A guerra dos pobres e o terrorismo dos ricos


Camilo Torres, padre e membro histórico do ELN

Há uns anos atrás, os mesmos partidos que aprovaram os massacres contra as populações da ex-Jugoslávia, do Afeganistão, do Iraque e da Líbia revoltaram-se contra a presença da revista colombiana «Resistência» na Festa do «Avante!». Durante uma semana, a imprensa prestou-se ao jogo sujo da direita portuguesa e o caso chegou às bancadas do parlamento com todas as baterias apontadas contra os comunistas. O objectivo era o de isolar e atacar o PCP como apoiante de organizações e acções terroristas.

O tema das FARC-EP regressou dois anos depois, em 2008, aquando da libertação de Ingrid Betancourt. PS, PSD e CDS propuseram um voto de congratulação pela ex-candidata presidencial colombiana que obteve o apoio de quase todos os partidos com assento parlamentar. A única excepção foi a do PCP que não quis colaborar num texto que não retratava a realidade da Colômbia. Os comunistas apresentaram, aliás, um texto alternativo que não só se congratulava com a libertação de Ingrid Betancourt mas que também condenava o terrorismo do Estado colombiano, em que se destacava o assassinato de sindicalistas. Obteve a aprovação dos Verdes e do BE e a rejeição dos «democratas» do PS, PSD e CDS.

«Falsos positivos»

Destes simpáticos partidos que nunca apoiaram o terrorismo, porque para eles a violência dos ricos é guerra e só a dos pobres é que é terrorismo, nunca ouviremos uma palavra que condene as razões que levam centenas de colombianos a abraçar a luta armada. Há mais de um ano, quando surgiram as primeiras informações sobre os «falsos positivos», não se ouviu a histeria escandalizada da direita portuguesa. A história que revoltou o martirizado povo colombiano e que indignou algumas organizações internacionais de direitos humanos não teve qualquer eco nos amantes da paz social. E não terá sido por distracção.

Jovens desempregados, toxicodependentes e delinquentes comuns começaram a desaparecer dos bairros de lata de Bogotá. Alguns familiares, denunciaram que alguém lhes tinha ligado a propor trabalho e que desapareceram no dia combinado para a entrevista. Meses depois, alguns desses jovens foram dados como mortos em combate ao serviço das FARC ou do ELN. Na verdade, a trama foi descoberta e o escândalo rebentou. O exército colombiano assassinou centenas de jovens, vestiu-os com o fardamento da guerrilha e apresentou-os como a prova de que o Estado estava a vencer a guerra.

Diomedes Meneses Carvajalino

Mas se aos que acusaram o PCP de apoiar o terrorismo não lhes importa o assassinato premeditado de centenas de jovens por parte do Estado colombiano como vão importar-se com Diomedes Meneses Carvajalino? Este é o nome do jovem guerrilheiro do Exército de Libertação Nacional que descreve, no vídeo, a sua vida desde que foi alvejado por uma bala de fragmentação e detido pelo exército colombiano. Talvez ao PS, PSD e CDS pareça normal mas, nesse dia, para lhe arrancar informações, esfaquearam-lhe os dedos das mãos, um por um. Arrancaram-lhe as unhas dos dedos dos pés, uma por uma. Mas, porque não sabia mesmo ou porque teve a coragem e a dignidade de defender os seus camaradas, negou saber do seu paradeiro. Foi então que o soldado lhe arrancou um olho com a faca. De seguida, degolou-o.

Diomedes Meneses Carvajalino teria sido apenas mais um «terrorista» morto em combate e os soldados que o abateram heróis não fosse os médicos legistas terem descoberto que o guerrilheiro estava cataléptico mas vivo. Recusaram prosseguir a autópsia como queriam os membros do exército e ligaram para organizações de direitos humanos. Já no hospital, em estado grave, a polícia, através dos serviços secretos, e o exército tentaram assassina-lo. Foi a oposição de um guarda honesto, que mais tarde morreu em estranhas circunstâncias, que o impediu. Hoje, Diomedes, deliberadamente preso na ala de paramilitares de extrema-direita, debate-se para continuar vivo.

