Eu não sou bonito, não sou rico e não escrevo assim tão bem

Portugal está à venda. Passos Coelho foi a Paris e, sorridente, explicou que gostaria que a França investisse no mercado nacional. Isto é, que comprasse parte das empresas públicas que vão ser privatizadas. Também o Brasil mostrou o seu interesse. Sorridente, Lula da Silva, o homem que se orgulha de ter conseguido que o capitalismo funcionasse na pátria de Luís Carlos Prestes, destacou a possibilidade da compra da TAP. Os trabalhadores rejeitaram essa hipótese e foi o suficiente para que António Ribeiro Ferreira quisesse partir a espinha aos sindicatos.

Nesta fossa a céu aberto à beira-mar plantada, Paulo Macedo, o mercenário da saúde, antes administrador de um grupo privado ligado ao sector e agora ministro com essa pasta, nomeou um ex-gestor do BPN para estudar cortes no Serviço Nacional de Saúde. Exemplos de como este país perdeu a vergonha de apostar em corruptos e de apresenta-los como impolutos. Como nas autarquias. Com os anos, os sintomas foram-se agravando mas o bicho já lá estava. Avelino Ferreira Torres e Valentim Loureiro são da primeira geração. Suspeitos de colaboração com grupos bombistas de extrema-direita, fizeram escola ao longo de décadas em Marco de Canaveses e em Gondomar. Mas também há Isaltino Morais e Fátima Felgueiras para demonstrar que não é um problema de um partido mas de todos os partidos que representam os ricos de Portugal.

E a verdade é que ninguém se chateia muito. Ninguém se chateia com Dias Loureiro, Duarte Lima e José Oliveira e Costa, os protegidos de Cavaco Silva. Ninguém se chateia com Alberto João Jardim. Ninguém se chateia com os cursos acabados ao domingo. Ninguém se chateia com vedetas de futebol que financiam campanhas eleitorais a troco de favores. Ninguém se chateia com o primeiro-ministro que troca Lisboa por Bruxelas. Ninguém se chateia com o incompetente do Banco de Portugal que vai para o Banco Central Europeu. Ninguém se chateia com submarinos e com escândalos de pedofilia. Ninguém se chateia com aviões secretos que levam prisioneiros para campos de concentração. Ninguém se chateia com que a Leya destrua livros. E ninguém se chateia muito porque este é o nível moral do nosso país à entrada do século XXI.

Queixou-se, há dias, Cristiano Ronaldo de que os árbitros o perseguiam. A razão é simples: “Penso que por ser rico, bonito e um grande jogador as pessoas têm inveja de mim. Não encontro outra explicação”, explicou o jogador do Real Madrid. Este é o herói dos nossos dias. E que o nos levaram a querer ser podemos vê-lo todos os dias nos telejornais de duas horas, porque meia hora não chega para contar todo o ridículo em que nos transformaram. Desde a couve de dois metros ao voluntariado como forma de enfrentar a crise. Também podemo vê-lo nas telenovelas para adultos e para adolescentes. Nenhuma delas retrata o mundo dos adultos e o mundo dos adolescentes. Mas a grande novidade é a nova edição da Casa dos Segredos, um reality show, onde vi Cátia, uma concorrente, afirmar ser auxiliar de acção médica e rir-se enquanto descrevia o que se faz quando alguém morre. Ou a Nádia anunciar, sorridente, que traiu todos os seus namorados. Ou a Susana explicar a quantidade de silicone com que encheu os peitos. Curiosamente, há sempre alguém com pronúncia do interior para ser alvo de chacota. Um programa onde o papel da apresentadora é o de acirrar a intriga, a traição e a futilidade dos concorrentes.

Não me surpreende que os mestrados de gestão da Nova e da Católica estejam entre os melhores do mundo, para o Financial Times. Basta olhar à volta. O charlatanismo é um modo de vida para a maior parte dos gestores portugueses. A eficácia com que levam as empresas públicas à ruína para depois as levarem ao sucesso, quando privadas, assume contornos de casos de estudo. Nada mais se pode esperar desta sociedade em que vivemos. Os que nos dizem que é possível um capitalismo de rosto humano enganam-nos. Mais tarde ou mais cedo, o colapso do sistema económico terá de traduzir-se na construção de uma nova sociedade sobre as ruínas da anterior. Uma sociedade onde o culambismo, como lhe chamou o Miguel Esteves Cardoso, esteja ostracizado.

[Adenda: a este propósito parece-me importante chamar a atenção para o artigo de Manuel Gusmão no Militante.]

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28 respostas a Eu não sou bonito, não sou rico e não escrevo assim tão bem

  1. De diz:

    Um belíssimo texto

  2. a anarca diz:

    «Posso não concordar com nenhuma das palavras que você disser, mas defenderei até a morte o direito de você dizê-las.» -Voltaire

    Bt the way
    não ser bonito deve ser terrível 🙂

    • José diz:

      Muito bem! (o primeiro parágrafo, sobretudo)

    • rato zinger diz:

      Finalmente, a onra(não,não é erro,é só uma nova forma que torna a palavra vazia,só por ser dita) do dias loureiro e do oliveira costa foi resgatada num tribunal(de taberna,concerteza!).E o poder judicial é independente do poder económico feita à pala do roubo puro e duro.Louçã:a revolução,é só económica?

  3. RR diz:

    Num texto tão bom, tem sempre que haver uma nódoa, insignificante e sobre uma assunto hiper-insignificante!

    A frase do Bonitão Ricaço, foi proferida em resposta a uma pergunta que lhe fizeram, “porque é que é tão assobiado”, não por perseguição de árbitros. Mesmo não sendo em ironia, foi um bom escape, seu!

  4. Augusto diz:

    E a Madeira do Jardim-Ramos e companhia.

