Os donos dos bastões

Tenho 29 anos. Não vivi a repressão fascista e era muito pequeno para perceber quem eram aquelas mulheres e homens que fugiam dos bastões na Marinha Grande e na Ponte 25 de Abril. Tampouco era grande para compreender que os donos dos bastões não eram os que os usavam. Quando brincava na rua, em noites quentes como esta, com os netos do canalizador do rés-do-chão esquerdo, com o filho do mecânico do rés-do-chão direito e com a neta do operário do primeiro esquerdo – que mais tarde vim a descobrir ser militante comunista – não desconfiava que o mundo estava dividido ao meio. Só mais tarde, quando aderi à Juventude Comunista Portuguesa, pude organizar e dar sentido às memórias de criança. Aí, tudo me pareceu claro.

Aquelas noites pareciam-me pacíficas como a muitos lhes parece pacífica a noite de hoje. Nunca pensei muito nisso mas teria medo se alguém me dissesse que tinha de abandonar os meus jogos nocturnos porque uma turba ia lançar o caos. Nessa época, como hoje, os únicos que afogavam a vida dos meus vizinhos na desordem eram os protagonistas das privatizações das fábricas da Amadora. Mas eu ainda não tinha idade para perceber que esses eram os verdadeiros donos dos bastões que caíam sobre as costas de quem protestava.

Anos mais tarde, dentro da claridade que me deu a participação organizada na luta junto dos trabalhadores, pude resistir ao lado dos operários da ex-Sorefame e da MB Pereira da Costa. Num caso como noutro vi como mulheres e homens, iguais aos da Marinha Grande e da Ponte 25 de Abril, recebiam bastonadas da polícia. Vi como o patrão contratou homens armados de paus, soqueiras e pistola para abrirem caminho à força durante a madrugada. Vi como nos tentaram arrancar do chão quando decidimos bloquear a saída do estaleiro e vi como esperaram pela saída das televisões para carregar sobre quem protestava. À hora de jantar, a verdade que saía da boca do pivot do telejornal nada tinha a ver com o que tinha acontecido.

Mas podemos recuar ao último ano. Militantes da JCP foram detidas e despidas na esquadra por pintarem um mural. Na greve geral, carregaram sobre os trabalhadores dos CTT. Durante a Cimeira da NATO, agentes das forças especiais sequestraram um dirigente sindical que fazia uma chamada junto a um hotel de Lisboa. Em frente a São Bento, a polícia bateu em trabalhadores que se manifestavam e deteve dois sindicalistas. Um simples artigo não chegaria para denunciar todas as situações vivida por muitos durante esta década. Havia que elaborar um relatório de todas as acções que os governos PS, PSD e CDS, através das forças de segurança, levaram a cabo contra os trabalhadores e as populações. Desde a simples identificação para amedrontar quem distribui um panfleto à porta de uma empresa, à carga policial contra quem protesta de forma pacífica. Mas também havia que incluir a violência patronal como a do empresário que atropelou uma grevista na última paralisação geral. Ou a dos que sequestram os trabalhadores. Por isso, desengane-se quem acha que esta noite é pacífica. Os que nos vigiam e nos controlam não o fazem para que não haja violência. Fazem-no para que sejam eles os únicos a usa-la. Para que continuem a ser os donos dos bastões.

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44 respostas a Os donos dos bastões

  1. lp1917 diz:

    Contra o Capital e o seu Monopólio da Violência,
    Golpe a Golpe, Resistir É Vencer!

  2. De diz:

    Um excelente texto!

    E sabes?
    Como que continua o de Sassmine.

    Um abraço a ambos

  3. garrell diz:

    Não esquecer quando na manifestação da NATO a polícia cercou manifestantes pacíficos. Com a conivência do PCP.

    Impressionante como este relato consegue só referir situações ligadas ao PC e deixa de fora inúmeras outras situações bem mais graves e assiduas do que as que fala.

    • Bruno Carvalho diz:

      Eu relatei as que presenciei e as que mais me chocaram. Não vou entrar na competição infantil de quem sofreu mais ou menos. Esse trabalho sujo deixo-te a ti e à polícia. Em relação ao PCP, não houve conivência. Houve o oportunismo de quem se quis colar a uma manifestação depois de ter marcado uma própria. O que as organizações que estavam na manifestação convocada pelo Paz Sim! NATO não! fizeram foi separar as duas partes.

