Bilbau a ferro e fogo


Depois das cargas policiais sobre os manifestantes, na quarta e quinta, as forças de segurança espalharam, ontem, o terror pelas ruas e avenidas de Bilbau. Várias centenas de polícias foram destacadas para bloquear todas as entradas do bairro de Rekalde, onde se situa o gaztetxe juvenil Kukutza. Carrinhas do corpo de intervenção da Ertzaintza escoltavam a escavadora que tinha o objectivo de demolir o edifício. Tiveram de abrir passo entre dezenas de contentores do lixo atravessados pelas ruas e para impedir o avanço dos manifestantes não hesitaram em disparar balas de borracha a todo aquele que se mexesse. Aterrorizados, os habitantes de Rekalde assistiram atónitos aos disparos contra janelas e varandas. À entrada da polícia em lojas e cafés para espancar os que ali estavam e ao assalto ao Centro de Saúde, onde os agentes levaram todos os relatórios médicos dos feridos. Sem qualquer pudor, entraram nos prédios e atacaram a população. À noite, deixaram o bairro às escuras.

A situação assumiu proporções tão absurdas que tiveram de mobilizar polícias que estavam de férias. As entradas pela auto-estrada estiveram sob controlo e viram-se cargas policiais dentro de estações de metro. A meio da tarde, suspendeu-se o serviço de autocarros em Rekalde e, à noite, em toda a cidade. Milhares de manifestantes que se dirigiam para a concentração marcada para as 20:00, tomados pela revolta do que havia passado durante a tarde, dirigiram-se para a Câmara Municipal de Bilbau. Aí esperava-os destacamentos da polícia municipal e da Ertzaintza. As cargas sucederam-se e a população explodiu de raiva. Às 22:00, havia batalhas em quase toda a cidade. Levantaram-se barricadas, resistiu-se à polícia como se pôde. Até ao momento desconhecem-se os números exactos mas há, no mínimo, 30 detidos e mais de meia centena de feridos. Um deles é uma criança que foi alvo de uma bala de borracha.

Este episódio que teria lugar em qualquer televisão do mundo, se isto alguma vez tivesse passado no Irão, na Síria ou na Venezuela, não foi noticiado. Foi graças às rádios piratas que, durante todo o dia, os bascos se foram informando do que estava a acontecer em Bilbau. Através delas puderam saber por onde deviam fugir, em que ruas havia polícia e, até, matrículas de carros de agentes à civil. Esta provocação das forças repressivas da autarquia, do governo autonómico e do governo central não tem outro objectivo que o de minar o processo de paz em construção. O crescimento da luta de massas, o sucesso da esquerda independentista basca nas eleições municipais e as sondagens para as eleições legislativas de 20 de Novembro assustam muita gente.

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8 respostas a Bilbau a ferro e fogo

  1. Excelente artigo, obrigado!

  2. Carlos Carapeto diz:

    Obrigado por dar a conhecer a verdade que nos pretendem negar.

  3. José diz:

    http://www.eitb.com/es/noticias/
    A EITB é dos media mais desconhecidos no Pais Basco… enfim, cada um vê o que quer ver…

    • Bruno Carvalho diz:

      O José insiste, insiste e insiste. Ainda não percebeu que aqui estamos do lado dos oprimidos e não dos opressores? A EITB passou muito pouco do que se estava a passar e sempre que o fez foi dizendo que o caos fora gerado por desordeiros e não pela polícia. Basta referir que quando o PSOE subiu ao poder limpou a maioria dos independentistas que trabalhavam naquela emissora.

  4. José diz:

    “Este episódio que teria lugar em qualquer televisão do mundo, se isto alguma vez tivesse passado no Irão, na Síria ou na Venezuela, não foi noticiado. Foi graças às rádios piratas que, durante todo o dia, os bascos se foram informando do que estava a acontecer em Bilbau”

    Insisto? Acho que sim, insisto.

  5. Zuruspa diz:

    Obrigado pela postagem. Mais uma vez, a bófia contra o povo.

    O que näo agradeço é a traduçäo de “gaztetxe”, “Kukutza”, “Ertzaintza”.
    Fiquei a saber o mesmo.

    Já agora, se gostam tanto de escrever em basco, escrevam Bilbo.

    Quando é que algo parecido acontecerá em Madrid?

  6. V Cabral diz:

    Em Bilbao, como em Lisboa, não é o Povo que ordena. É uma democracia, enquanto eles tiverem a certeza, que o voto do Povo, não muda coisa alguma.
    Entretanto podemos ir votando. Entretanto não é proibido votar.
    No País Basco não é possível votar num Partido que tolere a ETA. Porquê ?!

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