O jovem militante do ELN não se chama Ingrid Betancourt. Não recebe a atenção da imprensa mundial e, muito menos, vai ser alguma vez referido na Assembleia da República Portuguesa. Se fosse um membro do exército, da polícia ou da oligarquia colombiana e estivesse nas mãos da guerrilha, FARC ou ELN, teria toda a probabilidade de sair da selva com vida e saudável como Ingrid Betancourt ou como os agentes secretos norte-americanos. É que ao contrário dos verdadeiros terroristas, as FARC e o ELN não matam civis para os vestir de soldados. Não arrancam unhas e olhos. Já os amigos do PS, PSD e CDS…

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18 respostas a A guerra dos pobres e o terrorismo dos ricos

  1. Miguel Lopes diz:

    Sem espinhas!!
    Clap, clap, clap!!

  2. António diz:

    Comunistas a falar contra a violência e o terrorismo de Estado?!?!??!? Por favor give me a break… Não sejam hipócritas. Tenham pelo menos e decência de se assumir!
    Sugiro uma frase deste tipo: o assassinato em massa de cidadãos é admissível para a sobrevivência do regime!
    Despois já podemos ter uma conversa intelectualmente honesta…

    • Bruno Carvalho diz:

      Intelectualmente honesto seria primeiro identificar-se politicamente e, depois, argumentar. De preferência sobre a Colômbia que é do que estamos a falar.

      Repito, os comunistas são contra o terrorismo de Estado, nunca disse que eram contra a violência. Os povos têm direito a defender-se e a resistir.

      • AAAA diz:

        Outro abraço ao ramiro moreira,e à malta da Madeira q tanto se ‘esforçou’ a meter o alberto joão no poder .

      • Samuel diz:

        António… assim, sem mais nada… tanto pode ser o “santo” do eixo Pádua/Lisboa, como o outro, do eixo Lisboa/Santa Comba.
        Estou mais inclinado para o segundo, mas as hipóteses são vastas :-)))

    • AAAA diz:

      Toninho ,dá um ganda abraço ao Duarte Lima.
      Ou és estúpido ou simplesmente grossseiro

    • A.Silva diz:

      António, mesmo com inglês à mistura não tens outra cassete para debitares?
      É assim tão dificil ter um pensamento que seja sobre a história deste homem?

    • Vasco diz:

      Sobre o assunto em questão nem uma palavra, certo?

  3. Nuno L diz:

    Pronto António li as tuas alegações que não têm nada a ver com o texto em causa. Mas qual é tua opinião sobre o caso do Diomedes Meneses Carvajalino?

  4. Carlos Carapeto diz:

    Pois é António a violência é um apanágio dos comunistas! Ninguém a sabe praticar tão bem como eles. É isso que pretende dizer? Porque aqueles que deseja glorificar sem ter coragem para assumi-lo, tudo o que fazem é por bem. Desde a escravatura à hecatombe genocida que estão a praticar em Sirte neste preciso momento e noutras cidades Líbias tem justificação. Para não lhe relembrar o apoio financeiro, logistico e o arrastar do reconhecimento diplomático na ONU até meados dos anos 80 (tome nota escrevi ONU) aos Khmeres Vermelhos no Camboja por parte dos sacrossantos democratas, que só matam para libertar o mundo do mal.

    E fosse sacudir as orelhas para outro prado?

    http://www.youtube.com/watch?v=pZk2lDU1RWA&feature=related

  5. closer diz:

    Este texto é logicamente contraditório. Primeiro diz que o PCP foi a excepção na aprovação do voto de Congratulação pela libertação de Ingrid Betancourt. Depois afirma que o BE e o PEV votaram o seu texto. Então, o BE e o PEV apoiaram o texto do PCP ou apoiaram o texto dos outros partidos?

    • Bruno Carvalho diz:

      Contraditório onde? O que leu foi o que aconteceu. O PCP foi a excepção na aprovação do voto de Congratulação pela libertação de Ingrid Betancourt, todos os outros o aprovaram. O texto do PCP só foi aprovado pelo PEV e pelo BE. Ou seja, o PEV e o BE apoiaram ambos os textos. Contraditória foi a posição do PEV e do BE.

