Faltou mais Vitorino no concerto de Vitorino…

                A comemoração dos 35 anos de carreira de Vitorino fez-se com concertos nos Coliseus, com a presença de vários convidados pontuais e da Orquestra Sinfónica das Beiras, numa espécie de cruzamento entre a música popular e a música erudita. A principal crítica ao espectáculo de Lisboa (5 de Outubro) foi ter havido Vitorino a menos num momento de homenagem à sua extraordinária carreira. Estranho e confuso? Foi o que aconteceu…

                Depois de um compasso de espera devido a um problema com uma câmara da RTP (no contexto da futura transmissão televisiva do concerto), o espectáculo abriu com Semear salsa ao reguinho, tema título do primeiro disco do músico. Seguiu-se Poema, com um arranque lindíssimo só com voz e piano, antes da versão ser preenchida com os violinos e violoncelos da orquestra. Num concerto especial, Vitorino revelou-se bastante comunicativo, dando contexto a grande parte das canções. Foi assim que falou do potencial lírico dos portugueses, antes de Ana II, escrito por Lobo Antunes (nesta fase inicial, voltaria a ele no caricato Todos os homens são maricas quando estão com gripe), da sua vertente mais manhosa ou malandra ou de um tema dedicado à sobrinha Catarina, inspirado no universo de Walt Disney (Bárbara Rosinha).

                A presença da orquestra deu ao concerto uma toada interessante, mas por vezes demasiado grandiloquente, quando se pedia simplicidade. Isso foi particularmente notório no tradicional Passarada, dedicado ao Trio Odemira e deliciosamente identificado como impressionismo agro-pop. Mas nada que, de forma clara, diminua a magia do cantar alentejano, interpretado aqui por alguns dos seus mais ilustres embaixadores, não só Vitorino, mas também os seus irmãos Carlos e Janita Salomé. Com eles, iniciou-se o desfilar de convidados, que se prolongaria com o economista cantor Carlos Tavares, que teceu rasgados elogios às qualidades artísticas e humanas de Vitorino, e com Tim, numa versão de Traz outro amigo também. É sempre bom recordar Zeca Afonso, mas esta talvez não tenha sido a forma mais profunda de o fazer. Contudo, o pior estaria para vir… sem Vitorino em palco, Tim canta Voar e eis que chega o momento easy-listening e, arrisco dizer, embaraçoso da noite. Quase, quase nos antípodas da deslumbrante interpretação do assombroso Era um redondo vocábulo (também do Zeca), apenas com a enorme alma vocal de Janita Salomé (o delfim de Zeca Afonso, como revelou o irmão Vitorino) e com o piano de Filipe Raposo, o responsável por grande parte dos apurados arranjos. Janita cantaria ainda A estrela do vinho e esta belíssima homenagem ao néctar dos deuses fez todo o sentido, até porque foi com o líquido sagrado que Vitorino brindou com os vários convidados.

                Excluindo Janita Salomé (as carreiras são diferentes, mas há uma proximidade estética muito forte), o desfilar de figuras pelo palco trouxe um problema de coerência ao concerto, acentuado pelo facto de, em alguns casos, Vitorino se limitar a ser anfitrião, sem qualquer participação artística. Foi assim nos dois temas de Carminho, pese embora Fado a Deus (título provável), tema estreado no coliseu, ter a assinatura do músico alentejano. Para fechar a fase mais hibridamente morna do espectáculo, os duetos com Jorge Palma em A estrela do mar e O céu negro. A partir desse instante, Vitorino volta ao seu repertório e a noite ganha uma nova magia, com a voz do músico a mostrar-se tão encantadora como sempre. Há lugar para uma homenagem à república ou uma ode ao Alentejo e para alguns dos temas mais incontornáveis da respectiva carreira: o vira Tinta verde, Menina estás à janela (não, não houve participação de António Manuel Ribeiro, dos UHF) ou A queda do império, um dos mais maravilhosos temas escritos em português. Se há clichés bons, este será seguramente um deles.

                Para o encore, ficaram reservados o regresso a Lobo Antunes em Rua do Quelhas e, com todos os convidados em palco, uma altamente despropositada repetição de Menina estás à janela (?!), cerca de 10 a 15 minutos depois da primeira passagem pelo tema. Tentação simplista compensada pelo magnífico Vou-me embora, vou partir. E fica claro que, apesar da salutar diversidade na carreira de Vitorino, é nas incursões pelas origens alentejanas que estarão grande parte dos seus momentos mais sublimes. Após um forte aplauso, haveria ainda um aparentemente inesperado e improvisado segundo encore, com o regresso a Traz outro amigo também, a fechar uma comemoração agradável e justa. Contudo, uma carreira tão notável e importante, nomeadamente do ponto de vista da valorização musical portuguesa, merecia um final e um espectáculo globalmente mais coerentes e arrojados.

(texto originalmente publicado no site de música Ponto Alternativo)

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