Orquestra das Caveiras, realizados no S. Luiz, em Lisboa), mas pela sonoridade propriamente dita. O primeiro regresso ao passado faz-se com Rombero, que marca a estreia na noite do contrabaixo, com e sem arco, e mostra o lado mais experimental dos Dead Combo, logo seguido do novo e mais contemplativo Aurora em Lisboa. Pouco depois, viria a primeira visita a Lusitania Playboys, com Sopa de Cavalo Cansada, dedicada à recente mensagem de austeridade do primeiro-ministro. “Vai ser só sopa e vinho”, foram as palavras de Tó Trips.

Contudo, o momento alto da noite estaria ainda para vir, com o belíssimo Este olhar que era só teu, um dos grandes temas de Lisboa Mulata. O tema foi criado a partir de um trabalho com o cineasta Bruno de Almeida, construído a partir de gravações antigas de Amália,  em fusão com outras linguagens, neste caso com um fundo africano. O resultado, particularmente deslumbrante ao vivo, é o protótipo do que pode e deve ser a evolução moderna do fado. Logo a seguir, regresso do contrabaixo, de Lusitania Playboys e das mensagens políticas subliminares, com Putos a roubar maçãs, “reflexo dos dias de hoje”, com direito a um delicioso devaneio de ruído.

O concerto aproximava-se do fim, mas ainda houve lugar a um tema blues, considerado tão mau pelos Dead Combo que recebeu o título de Blues da Tanga (longe disso, rapazes, longe disso), ou a uma versão de Temptation de Tom Waits, com um som estridente imperceptível (seria um kazoo?). Para a primeira despedida, o óptimo Marchinha do Santo António descambado (que título!), terminado, de forma hilariante, com o som das guitarras a ser substituído pela rodagem do tema nas grafonolas. Voltariam ainda para um encore, a mostrar o lado mais western bluesy a rasgar das origens, com Mr. Eastwood e o primeiro tema composto pela dupla: Cacto, dedicado às pessoas que preferem ter cactos a gatos, porque dão menos trabalho (?!). Que os Dead Combo eram incríveis e uma das grandes bandas portuguesas dos últimos anos, não haveria grandes dúvidas, mas depois deste concerto de apresentação de Lisboa Mulata, fica a ideia que talvez tenham dado mais um passo em frente.

(post originalmente publicado no site musical, Ponto Alternativo)

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