      • subcarvalho diz:

        “…foi separar as duas partes.”
        e não é isso mesmo que os donos dos bastões fazem constantemente??

        • Bruno Carvalho diz:

          Meu caro, quem começou por separar as duas partes foram os que decidiram convocar uma manifestação com uma outra organização reclamando ter uma perspectiva diferente do assunto. Depois, de forma oportunista decidiram que a queriam fazer no mesmo sítio e, pasme-se, queriam faze-la em conjunto com a organização com a qual discordavam! Foi para assegurar que se cumpriam os vossos desejos de separação que a ‘Paz sim! NATO não!’ abriu espaço para que não se confundissem os dois protestos.

          • pagan diz:

            tudo o que acabaste de dizer é mentira!

          • Bruno Carvalho diz:

            então espero pelos argumentos que o provam.

          • Augusto diz:

            Há muito tempo que as policias vigiam dirigentes sindicais, politicos, e cidadãos mais activos na intervenção politica.

            Ontem como hoje há telefones sobre escuta.

            Temos zonas das cidades, transportes publicos, centros comerciais, onde somos vigiados por camaras de televisão.

            A democracia que temos hoje, é uma democracia vigiada, e quer queiramos quer não, adaptámo-nos sem grande contestação, e isso é que é preocupante.

            E já agora caro Bruno Carvalho, porque é que o seu partido o PCP, não exigiu a demissão dos agentes da PSP , que actuaram de forma brutal contra os jevens da JCP, foi para não indisporem os seus amigos do sindicato da policia?

            Quanto a Manif da Nato quem lá esteve , viu gorilas da policia, irmanados com gorilas do serviço de ordem, e NÂO GOSTOU.

          • Bruno Carvalho diz:

            Mas quem é que lhe disse que a JCP não actuou contra o que aconteceu com os seus membros? Que estúpida insinuação é essa?

            Eu defendo que os manifestantes devem organizar a sua própria segurança e, nesse sentido, concordo com que a estrutura que convocou a manifestação tivesse um grupo com esse objectivo. Se ajudaram a separar as duas manifestações, fizeram bem. Afinal, se eram duas manifestações distintas era justo que não se confundissem.

          • Augusto diz:

            Não é insinuação caro Bruno Carvalho, é AFIRMAÇÂO.

            Diga-me onde é que está escrito que a JCP EXIGIU a demissão dos policias que atentaram contra o pudor das jovens da JCP, e que agrediam e prenderam outros jovens da organização.

            Protestos sem consequência só para marcar ponto não servem.

            Era no Parlamento em nome do PCP, e em defesa das liberdades , que deveria ter sido EXIGIDA a demissão dos agentes envolvidos nesse atentado á Liberdade.

          • Bruno Carvalho diz:

            Augusto, faça barulho à vontade. Acho piada como para alguns que por aqui passam os comunistas são sempre culpados. Ou culpados de serem brandos, ou culpados de serem radicais, ou culpados até, imagine-se, mesmo quando são vítimas. Este artigo teve o objectivo de mostrar que até agora os únicos que têm usado a violência são a burguesia e o seu governo. Mas, pelos vistos, o artigo atraiu toda a espécie de traumatizados anti-PCP que vêm aqui escoar o seu ódio.

          • Augusto diz:

            O Bruno da Carvalho não gosta de contraditório,mas o que quer , é esta coisa chata que se chama democracia…..

            Mas nada me move contra o PCP, agora não deixo de criticar, o que acho, serem atitude erradas.

            Por exemplo o sr. Figueira ter aceite o tacho do Relvas.

            Ou o Mario Nogueira estar hoje ao lado do Alberto João Jardim , na inauguração das novas instalações do sindicato dos professores local.

            Há presenças e tachos que são ferretes , nada os consegue apagar.

          • De diz:

            Assisto um pouco incrédulo a comentários ressabiados em volta de um assunto que parece nem sequer ter pés para andar.
            Assisto ao comentário lúcido de Bruno Carvalho quando chama a atenção para o ridículo que é alguns se ocuparem exclusivamente com o seu umbigo,”esquecendo-se” do tema do post.Ao que parece é bom olvidar que”os únicos que têm usado a violência são a burguesia e o seu governo”.