    • Miguel Lopes diz:

      Não há qualquer contradição como o Bruno já explicou.
      Acrescento eu que o voto do BE foi um acto de cobardia, uma cedência à chantagem moral da direita. Porque razão é que alguém se vai congratular com uma vitória militar do inimigo?
      Caso não tenha reparado, existe uma guerra na Colômbia.
      Era o que faltava que uma mulher que foi deputada do Partido Liberal, e que apoiou Ernesto Samper, não fosse um alvo político. A prisão de Ingrid Betancourt significou a possibilidade de libertação de muitos guerrilheiros presos. A sua libertação retirou às FARC-EP esse poder negocial.

      • closer diz:

        O voto do BE foi uma cobardia política. E o do PEV, Miguel Lopes?~

        Será que estamos em presença de uma grave fissura na CDU, ou as palas não o deixam ver mais longe?

        PS: Nem sequer comento a Ingrid como alvo político

        • Miguel Lopes diz:

          “E o do PEV, Miguel Lopes?”

          Também. Até alguns comentários de deputados do PCP foram infelizes.

          “Nem sequer comento a Ingrid como alvo político”

          Não comente, porque você não tem argumentos e leva logo um aviamento dialéctico que nem se levanta!
          Você é um cobardolas politicante que gosta de viver protegido nos falsos consensos que a burguesia impõe.
          Sim, a Ingrid foi e continua a ser um alvo político legítimo, que deve ser usado para libertar os companheiros presos por lutarem pela liberdade e pelo socialismo!!
          Na Colômbia há uma guerra. E aqueles que lutam pela liberdade e pelo socialismo sabem muito bem de que lado da barricada têm que estar: do lado das FARC-EP e do ELN!!!

  6. Nunes diz:

    Parabéns pelo artigo.

    Para os patetas, teus colegas, deste blog, envio este outro texto de Layla Anwar, uma iraquiana resistente que luta há anos contra o esquecimento e o branqueamento da guerra do Iraque que já fez cerca de 1,5 milhões de mortos (não só no Iraque, mas no Afeganistão, na Líbia – ainda se combate em Sirte…) O texto é a melhor resposta para alguns destes pseudo-esquerdistas que metem o video (com a sua melhor preferêcia musical) ou que anunciam entrevistas publicadas em jornais de direita, em vez de se dedicarem ao estudo e à investigação destes verdadeiros crimes contra a humanidade:

    «Of course, you are going to crash, you may stall it for a while but ultimately it’s inevitable…

    Nearly 3 TRILLION spent on the “war on Terror” and you don’t expect to crash ? You terrorize the whole world, and you don’t expect to crash ?

    Of course you will crash, and you will crash bad. Very bad.

    Honestly what did you expect ? Killing thousands of innocent people, families, women, children, elderly and getting away with it ?

    Absolving, redeeming, atoning with a bit of protest here and there, 10 years on, 20 years on…with a bit of hip hop, a rap song, a forum, a conference ?

    Why, are other’s people’s lives so cheap to be redeemed with a hip hop, a song, a forum, a conference, a petition ?

    Don’t rap your shit…I know your shit by heart…

    You are collectively guilty for the murder of thousands of Iraqis and Afghans…and today 100’s of Libyans and no amount of preaching, no amount of sermons, no amount of protest songs will obliterate that fact.

    You need to own up, call things by their names, get outside and over yourselves…and realize that the drug you inject daily…has taken many downhill, has crashed many…and you are standing right there at the end of the queue, at the end of the line…another Troy Davis, another sheep taken to his execution.

    Your crash is not my crash…but my crashing is yours.»

    Um abraço

  7. De diz:

    Um grande post
    Com a coragem e o desassombro de quem sabe que luta pelo que é justo
    E a fazer parecer (ainda ) mais mesquinhos,ainda (mais) néscios alguns “antónios”deste mundo
    Parabéns, como diz o Nunes
    E obrigado também a este, pelo seu elucidativo “comentário”

  8. Vasco diz:

    Belo texto. A Colômbia é o país onde há mais assassinatos políticos – nomeadamente sindicalistas e dirigentes associativos e indígenas. Sobre isso, evidentemente, nem uma palavra se ouve destes pretensos democratas e da média que os suporta. Uma vergonha.

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