ETA em Portugal: um caso mediático

“Mas o julgamento de Andoni Zengotitabengoa tem revelado muitas surpresas. Para quem tinha confiado tanto nos factos relatados pelas autoridades e pela imprensa, fica-se perplexo com a sucessão de contradições de boa parte das testemunhas arroladas pela acusação. O chefe da PSP começou por meter as mãos pelos pés quando identificou o alegado membro da ETA sem problemas. Em declarações à polícia, tinha afirmado ser difícil reconhecer Andoni Zengotitabengoa como um dos habitantes da moradia vizinha. Esse foi um dos factos que mereceu a ameaça de processo por falsas declarações. Outra curiosidade prende-se com a filha deste agente da PSP também não conseguir reconhecer o arguido.

Um estucador que fez obras na moradia em causa, e disse em tribunal reconhecer Andoni Zengotitabengoa, foi confrontado pelo colectivo de juízes por ter entrado em contradição. Nas declarações durante a investigação, havia dito que tinha visto bidões azuis – onde posteriormente foi encontrado material explosivo – e que os moradores tinham reagido de forma intempestiva quando tentaram arredar um armário. No julgamento, não só negou ter visto os bidões como minimizou o episódio do móvel.

Mas mais graves foram as declarações em tribunal de Júlio Henriques, proprietário de uma oficina, e de Edgar Couto, dono de um restaurante. O mecânico afirmou ter pedido aos agentes da Polícia Judiciária para riscarem o seu depoimento por conter informações que não correspondiam à verdade. Nomeadamente, no que diz respeito à identificação dos dois alegados moradores da vivenda. Já Edgar Couto acusou a PJ de o ter “apertado” e de o quase ter obrigado a identificar os alegados membros da ETA como clientes habituais do seu restaurante.”

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22 respostas a ETA em Portugal: um caso mediático

  1. Tiago Vasconcelos diz:

    Não espantaria ninguém que algumas testemunhas voltassem agora com a palavra atrás com medo de represálias. É o mesmo tipo de medo que leva à dificuldade de obter testemunhos contra a máfia.

    • De diz:

      Um seguidor dos métodos de Rumsfeld…
      Vale tudo
      Mentir,aldrabar,manipular…quiça torturar,violentar,eliminar

      Tudo em nome do inalienável direito do mais forte a ….

  2. RC diz:

    A que é que atribuis esta alegada insistência das autoridades em querer fazer-nos acreditar que o tal Andoni é membro da ETA? Será que alguém embirrou com o pobre coitado e está a organizar uma conspiração contra ele?

  3. FNV diz:

    Óbvio. Se fosse com neonazis nem teríamos lido este texto.
    Ele há coisas mais perigosas – do que testemunhar num caso de etarras – que um tipo das Caldas pode fazer mas de momento não me ocorre nenhuma.

  4. miguel serras pereira diz:

    Tiago Vasconcelos,
    não vejo razão e repugna-me profundamente que se justifique através da invocação da “ameaça terrorista” os direitos, garantias e liberdades fundamentais. Se repudio liminarmente a legitimidade dos métodos da ETA, menos ainda posso calar-me quando as polícias e as autoridades judiciais lançam mão deles.

    msp

    • Tiago Vasconcelos diz:

      Não entendo porque motivo me dirige esse comentário.
      O que afirmei é que não me espanta que testemunhas como o estucador tenham entrado em contradição e voltado com a palavra atrás no julgamento. É compreensível que um pacato e honesto trabalhador não queira arriscar problemas com a máfia independentista basca.

      • Bruno Carvalho diz:

        Claro, a polícia aperta com gente para que testemunhe contra Andoni Zengotitabengia e você acha que o problema são os independentistas bascos. Aqui se vê o nível de argumentação dos espanholistas.

      • miguel serras pereira diz:

        Tiago Vasconcelos,
        pareceu-me que V. justificava as pressões policiais evocadas pelo Bruno Carvalho. Reli-o com atenção e creio que não foi o caso. Penitencio-me, pois, e peço-lhe desculpa. Mas, deixando de fazer dele um argumento contra si, mantenho a substância do que disse.

        Cordialmente

        msp

  5. Jorge diz:

    Enquanto tu escreves sobre a ETA (um bom artigo), nenhum dos teus colegas deste chamado blog, escreve acerca dos últimos criminosos bombardeamentos em Sirte e nas regiões, onde ainda se encontram verdadeiros resistentes líbios.
    Nem um dos teus colegas, chamados “bloggers”, escreve acerca dos últimos confrontos no Afeganistão e dos tumultos no Iraque; nem sobre o que se está a passar em Israel e nos colonatos da Cisjordânia.

    Alguma coisa anda mal, quando supostos ou ditos “homens de esquerda” olham para o lado destas questões (que estão a acontecer) e resolvem escrever coisas acerca de arte ou Rodney King e outras futilidades.

    Se me permites, já era tempo de abandonar um barco destes (que nada vale) e construir, com as tuas mãos, um blog a sério, pois este de nada vale.

    Saúde.