            Vem agora Augusto reclamar pelo direito ao contraditório.
            E cita o caso do António Figueira.Com toda a legitimidade, diga-se.Mas com toda a legitimidade se diz também que esse assunto já está requentado.Já foi aqui debatido.Mas mais importante ainda,já foi negado pelo próprio que pertença ao PCP.
            Para quê alimentar uma polémica que,no caso da acusação em causa, é falsa?
            Mas há mais,segundo a fonte Augusto.
            Mário Nogueira,este sim militante ao que parece do PCP,esteve presente hoje ao lado de Jardim na inauguração da sede do sindicado local.
            Citemos a imprensa:”O líder madeirense proferiu estas declarações na inauguração da nova sede do Sindicato dos Professores da Madeira (SPM) no Funchal, que representou um investimento na ordem dos 3,8 milhões de euros, uma cerimónia que estava agendada para o Dia Mundial do Professor mesmo antes de terem sido marcadas as eleições legislativas regionais, que contou com a presença do coordenador-geral da FENPROF, Mário Nogueira.”
            Hoje,5 de Outubro é o dia mundial do professor
            Curiosamente vi esta notícia ser notícia e comentada da forma como Augusto a comenta, em tudo o que é blog das viúvas de Socrates e nalguns blogs de trogloditas pro-governo que criticavam as críticas de Jardim ao seu amado ministro,o Crato ( e que, entusiasmados com a presença de Nogueira,encontravam aí o vértice perfeito para o ataque a quem ataque o Crato).Até num blog acerrimamente pró-estado pária de Israel se escutaram coisas semelhantes
            As coisas são o que são

            O que sobra de tudo isto vale a pena?
            As mesquinhices que sobem à tona merecem perder-se tempo com elas?

            Vamos mas é ao que interessa

          • subcarvalho diz:

            Meu caro,
            não estará, porventura, à espera que lhe redija neste espaço aquilo que foi resultado de meses de trabalho e procura de conciliação de posições.
            A diferença entre as 2 plataformas é que a “paz sim, nato não” tinha, objectivamente, uma agenda política ligada a um partido português.
            Ora este partido lida muito mal com a descentralização do pensar e agir. Não controlando, como é seu hábito, todos os intervenientes, faz destes o principal inimigo. (sei bem do que falo. fui dirigente da sua juventude durante uma década).
            Não foi por acaso que certos dirigentes responsáveis por esta plataforma chegaram ao ponto de “conferenciarem” com a polícia para a identificação dos perigosos membros da pagan e outros colectivos a ela associados, facto demonstrado em plena Av. da Liberdade.
            Mas isto é assunto que o Bruno conhece perfeitamente. Está simplesmente a fazer-se de desentendido… forma pouco séria de se discutirem as coisas.

          • lourenço monteiro diz:

            a_miseria_da_esquerda_que_anda_por_ai.__um_case_study_a_cimeira_da_nato.pdf

          • Vasco diz:

            Mas eu bem os ouvi nas vésperas da manifestação de 20 de Novembro, quando era já claro que só a tal manifestação «partidarizada» e «fechada» tinha condições (leia-se GENTE) para avançar, a elogiá-la e a garantir a sua presença… Fomos 30 mil naquela tarde. Comunistas, sim, muitos. E milhares de outros sem partido unidos pela rejeição à NATO e à subserviência do governo português a essa aliança agressiva…

          • Vasco diz:

            Caro «Augusto» se esteve lá e não gostou, o problema é seu, certamente mais preocupado em ter acções pequeninas e muito vanguardistas do que imensas acções de massas. Mas não fale por todos. Aqueles 30 mil que lá estiveram gostaram da manifestação que fizeram – e, deixe-me que lhe diga, também conheço muitos que não gostaram do aproveitamento rasca que fizeram certas organizações e movimentinhos procuraram fazer daquela manifestação. Disso, sim, garanto-lhe que não gostei. Queriam fazer outra? Fizessem-na! Ah, não tinham gente? Isso já não é problema meu…

    • De diz:

      Porque motivo há “coisas” assim?
      Um testemunho pessoal transformado em alvo para todos os demónios saídos da cabeça de mais um contabilista de meia-tigela?

