Mudam-se os tempos, mudam-se os epítetos

Há coisa de 20 anos atrás, uma amigo cruzou-se, durante umas curtas férias na Madeira, com uma inauguração transformada em comício.

Contava ele que, enquanto A. J. Jardim discursava, um homem com aspecto modesto começara a gritar um qualquer protesto, que não conseguiu perceber bem..
O orador interrompeu-se e, apontando para o cidadão que lhe perturbava a performance, disse e repetiu: «Não queremos comunas aqui!…»
De imediato, um grupo de gente rodeou o homem, que levou uma valente carga de pancada e, ensanguentado, acabou por ser arrastado dali para fora, perante a impassibilidade de dois polícias que se encontravam no local.

Ontem, os epítetos a quem protesta passaram de «comuna» a «fascista», e a polícia impediu que um ex-candidato a Presidente da República levasse mais do que alguns pontapés.
Sinais de alguma mudança nos tempos, talvez.
Muitíssimo insuficiente, certamente.

Reparei entretanto que, sem sequer pensar conscientemente nisso, ao escolher entre bananas ainda meias verdes de não-se-de-onde e bem aspectadas bananas da Madeira, tenho vindo a trazer do supermercado as primeiras. Isto desde que foi conhecida a ocultação de contas públicas e a aparente simpatia local para com a justificação de AJJ, de que cometeu esse crime para esconder outro, a violação da lei de finanças regionais.

Se, depois disto e conforme prevêm as sondagens, os eleitores voltarem a dar a vitória a AJJ nas eleições regionais, passarei a fazer essas escolhas diárias de forma consciente e reflectida, alargando a minha recusa de compra a todos os produtos vindos da Madeira.

Um boicote com poucas consequências, bem sei.
Afinal, esta situação não é reproduzida e paga com bananas, mas com os nossos impostos e com a cobardia e cálculo eleitoral dos políticos do centrão continental.
Mas, simplesmente, não estou disposto a compactuar com esta obscenidade, no que dependa do meu limitado espaço de escolha e actuação.

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14 respostas a Mudam-se os tempos, mudam-se os epítetos

  1. O Rural diz:

    Cada banana madeirense que vemos no mercado é subsidiada, fica a cada cidadão, o peso em ouro dessa mesma banana.

    Fica tão cara como qualquer subsídio para um romeno ou brasileiro ou guineense do Marítimo ou do Nacional em passeios semanais entre o Funchal e o cont´nente.

    Mesmo os milhares de estudantes madeirenses bolseiros no cont´nente ficam em viagens aéreas subsidiadas semanais os olhos da cara a cada cidadão.

    Tudo na Madeira é subsidiado, para o povo se calar ao ver aquele esbanjar de túneis e viadutos e marinas que vai ser impossivel de manter no futuro.

    Foi como comprar uma casa linda com dinheiro emprestado e agora queremos paga-la e não temos dinheiro.

    Porra!!!!

  2. Pingback: O estalinista é o Mário, não o Tiago. Está na hora de fazer como na América! | cinco dias

  3. José diz:

    A esmagadora maioria dos produtores de bananas – ou de qualquer outro produto agrícola – na Madeira são micro ou mini produtores.
    São esses que está a castigar, não o governo regional madeirense, que é quem merece.

    • paulogranjo diz:

      Compreendo a sua preocupação.
      Mas, se votam nesta personagem, depois do que se passou e achando muito bem que ele o faça, não são vítimas colaterais inocentes. São cúmplices.

      • José diz:

        Tenha paciência, isso do castigo colectivo lembra-me sempre as retaliações da Gestapo, as migrações forçadas de nações inteiras pela NKVD, o boicote norte-americano a Cuba.
        O meu comentário terá de ficar por aqui, para manter alguma sobriedade.

        • paulogranjo diz:

          Não tenho que dar dinheiro – para além daquele que me tiram do salário e para lá mandam, sem que eu nada possa fazer relativamente a isso – a quem escolhe, racional e deliberadamente (veja a resposta ao comentário de M Silva), eternizar no poder esse senhor, os seus abusos e métodos, mesmo quando eles constituem ilegalidade e crime, como neste caso.
          Estão no direito democrático de fazer as suas escolhas.
          E eu no de não lhes encher os bolsos, mais do que já faço por via fiscal.

  4. Samuel diz:

    Essa das bananas… francamente!
    Tem computador “made in qualquer parte”… está a pactuar com que regime? Mais o automóvel, as não sei quantas merdas feitas não se sabe onde, recorrendo a trabalho infantil, ou semi escravo… etc., etc., etc…
    Boicotar as bananas?!

    • paulogranjo diz:

      Por poucas consequências e impacto irrelevante que tenha, importa para mim.
      Também não compro produtos de várias outras origens, sempre que há alternativas ou eles não me são totalmente imprescindíveis. Claro que por vezes me distraio ou não sei, mas é esse o princípio que sigo.
      Repare aliás que o boicote ao consumo não é propriamente uma mania de folvlore pós-moderno. Foi por diversas vezes convocado (sobretudo antes da queda do muro de Berlim) por partidos da área política onde, a julgar pelo seu blog, se insere.

  5. M Silva diz:

    Pior a emenda (uma versão académica de o povo é estúpido) que a banana.

    • paulogranjo diz:

      O “povo” não é estúpido.
      Pra lá da sua dependência de um poder tentacular, suponho que “ele” considera, de forma muito racional, que esta figura e forma de actuação são as que melhor defendem os seus interesses, e que os meios e tácticas empregues (incluindo nesta recente pouca-vergonha) são aceitáveis e eficazes.
      Está, obviamente, no seu direito.
      Tal como eu estou no direito de não querer nada com “ele”, lá por ser “povo”.
      Também foi o “povo”, neste caso alemão, que elegeu o Hitler (tendo o homem dito ao que vinha), pilhou e deixou chacinar os seus compatriotas judeus e marchou empenhadamente à conquista da Europa. Lá por ser “povo”, dever-me-ia solidarizar com eles?

  6. Dédé diz:

    O Paulo Granjo lá bem no fundo é um daqueles cidadãos de que nos falam os economistas neo liberais, cuja forma preferencial de intervenção na sociedade se expressa nas escolhas que faz no mercado, no caso do das bananas.

    • paulogranjo diz:

      You wish… E eles também.
      Mas isso também é uma forma de intervenção política e cívica, para além da participação na acção e reflexão ou, no seu caso, das boquinhas pseudo-inteligentes nas caixas de comentários dos blogs alheios.

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