    • Tiago Mota Saraiva diz:

      Jorge, excelente princípio. Para quê combater o capital quando se pode foder camaradas?
      Estou para aqui a imaginar títulos de posts de um prometedor blogue do Jorge:
      – A obra fútil de Álvaro Cunhal
      – Ary dos Santos, o suposto homem de esquerda que nunca cantou nada sobre o Iraque
      – Rogério Ribeiro ao serviço da burguesia

  6. ... diz:

    ETA é uma organização com uma antiga tradição de extorsão e ameaças. As testemunhas receberam umas visitas informais que lhes apresentaram umas… digamos, “propostas irrecusáveis”; daí as contradições.

    • Bruno Carvalho diz:

      Pode engendrar todas as teorias imagináveis mas o que as testemunhas disseram em tribunal foi que tinham sido pressionadas pela Polícia Judiciária para mentir. E você, pelos vistos, também usa, como os espanhóis, a mentira como meio de propaganda contra os independentistas bascos. Sim, a ETA cobrava o imposto revolucionário à burguesia basca e espanhola que tivesse negócios no País Basco. Contudo, isso há meses que acabou e foi confirmado pelo Estado espanhol e pela confederação patronal basca. Portanto, essas teorias idiotas que se lançam ao ar a ver se pegam não têm qualquer sentido.

  7. l'outre diz:

    E a prova material? Não serve de nada? Encontram explosivos numa moradia e isso não prova nada?

    • Bruno Carvalho diz:

      Entenda que, da minha parte, não estou a afirmar que Andoni é inocente ou culpado. O artigo tem o objectivo de questionar a forma como foi conduzida a investigação.

  8. Rafael Ortega diz:

    Pelo que vem no texto linkado o tipo já foi condenado à revelia em Espanha a 13 anos de prisão pelo que irá passar os próximos tempos à sombra.

    Em casos envolvendo vários tipos de máfias também as testemunhas se contradizem. É tão provável que as pressões para dizer A ou B venham da polícia que quer condenar como dos criminosos que querem safar um dos seus.

    • Bruno Carvalho diz:

      Mas não estamos a falar da máfia, estamos a falar de uma organização política. E até ao momento nada me leva a dizer que algum independentista basco tenha pressionado testemunhas. Isso não passa de pura especulação e propaganda espanholista. Já sobre as pressões policiais, não só há as declarações em tribunal das testemunhas como os juízes pediram uma investigação à conduta da PJ.

      • Tiago Vasconcelos diz:

        Mas não estamos a falar da máfia, estamos a falar de uma organização política.

        Os objectivos podem ser diferentes, mas os meios não diferem muito de uma organização mafiosa. Senão vejamos:

        1. A Máfia rouba. A ETA também.
        2. A Máfia pratica extorsão. A ETA também.
        3. A Máfia ameaça e mata quem a critica na imprensa ou em livros. A ETA também.
        4. A Máfia mata quem abandona a organização. A ETA também.
        5. A Máfia ameaça e mata políticos democraticamente eleitos. A ETA também.
        6. A Máfia mata simples trabalhadores de empresas cuja actividade interfere de alguma forma com os seus interesses. A ETA também.

        Em caso de dúvidas, posso exemplificar qualquer um dos 6 pontos acima.

        • Bruno Carvalho diz:

          1. A ETA roubava automóveis, explosivos e seus componentes e armas. Isto para executar as suas acções. Nunca vimos a ETA expropriar bancos como outras organizações armadas, o que tão pouco é condenável.

          2. A ETA aplicava um imposto revolucionário que era pago de forma voluntária por muitos empresários e de forma imposta por outros tantos. Esse dinheiro era usado para financiar a luta independentista.

          3. A ETA ameaçava todos aqueles que fazendo parte da estratégia independentista do Estado espanhol mentiam e criavam as condições para que os povos de Espanha vissem com bons olhos a ofensiva repressiva.

          4. A ETA nunca matou ninguém que tivesse abandonado a organização. O Estado espanhol usando a propaganda tentou repetir a mentira de que a ETA assassinou a Yoyes. Não é verdade. Desde então, dezenas de pessoas abandonaram a organização entrando em conflito e até hostilizando e continuam bem vivos.

          5. A ETA não mata políticos democraticamente eleitos simplesmente porque não há democracia no País Basco. Basta ver a quantidade de organizações da esquerda independentista ilegalizadas. E a quantidade de gente presa apesar de nunca terem pegado numa arma.

          6. Não é verdade que a ETA mate trabalhadores de empresas que interfiram com os seus interesses. Primeiro porque a ETA nunca teve interesses económicos próprios e, segundo, porque nas acções que realizou contra empresas sempre teve algum objectivo político: denunciar a exploração, defender o património natural (caso da central nuclear de Lemoiz e do TGV), combater a promiscuidade com a forças armadas espanholas e acabar com o tráfico de droga (tolerado e fomentado pelo Estado espanhol). É certo que em algumas destas acções morreu gente inocente. É lamentável e condenável. Mas dizer que era esse o objectivo é entrar no campo da mentira.

          A tua tentativa de comparar a ETA à máfia não tem qualquer sentido. Independentemente do que achemos da ETA, ela luta por objectivos políticos e por uma causa comum. A máfia existe para beneficiar interesses particulares. E não vale a pena falares no presente em qualquer um desses pontos porque a ETA, neste momento, está em cessar-fogo.

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