      O que sobra não parece ser muito digno.
      e quanta inveja….quanta…

  4. Pascoal diz:

    Qual das tais “duas” manifestações levava o ® ?

    • Bruno Carvalho diz:

      Pascoal, foi ou não oportunista marcar uma manifestação para onde já estava uma marcada por outra organização?

  5. O Rural diz:

    mas que desgraça foi aquela porra antigamente

  6. orlando diz:

    Um bom texto sem duvida.
    Estou farto de me interrogar porque é que o BE ( e isto sem sectarismos) continua a desfilar nas manifestações sindicais, fora das mesmas, não entendo porque levam os cartazes com as suas palavras de ordem. Mas as manifestações sindicais são para partidarizar ????? Porra para a próxima levo a bandeira do meu partido. Desculpem mas assim com este tipo de sectarismo não vão lá, querem ser diferentes MARQUEM AS VOSSAS MANIFESTAÇÕES POLITICAS, façam desfiles, comícios, etc, mas não tentem anexar uma coisa que se pretende a partidária.

  7. Augusto diz:

    A presença de Mario Nogueira ao lado de Alberto João Jardim em plena campanha eleitoral na Madeira, merece todo o repúdio.

    Se como diz , as tais viúvas de Socrates comentam o facto, é para o lado que eu durmo melhor.

    Há cidadáos , neste caso o militante do PCP Mario Nogueira, que se põe a jeito para levar porrada, é a vida….

    • De diz:

      É a vida?

      Ainda não terá reparado Augusto que as suas intervenções parecem isso mesmo?
      Fazer parte da vida dos que dormem bem,enquanto mais não fazem do que “questiuncular”?
      E dormem para o lado melhor
      Ah,o umbigo é tão grande que nem se apercebe que assim só se afastam as pessoas?

      E nem se apercebem do ridículo e da pequena “caceteirice” com que complementam os comentários?

  8. José diz:

    Bruno, o Estado tem essa bizarria de querer ter o monopólio da violência. Qualquer Estado. Capitalista ou socialista.
    A diferença é que, nas democracias ocidentais, os abusos policiais podem ser denunciados e – embora não seja fácil – até punidos. Nos outros Estados… é o que se sabe.
    Daí ter curiosidade -e nada mais do que isso – de saber se houve apresentação de queixa pelos jovens do caso do mural da JCP e o resultado da mesma.
    É que sempre achei que limitar-mo-nos a protestar não é suficiente para a defesa dos direitos pessoais e políticos.

  9. De diz:

    Retoma-se o tema à conversa
    Um testemunho pessoal e directo,frontal,acusador,sem tibiezas,é assaltado por vagas

    As primeiras provenientes de questiunculas tontas,sem sentido,misturadas com oportunismos organizativos e estereis
    Outras vagas repescando o percurso pessoal e político de outrém,como se isso constituísse o álibi perfeito para certas atitudes ou comentários menos felizes.Quando esvaziados, refugiam-se no leito e dormem para o lado onde o fazem melhor
    Outros ainda,qual inquisidores-mor assentam baterias em pedidos de informação

    Bizarrias com que o império tece
    outros valores mais altos de se elevarem

  10. Vasco diz:

    Ó Bruno, estás a ser injusto. Estiveram dez tipos pintados na expo, na tal «outra manifestação». E nós éramos 30 mil a descer a Avenida da Liberdade… Excelente texto! Muito bom mesmo. E não te surpreendas com os anti-pcpistas militantes. É o que eles fazem da vida… Do outro lado do mundo e da luta de classes, conscientes disso ou não…

    • subcarvalho diz:

      Por acaso estiveram mais de 10 tipos pintados na expo. Mais umas dezenas a bloquearem as vias de trânsito. Resultaram em 42 detidos. Detidos esses que ultrapassarem largamente o número de horas legalmente aceite para detenção sem acusação. Mas isso, o grande pcp nada disse…afinal eram dos “outros”.
      E é engraçado que essa meia-dúzia contribuiu mais para desmascarar os capangas da Nato que os 30 mil (?????) na Avenida da Liberdade. As imagens da acção correram mundo.
      É interessante perceber a distinção que esta gente faz…”E nós éramos 30 mil a descer a Avenida da Liberdade…
      Com este tipo de comentário sectário e básico intelectualmente só me apraz dizer: Se pensas que pensas, pensas mal! Quem pensa por ti é o comité central!