    No texto , até encaixava bem um paragrafo , dedicado ao escandâlo das contas da Madeira.

    Mas nada!

    Será que está proibido de escrever sobre o João Jardim…..

    Olhe que nem me admirava, perante algumas declarações que ouvi este fim de semana na Madeira, de um seu correlegionário…..

    • De diz:

      “Ninguém se chateia com Alberto João Jardim.”

      Para tentar inventar escolhos há que ao menos saber ler…
      pelo menos um mínimo

  5. JgMenos diz:

    ‘…este é o nível moral do nosso país à entrada do século XXI.’
    De facto, a moral burguesa foi eficazmente atacada pela hostes ditas revolucionárias.
    Segue-se a ‘modernidade’ que tudo relativiza e se diz rumo ao socialismo.
    O capitalismo impera e está para continuar; mas falta-lhe o freio da moral burguesa; e a esquerda só usa os meios que em tempo julgou que o destruiríam, e que hoje, por desacreditados, só servem para viabilizar que siga sem regras e sem moral, invocando oportunisticamente a legítima defesa.

  6. José diz:

    “Mais tarde ou mais cedo, o colapso do sistema económico terá de traduzir-se na construção de uma nova sociedade sobre as ruínas da anterior.”
    Já se tentou ir por essa via, recorda-se?
    Ao fim de mais de 70 anos a constuir o “homem novo”, este deixou cair a “nova sociedade” sem o menor queixume, o mais leve protesto, mas com algum gáudio.
    Outras vias?

    • A.Silva diz:

      José uma informação; já se tentou ir por essa via e continua-se a tentar!
      Sabes é que se o homem quando tem uma vontade, desistisse ao primeiro falhanço, ainda nem tinha inventado a roda, mas isso é uma coisa que os reaccionários/conservadores, ditos liberais, já não têm capacidade para perceber.

      • José diz:

        É verdade, A. Silva, mas persistir em vias já testadas e com os resultados que deram não parece particularmente inteligente.
        Daí a pergunta: outras vias?

        • rato zinger diz:

          Deves ter um coeficiente de inteligência nunca antes alcançado.Quanto é que ‘ganhas’,já agora?

        • rato zinger diz:

          Lembro-me de,na India,ter constatado a maravilha do capitalismo e do ‘trabalho’ do Gandi-uma merda e um constante cheiro a MERDA!!!Parabéns,podem limpar as mãos à parede!

  7. LAM diz:

    Parabéns, grande post.

  8. De diz:

    “…convém lembrar que a decomposição da ordem medieval foi muito prolongada e o aparecimento do capitalismo foi um processo que se estendeu ao longo de vários séculos. Hoje a história acelerou-se, mas isto não autoriza a pensar na iminência do derrube do capitalismo. Por isso, como observava correctamente Engels, é sempre necessário evitar converter a impaciência que se desprende da finitude das nossas biografias num argumento teórico. Não esqueçamos que o capitalismo se estabeleceu e triunfou depois de várias tentativas falhadas que duraram vários séculos: apareceu pela primeira vez nas cidades da Liga Hanseática até à sua decadência; renasceu mais tarde em Itália mas, sufocado mais uma vez, voltaria a ressurgir com êxito no Norte da Europa para, após séculos de duríssima sobrevivência, começar a expandir-se para todo o globo terrestre, num processo que se completaria perto dos finais do século vinte. Tendo em conta estas lições da história, por que haveria de supor-se que o socialismo e o comunismo teriam de impor-se na sua primeira tentativa histórica, datada em Outubro de 1917 na Rússia, e no prazo de uma ou duas gerações? Por que não pensar, ao invés, que estamos face a um processo de longa duração, que desde 1917 registou importantíssimos avanços – e alguns retrocessos catastróficos – devido aos quais a humanidade ainda hoje se encontra num ponto mais adiantado do que aquele que tinha em vésperas da Revolução Russa?” Entrevista a Atilio A. Boron
    (http://www.odiario.info/?p=359)

    …e não só

  9. Pedro Penilo diz:

    E assim precisamente se está. Mas há outros… [entre nós]

  10. Orlando diz:

    Simplesmente notável. Obrigado Bruno por esta análise situacionista. O país está de facto a saque desde 1975. Abraços

  11. Pingback: Madeira jardinista, nosso espelho « APEDE

  12. Vitor Ribeiro diz:

    A mais recente sondagem da Univ. Católica (e mesmo descontando o facto das sondagens ‘valerem aquilo que valem’) mostra bem (porque basta andar por aí para perceber que essa sondagem é mesmo representativa) que o povo tem aquilo que quer. Eu é que já estive mais longe de me pôr a mim próprio uns belos patins pois já começa a ser ‘tempo d’embalar a trouxa e zarpar’. Este país já fede.

  13. Xana diz:

    gramei à brava ler este post, é só o q te digo 🙂

  14. Pingback: um blogue que nunca desilude | O grande salto em frente

  15. Carlos Gomes diz:

    Concordo. Será que Marx tinha razão?

  16. Bom texto.
    Exceção à parte do “alguém com pronúncia do interior para ser alvo de chacota”. O Sr Bruno Carvalho acha que ter pronuncia do interior seja motivo para ser alvo de chacota? Já agora, o que é para si a definição de ter pronuncia do interior. Consegue identificar facilmente se uma pronuncia é do litoral ou do interior? Fantastico…

    • Bruno Carvalho diz:

      Obrigado, Helder. Esclareço que o objectivo não era o de dizer que quem tem pronúncia que não seja de Lisboa é motivo de chacota. Aliás, a uniformização da forma como nos expressamos em grande parte por culpa da televisão é um problema. O que quis denunciar foi a utilização de um elemento do programa que reunisse essas características para que fosse alvo de chacota.

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