o Havana Club, a garganta dos revolucionários de teclado e os oportunismos

Imagino que, quando uma resposta a um post não é feita na caixa de comentários respectiva, mas num novo post, insultuoso ou não, é também aqui que essa resposta deve ser comentada.

Ora escrevia eu, em resposta a um outro comentário um pouco mais abaixo:

«Depreendo que esta manifestação “é justa” porque você acha que é justa. E depreendo que, para além da autoridade da sua opinião (ou de outras, colectivas, que esteja a reproduzir), tal se baseia exclusivamente no facto de haver a possibilidade de imtervenção estrangeira contra a repressão sangrenta de protestos pacíficos massivos. Que, aliás, não vem de hoje, mas tem a diferença de se exercer sobre manifestações com visibilidade universal e na onda da celebrada “primavera árabe”, e não sobre vilórias de província, no quadro do quotidiano da repressão.

Isto porque, ao contrário do senador estado-unidense que dizia dos ditadores latino-americanos serem eles “uns filhos-da-puta, mas os NOSSOS filhos-da-puta”, ninguém no seu perfeito juízo, na esquerda portuguesa, pode achar o regime sírio os “SEUS” filhos-da-puta, seja por ele ser peão dos “nossos” interesses, seja por afinidades políticas. Isto, mesmo que se aceite essa lógica cámone e senatorial de relativização interesseira e electiva da filha-da-putice, que não partilho.

(…) acontece que, se quisermos olhar para analogias, elas são muito mais amplas. Afinal, esta é uma manifestação organizadamente “expontânea” de apoio a um regime ditatorial, vigiado e repressivo que existe há décadas (quase sempre em formal “estado de emergência”, é verdade, mas isso é apenas uma agravante), dominado por uma oligarquia e representado por um rosto visível (com sucessão dinástica, é verdade, mas é um pormenor), que reprime sistemática e permanentemente toda a oposição e protesto (embora os seus massacres de povoações fossem no seu próprio território em vez de em colónias, é verdade, e embora reprima as manifestações de rua a tiro, em vez de com bastões, cães e gás lacrimogéneo, também é verdade), destacando-se como vítima repressiva o Partido Comunista local, cujos membros foram sistemática e massivamente chacinados (numa quantidade, é verdade, que não permite sequer memorizá-los e honrá-los individualmente, como ainfda vamos conseguindo em relação aos camaradas asassinados pela PIDE).

Diria, por isso, que as semelhanças que legitimam analogias (ou mesmo a metonímia) vão muito além das existentes com “qualquer grande manifestação”.

E, confesso, esta gente e este regime não são entidades com quem queira ter alguma coisa a ver.

Mas que cada um escolha livremente os SEUS filhos-da-puta, caso seja essa a sua lógica política e existencial.»

Acrescentaria que, “cagão” ou não (parece que este criativo termo de calão sofreu uma mudança semântica, pois costumava designar detentores de verdades absolutas, arrogantemente acima da populaça e sempre prontos a educá-la, bebessem ou não Havana Club), nem sou troca-tintas nem tenho falta de memória. Tão pouco parto do princípio de que quem se torna inimigo dos meus inimigos meu amigo é – no geral, ou mesmo que meu inimigo fosse. O que remete para o penúltimo parágrafo deste post.

Acrescentaria também que bastas vezes meti a mão no lixo (e em fluidos bem mais traumáticos, que só parcialmente se lavam com Havana Club), bem longe dos teclados, embora tenha aprendido a recusar metê-las em lixo pseudo-teórico. A escolha da metáfora é, contudo, muito significativa.  Mostra que quem a escolheu considera (mesmo que sem plena consciência disso) lixo quem defende. Lixo em que mexe ao defender, tapando o nariz para lhe esconder o cheiro, tendo em vista objectivos conjunturais. O que, de novo, remete para o penúltimo parágrafo, para além de indicar que a crítica que me é endereçada não é a de assumir compromissos espúrios e inaceitáveis, mas a de intransigência.

Mais importante do que isso e do que a imbecilidade ignorante e caluniosa de afirmar que eu obtenho vantagens (em vez de desvantagens) profissionais e de estatuto em resultado das minhas posições e análises políticas é, contudo, uma outra questão. É o assumir de que os muros onde dizemos que alguém se senta são realidades claras, evidentes e indesmentíveis. Os “muros” que se postulam, as fronteiras delimitadoras que se tomam por reais e evidentes, só existem em resultado do processo de construção da própria opinião e da sua posterior legitimação, em defesa “virtuosa e pura” contra a discordância de outros e da realidade. Querer que eles sejam uma realidade e uma imposição para todos é, para além de cagonice (no anterior e mais comum sentido da palavra), quase solipsista.

Depois, acontece que a originalidade de uma opinião que tenhamos (e contra mim falo, pois não tenho falta dela) não é garantia da sua qualidade. Um francês célebre pelo seu sarcasmo dizia, em relação ao “Pensador” de Rodin, que não basta pensar; é necessário pensar em qualquer coisa. Também não basta pensar diferente num qualquer aspecto para termos razão e para assumirmos, cheios de cagonice, que os outros são uma carneirada.

A coisa fica mais complicada quando a nossa originalidade é repetir processos centenários: encher a garganta com chavões vindos de contextos discursivos louváveis, aplicá-los à subordinação das questões essenciais a interesses conjunturais (violando esses contextos discursivos), e anatemizar quem não concordar. Depois, imagino, sentir-se virtuoso e o puro dos puros.

Ora acontece que colocar um interesse táctico conjuntural à frente de questões estruturais essenciais se chamava, na gíria comunista, “oportunismo”.

Uma leitura do velho “Radicalismo Pequeno-burguês de Fachada Socialista”, de Álvaro Cunhal, pode ser hoje em dia uma leitura muito interessante. Não apenas pelas analogias. E não apenas para os que não enchem a boca com o seu legado.

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