      • Bruno Carvalho diz:

        É devem ter sido os mesmos que atacaram um Centro de Trabalho do PCP e que depois vieram chorar porque não os deixavam entrar na manifestação da CGTP. Ou os mesmos que passam a vida a falar de autoritarismo e de colaboração com o capitalismo sobre a CGTP mas depois vêm a correr querer participar nas suas manifestações. Como dizia o Neruda, infelizmente, os comunistas têm as costas muito largas onde cabe tudo.

        • subcarvalho diz:

          Bruno,
          tenho-o em bastante consideração pois leio atentamente os seus posts, concordando inclusivé com muitos deles, caso dos posts sobre o País Basco.
          Mas este seu comentário é basicamente para deitar ao lixo.
          Só para colcoar alguma verdade relativamente à manif de 20 de novembro, especialmente para um tal de Vasco, podem consultar o blog da PAGAN http://antinatoportugal.wordpress.com/ para verem em que data foi publicado o apelo para a manif unitária.
          Quanto ao resto, “É devem ter sido os mesmos que atacaram um Centro de Trabalho do PCP e que depois vieram chorar porque não os deixavam entrar na manifestação da CGTP.”…muito deles são gente que há bem pouco tempo o Bruno aqui defendeu, e muito bem, aquando do despejo do KukutzaIII. Pois é, alguns dos que se pintaram de vermelho e bloquearam a rua vieram daí mesmo.
          Portanto, não querendo discutir o assunto seriamente mais vale não responder do que criar comentários deste calibre.

          Cumprimentos,
          subcarvalho

          • Bruno Carvalho diz:

            Eu não defendo quem ataca sedes de partidos comunistas. Quanto ao Kukutza, eu estou ao lado daqueles que defendem aquele projecto. Nesse projecto, haverá gente de distintas sensibilidades políticas: comunistas e anarquistas, independentistas e não independentistas. Mas, fundamentalmente, trata-se de uma conquista da população de Errekalde. Portanto, não queira insinuar que defendo anarquistas só porque defendi o Kukutza. Aliás, a experiência do Kukutza nada tem a ver com a experiência que conheço de espaços auto-gestionados em Portugal. Nesse aspecto, salvo raríssimas excepções, o nosso país dá vergonha. É que no País Basco a ocupação é um movimento que alastrou nos anos 80 com o apoio e a participação de toda a população. E isso deveu-se, principalmente, ao trabalho da esquerda independentista basca. Lá, os anarquistas não só não se atrevem a atacar sedes da esquerda independentista como não se atrevem a questionar, publicamente, as reivindicações patrióticas que estão bem à vista na maioria dos gaztetxes (centros juvenis ocupados bascos). Aliás, desde que vi a vergonha que foi a Zarabatana, em Queluz, percebi o quão miserável pode ser uma okupa em Portugal. Desde terem abandonado a casa a troco de dinheiro a terem recebido a amizade nazi depois de denunciarem um polícia infiltrado que os estava a investigar.

            Não estou aqui a dizer que a PAGAN era composta por anarquistas. Era também mas não só. Contudo, quem ataca sedes do PCP e anda a gritar que o povo unido não precisa de partido não merece palmadinhas nas costas. Merece outras coisas. Mas não me vou alongar. A conversa fica por aqui.

        • Vasco diz:

          Eu por acaso até tenho umas belas costas, reconheço. E acho fantástico o questionamento feito dos números da manifestação da Avenida: vejam lá isto: http://www.pazsimnatonao.org/2010/11/22/enchemos-a-avenida-da-liberdade-fotos/

          Há um problema, aqui. Eram muitos milhares, como as fotos mostram. Todos comunistas? Eh pá, não, não podemos dizer isso, senão damos força aos gajos… Não eram todos comunistas? Então não é uma manifestação sectária e fechada, como andámos para aí a dizer… Ups…

          Aberta e arejada foi a outra, claro. Poucos mais muito bons, né?

