Virtude, mal, “marxismos” e os virtuosadores que nos rodeiam

Há pouco, li Kolakowski sustentar, num quadro de crítica aos marxismos e à visão dos crimes stalinistas como uma sua adulteração casual, que «o mal, eu afirmo, não é contingente, não é ausência, ou deformação, ou a subversão da virtude, mas um facto obstinado e irremissível».

Parece-me que a questão está mal colocada. Talvez por Kolakowski ter sido tão estruturalmente judaico-cristão como os sacerdotes dos “marxismos” no poder.

Pela minha parte, diria que a relação entre “virtude” e “mal” é bem diferente dessa, e muitíssimo mais generalizada (e verificável) nos mais diversos contextos da vida política e social.

Diria, antes, que a busca e imposição pública da virtude e da pureza se torna inevitavelmente maléfica (para além de repressiva) nos seus métodos, práticas e consequências.

Um efeito perverso? Talvez. Mas sistemático e permanente.

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6 respostas a Virtude, mal, “marxismos” e os virtuosadores que nos rodeiam

  1. André diz:

    «Diria, antes, que a busca e imposição pública da virtude e da pureza se torna inevitavelmente maléfica (para além de repressiva) nos seus métodos, práticas e consequências.»

    – – –

    Concordo, Paulo Granjo. Muito bem escrito.

  2. Pingback: o Havana Club, a garganta dos revolucionários de teclado e os oportunismos | cinco dias

  3. Pedro Penilo diz:

    “Diria, antes, que a busca e imposição pública da virtude e da pureza se torna inevitavelmente maléfica (para além de repressiva) nos seus métodos, práticas e consequências.”

    Então, para quê as leis, para quê a educação, para quê a luta política?

    Para quê escrever num blogue, por fim?

    Eu bem sei que lá estão “imposição”, “virtude”, “pureza”, palavras facilmente desagradáveis nos dias de hoje, por isso propositadamente escolhidas. Mas não iludamos o problema escolhendo termos que facilitam a sua resolução.

    Todo o viver humano (em sociedade) pressupõe regras, lei (imposição àquele que chega, que nasceu, que ainda não discutiu e decidiu, que não concorda estando em minoria, àquele que não quer saber, etc, etc). Todo o viver humano pressupõe uma noção de bem (chamemos-lhe virtude, deus, justiça, etc, etc, etc.). E para isto, também, a noção de coerência, ou constância, ou igualdade, ou regularidade, ou, de novo, justiça, equidade, harmonia (pureza, se o quisermos pôr em modo extremo, antipático).

    Não concordo necessariamente com a formulação de K. Mas antes direi que nada disso se resolve com tão poucas palavras. Com aforismos. E pode chegar-se à suspeição de que ambas as formulações, com suas palavras fortes, procuram afinal a pureza e virtude inatingíveis que aparentavam querer esconjurar.

    Abraço

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