Coitada da Heidi

O Auden tem uns versos em que zurze nas montanhas, e eu dei-lhe razão entre duas curvas, a tentar não olhar para fora da janela, na subida para o Santuário de Nossa Senhora da Peneda. Tínhamos conseguido evitar a Mata da Albergaria, um sítio onde ao meio-dia parecem seis da tarde (hora de Inverno), por causa da minha topofobia crónica ao Baixo Gerês, e agora ali estava eu pronta a rever a tese de que não sofro de vertigens, defendida pelos mais ilustres especialistas em mim. Ao volante, curva-e-contracurva, a minha irmã apita mais que o padeiro. Manadas de cavalos selvagens pastam nos buracos do asfalto. Do meu lado, escarpas a pique. Vamos a 10 Km/h, mas eu respiro mal. Olaré-laré-li-hoo. 

No café Paris, no flanco do santuário, as coisas melhoram marginalmente. Respira-se autenticidade bucólica. Lá dentro joga o Benfica. Cá fora, portugueses de férias prometem “fessées” aos filhos. Penso em chamar os helicópteros da Air Rescue, mas os telemóveis não funcionam. O chão ainda me treme debaixo dos pés. O campo, quando lhe dá para crescer em altura, é horrível.

Nada que o meu irmão não soubesse já. Esse intrépido ciclista teve um dia de atravessar o parque nacional no Inverno, a regressar de Santiago de Compostela com mais dois camaradas, e pôde constatar o óbvio: civilização nem vê-la, nem um tasco aberto. Sem víveres nem esperança, a bater o dente em cima da bicicleta, foi grande o júbilo dos três quando detectaram sinais de vida num rés-do-chão transformado em boteco, janelinhas de alumínio cravadas na pedra, na melhor arquitectura vernácula. O acesso à lareira está impedido por três velhos criofóbicos. Não se vê um boi. “Boas”. Um dos bravos do pelotão, bom rapaz mas nado e criado em meio urbano, com todas as limitações geo-políticas que isso acarreta, toma a palavra. “Era um croissant misto prensado, sem manteiga, e meia de leite directa, se faz favor”. “Branco ou tinto?”, pergunta o proprietário. “Cheio”, cede o mais razoável dos três.

Recordemos Auden: “Para uma criatura que não é felina e se transviou, cinco minutos mesmo na mais bela das montanhas é tempo demais”.

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