          • subcarvalho diz:

            Vasco,
            discuta lá sozinho, faça as perguntas e escreva as respostas…atire os foguetes, apanhe as canas e bata palmas.
            Não há pachorra para discutir consigo.

    • Vasco diz:

      Começa bem, o artigo, ao procurar analisar os «aspectos de ordem histórica» para justificar uma suposta «fraca consciência antiimperial e anti-militarista». Mas então e os milhares de pessoas que participaram na manifestação – mais do que em muitas outras manifestações «semelhantes» por esse mundo fora? – não contam para nada? Um pouco esquemático, diria eu…

  11. De diz:

    Lastimo dizer mas um texto (programático ?) paupérrimo.
    Com direito a ver a luz do dia,claro está
    Apesar de mais de metade dos links apresentados não “abrir”

    O que demonstra também que há algo de bolorento nisto tudo
    Posições tomadas por alguns,que não afectam nem beliscam nada do que se propõem combater.
    Por isso também não merecem mais do que isto.Uma espécie de lavagem de roupa um pouco suja,sem mais interesse do que a auto-contemplação.E claramente destinadas mais a morder quem está na linha da frente do que a contestar quem quer que seja
    Faz lembrar, com as devidas distâncias claro, os mesmos” indícios revolucionários” de coisas como Durão Barroso,José Manuel Fernandes e outros que tais.Assombra a semelhança entre alguns dos textos
    A vida de facto ensina-nos muito.

    Bora lá que se faz tarde…A luta continua

  12. subcarvalho diz:

    O Bruno deve conhecer mal o movimento okupa português. Ou então ficou-se pelo pior exemplo, exemplo esse condenado por quase todo o movimento okupa.
    Mas posso-lhe dar vários exemplos, como a c.o.s.a., em setúbal, que festeja agora 11 anos de vida, ou então o espaço casaviva http://casa-viva.blogspot.com/ que sai um pouco da okupa tradicional, ou então a recente ocupação, agora meia oficial, que é a es.col.a da fontinha http://escoladafontinha.blogspot.com/
    Não me viu aqui a defender a destruição de sedes de partidos. Nem foi esse o assunto aqui discutido. O Bruno usou esse argumento para culpabilizar e criminalizar todas as que estavam na PAGAN. Eu limitei-me a dizer-lhe que esteve aqui gente da Kukutza, anarquistas assumidos, e que, certamente, não andaram a destruir sedes nenhumas.
    Quanto ao grito do povo unido não precisar de partido, não vejo onde é que ela pode ferir assim tanto as sensibilidades. Eu também acredito nisso. Acredito numa organização popular que não necessita de partidos nenhuns…e não me venham com o chavão de que o fascismo defendia isso…existia aí um partido único.
    Também não gosto de palmadinhas nas costinhas…

    • Bruno Carvalho diz:

      Conheço o suficiente para saber que não tem qualquer enraizamento popular nos sítios onde existe. O dois últimos exemplos que me deu, da Casa Viva e o Escola da Fontinha, parecem-me ser bons projectos. Além de um outro, na Amadora, que tinha apoio popular e do qual os seus amigos nunca falam porque se aproximava mais do modelo basco e não dos maus modelos que vamos tendo por aqui.

      Sobre o assunto aqui discutido, não tem qualquer moral para falar. Aliás, até agora, a maioria tem-se limitado a atacar o PCP e não a discutir o conteúdo do post. Em relação à gente do kukutza a que se refere espero não serem os mesmos que conheço e que eram tudo menos anarquistas. Aliás, até iam com bandeiras a favor dos presos políticos bascos e com uma faixa em papel bem patriótica. E se ali havia anarquistas bascos bem-vindos sejam e que não fiquem desiludidos com os maus exemplos dos seus congéneres portugueses.

      Eu respeito quem ache que o povo unido não precisa de partido desde que esses respeitem aqueles que acham que o povo unido precisa de partido. Coisa que não acontece. E, por isso, não podem choramingar com os “gorilas” porque são autoritários depois de atacarem sedes do PCP e a Voz do Operário e passarem a vida a falar mal da CGTP.

  13. diz que diz:

    Alguém me poderia esclarecer que história é essa do ataque a uma sede do pcp? a malta aqui não vai às reuniões e não sabe de nada disso

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