O visionário Orwell

Em O Caminho para Wigan Pier, um dos seus livros menos conhecidos (isto se considerarmos que, na lista dos mais conhecidos, estão apenas 1984, O Triunfo dos Porcos e Homenagem à Catalunha), Orwell aproveita uma investigação de campo às miseráveis condições de vida dos mineiros do Norte da Inglaterra (descrita na primeira parte do livro), para fazer uma análise social profunda e extraordinariamente interessante (na segunda parte). Eis alguns aspectos fundamentais:

A complexidade da divisão entre classes – “Com sorrisos amáveis, ainda que ligeiramente paternalistas, dispusemo-nos a saudar os nossos irmãos proletários… mas  vejam só! os nossos irmãos proletários não pedem saudações, pedem que nos suicidemos. Quando o burguês vê assim a coisa, põe-se a fugir e, se nessa fuga for bastante rápido, pode encaminhar-se para o fascismo”;

Os ziguezagues ideológicos – “tendo começado como campeão dos oprimidos contra a tirania e a injustiça, acaba preconizando que a classe operária inglesa seja deportada para as colónias como gado, para sanar os males económicos que a afligem. Se tivesse vivido mais dez anos, o mais certo seria inclinar-se para uma versão moderada de fascismo”.

A mecanização, segundo a crítica de Huxley – “Mecanize-se o mundo tanto quanto ele pode ser mecanizado e, para onde quer que nos viremos, teremos sempre uma máquina a impedir-nos de trabalhar – isto é, de viver”.

A contradição princípios teóricos do socialismo / aplicação perversa e  imoralidade da cúpula principal – “A única coisa em volta da qual nos podemos unir é o ideal subjacente ao socialismo: justiça e liberdade. Mas dificilmente o podemos considerar subjacente, porque está quase soterrado sob camadas sucessivas de pedantismo doutrinário, chicanas partidárias e ‘progressivismo’ mal digerido, como um diamante oculto debaixo de um monte de estrume”.

A divisão demasiado quadrada entre “capitalistas” e “proletários” – “Bem vistas as coisas mais me vale estar do lado socialista do que transformar-me num fascista. Mas se continuam a atirar-me constantemente à cara a minha ‘ideologia burguesa’, se me dão insidiosamente a entender que, de certo modo, sou uma pessoa inferior porque nunca trabalhei com as mãos, só criarão criar antagonismos comigo. Porque o que estão a dizer-me é que sou um completo inútil ou que devia modificar-me de uma maneira que não está ao meu alcance. Não posso proletarizar a minha pronúncia ou certos gestos e convicções que tenho – e não o faria, se pudesse. Em nome de quê? Não peço a ninguém que fale como eu; porque razão me hão-de exigir o contrário?”.

E, embora nem sempre acerte, acaba por revelar uma notável capacidade premonitória. Enquanto isso, alguns conselhos que tentou impingir para a aposta num socialismo efectivamente defensor da liberdade, da justiça, do derrube da tirania e mais humanista pouco ou nada terão sido ouvidos (haveria interesse nisso?). A continuação do estalinismo mais brutal, a traição soviética na Guerra Civil Espanhola, o pacto Ribbentrop-Molotov ou até o incómodo e a forma como certos sectores de esquerda britânicos tentaram  condicionar a publicação da segunda parte do livro mostram isso de forma clara.

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91 Responses to O visionário Orwell

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