Mais que uma biografia, a homenagem obrigatória a Aguardela

Foi apresentada esta semana a biografia de um dos mais icónicos e essenciais músicos nacionais das duas últimas décadas: o grande João Aguardela, que abalou desta vida prematuramente, com apenas 39 anos. Sempre com a música tradicional portuguesa em fundo, a obra atravessa as fases fundamentais da sua carreira: o lado mais eufórico e descontraído dos Sitiados (nunca os ouvi com a devida atenção, mas talvez com um percurso bem mais complexo do que um conhecimento superficial possa indiciar), as experiências electrónicas vanguardistas de Megafone e, finalmente, a fusão perfeita entre portugalidade e modernidade d’A Naifa, para mim o projecto musical mais incrível que estes 11 anos de século XXI viram nascer neste país.

A obra intitula-se “Esta vida de marinheiro. Dos Sitiados à Naifa, a rasgar a vida” e foi escrita pelo jornalista Ricardo Alexandre (Antena 1). Mas, mais do que uma obra jornalística, trata-se do retrato sentido e seguramente doloroso do amigo de longa data, que, desafiando a saudade, ouviu um sem número de pessoas que contactaram com o João Aguardela ao longo da sua vida. Sem que isto signifique que este surja de uma forma endeusada: estão por aqui uma ou outra diatribe menos inocente da adolescência, o traço mais reservado e até por vezes frio da sua personalidade ou as decisões mais polémicas, como o concerto dos Sitiados num comício do PSD cavaquista (Aguardela argumentou assim: “eu não gosto de coisas fáceis; pregar aos convertidos é fácil, isto é que vale a pena”).

Contudo, o que se poderia perder em distância crítica (não creio que se perca), ganha-se em emoção. Ignorando uma ou outra imprecisão factual (as falhas na discografia d’A Naifa na pág. 105 ou a troca do nome do programa da RUC: chama-se “Santos da Casa” e não “Sons da Casa”), o que mais salta à vista é o trabalho ímpar de um grande músico e a forma sentida e intensa como a sua vida é descrita, capaz de deixar com lágrimas nos olhos mesmo quem só o conheceu do ponto de vista artístico. E é particularmente incrível como Ricardo Alexandre consegue transportar as letras dos projectos de Aguardela, com uma aparência algo abstracta (e por vezes quase deliciosamente non-sense, em particular n’A Naifa), para o contexto concreto da vida do João, como se estas fossem quase um reflexo auto-biográfico.

Tocante e notável, só podia.

Eis dois excertos do livro:

«Trabalhar com o João era… penso que ainda é, mas tenho de tirar isso da cabeça… (pausa)… era excepcional». Há alturas em que as palavras, custam a sair. Fosse em directo naquele estúdio de rádio e o silêncio de alguns segundos pareceria uma eternidade, o momento em que a rádio é emoção e ganha a força dos sentimentos que carrega e transmite. Continua Luís Varatojo: «Ele era muito intuitivo, era muito prático também. Eu às vezes demoro mais tempo à volta das coisas e ele compensava: “Isto está bom, vamos por ali” Tinha muitas ideias, como é evidente. Eu acho que o João era um artista completo!

Parece que se disser que o João Aguardela morreu, vou de novo sentir o susto da sua perda, esse momento violento da primeira vez que se recebe uma notícia tão louca quanto esta, quando não se consegue ainda assacar dela algum sentido. Parece que se disser que o João Aguardela morreu vou ainda pensar que é mentira, algum engano, que seguramente depois de ligar a um ou dois amigos vou desfazer o equívoco e ressuscitar o João, trazê-lo para a realidade do lado de cá das coisas, das nossas coisas. Eu penso nisto de vez em quando, em como já não está por aí a compor mais uma canção, e parece-me que volto sempre ao momento anterior à notícia e tudo recomeça, por ser, agora e sempre, tão difícil de abdicar dele, da presença dele, da expectativa da sua próxima música (valter hugo mãe)

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2 respostas a Mais que uma biografia, a homenagem obrigatória a Aguardela

  1. Sassmine diz:

    saudades…

  2. Que a Energia Criativa do João A , seja canalizada novamente e volte ao seu ciclo regenerativo dentro do Corpo material de um recém Nascido e continue a criar…criar …criar.
    Nada se perde…tudo se transforma.

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