O visionário Orwell

Em O Caminho para Wigan Pier, um dos seus livros menos conhecidos (isto se considerarmos que, na lista dos mais conhecidos, estão apenas 1984, O Triunfo dos Porcos e Homenagem à Catalunha), Orwell aproveita uma investigação de campo às miseráveis condições de vida dos mineiros do Norte da Inglaterra (descrita na primeira parte do livro), para fazer uma análise social profunda e extraordinariamente interessante (na segunda parte). Eis alguns aspectos fundamentais:

A complexidade da divisão entre classes – “Com sorrisos amáveis, ainda que ligeiramente paternalistas, dispusemo-nos a saudar os nossos irmãos proletários… mas  vejam só! os nossos irmãos proletários não pedem saudações, pedem que nos suicidemos. Quando o burguês vê assim a coisa, põe-se a fugir e, se nessa fuga for bastante rápido, pode encaminhar-se para o fascismo”;

Os ziguezagues ideológicos – “tendo começado como campeão dos oprimidos contra a tirania e a injustiça, acaba preconizando que a classe operária inglesa seja deportada para as colónias como gado, para sanar os males económicos que a afligem. Se tivesse vivido mais dez anos, o mais certo seria inclinar-se para uma versão moderada de fascismo”.

A mecanização, segundo a crítica de Huxley – “Mecanize-se o mundo tanto quanto ele pode ser mecanizado e, para onde quer que nos viremos, teremos sempre uma máquina a impedir-nos de trabalhar – isto é, de viver”.

A contradição princípios teóricos do socialismo / aplicação perversa e  imoralidade da cúpula principal – “A única coisa em volta da qual nos podemos unir é o ideal subjacente ao socialismo: justiça e liberdade. Mas dificilmente o podemos considerar subjacente, porque está quase soterrado sob camadas sucessivas de pedantismo doutrinário, chicanas partidárias e ‘progressivismo’ mal digerido, como um diamante oculto debaixo de um monte de estrume”.

A divisão demasiado quadrada entre “capitalistas” e “proletários” – “Bem vistas as coisas mais me vale estar do lado socialista do que transformar-me num fascista. Mas se continuam a atirar-me constantemente à cara a minha ‘ideologia burguesa’, se me dão insidiosamente a entender que, de certo modo, sou uma pessoa inferior porque nunca trabalhei com as mãos, só criarão criar antagonismos comigo. Porque o que estão a dizer-me é que sou um completo inútil ou que devia modificar-me de uma maneira que não está ao meu alcance. Não posso proletarizar a minha pronúncia ou certos gestos e convicções que tenho – e não o faria, se pudesse. Em nome de quê? Não peço a ninguém que fale como eu; porque razão me hão-de exigir o contrário?”.

E, embora nem sempre acerte, acaba por revelar uma notável capacidade premonitória. Enquanto isso, alguns conselhos que tentou impingir para a aposta num socialismo efectivamente defensor da liberdade, da justiça, do derrube da tirania e mais humanista pouco ou nada terão sido ouvidos (haveria interesse nisso?). A continuação do estalinismo mais brutal, a traição soviética na Guerra Civil Espanhola, o pacto Ribbentrop-Molotov ou até o incómodo e a forma como certos sectores de esquerda britânicos tentaram  condicionar a publicação da segunda parte do livro mostram isso de forma clara.

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91 respostas a O visionário Orwell

  1. Bruno Carvalho diz:

    É. Para os social-democratas, como Orwell, tudo o que tenham feito os comunistas é mau. Para o Pacto de Munique e para o comportamento “neutral” da Europa “democrática”, em relação à guerra civil espanhola, que abriu caminho ao avanço do nazi-fascismo, nem uma palavra. Cada escritor, tem os seguidores que merece.

    • Helena Borges diz:

      Tau!

    • João Valente Aguiar diz:

      Ora nem mais caro Bruno. E faltou ainda dizer o papel do Orwell na denúncia de comunistas aos serviços secretos britânicos, tal como outros cobardes e traidores o fizeram (Elia Kazan, etc.). E o Orwell só é reconhecido como escritor na academia pelo seu anti-comunismo. A burguesia precisa sempre de “intelectuais” que se proclamem de esquerda, mas que fujam, dizem eles, ao totalitarismo. O Torgal é um orwellzinho de trazer por casa. Sai às quintas no Correio da Manhã.

    • Tiago Vasconcelos diz:

      “Nem uma palavra” aonde? Em tudo o que o Orwell escreveu, ou apenas naquilo que o João Torgal transcreveu? É que há uma grande diferença!

      Os factos históricos sobre Maio de 1937 em Barcelona não mentem. Estaline e os seus aliados na Catalunha, o PSUC, quiseram suprimir a revolução social. Fizeram-no perseguindo e matando militantes do POUM (trotskista) e anarquistas.

  2. João Torgal diz:

    Que desvirtuamento da história, Bruno… Orwell não era um social-democrata, combateu ao lado de marxistas e anarquistas na Guerra Civil e denunciou a falta de iniciativa da Europa ocidental.

    Quanto à abertura de caminho ao avanço do nazi-fascismo, o que terá sido mais importante: a falta de intervenção da Europa democrática ou a intervenção soviética, que bloqueou a revolução operária em Espanha e deu um apoio tão tenúe às forças republicanas, na forma de um presente envenenado (o fuzilamento dos resistentes soviéticos por Estaline não deixa grandes dúvidas)? Ou ambas, provavelmente…

    • João Valente Aguiar diz:

      «um apoio tão tenúe às forças republicanas, na forma de um presente envenenado»

      Por acaso quem começou por matar alguém na Guerra Civil de Espanha foram os anarquistas. O insuspeito João Bernardo (mto mais próximo do anarquismo do que do marxismo) diz isso mesmo no seu “Labirintos do fascismo”.

      • Ricardo Noronha diz:

        Parece-me que tresleste essa parte do livro João. E olha que o JB se classifica a si próprio – nesse mesmo livro – como “marxista”.

        • João Valente Aguiar diz:

          O Bernardo não diz que os comunistas não mataram anarquistas – e ele coloca-se ideologicamente do seu lado – mas ele tb diz que foram os anarquistas a abrir as hostilidades.

          • João Valente Aguiar diz:

            E quem começou por cindir o campo republicano e facilitar a vitória dos fascistas foram os anarquistas. Se se tivessem mas é preocupado em derrotar o inimigo comum as coisas teriam sido certamente diferentes. Aliás as aventuras anarquistas correram tão bem que nunca mais houve uma corrente de massas anarquista, em qualquer parte do mundo, desde 1939 em diante. Paradoxal o facto dos anarquistas ao mesmo tempo que celebram a existência de uma das suas maiores correntes de massas (senão até a maior com a Coluna Durruti, a CNT, a FAI), celebrarem entusiasticamente o seu “funeral” histórico-político. E com isto não quero mostrar nenhum regozijo mas o que me parece ter sido o fim (definitivo ou temporário – só o futuro o dirá) do anarquismo enquanto corrente de massas.

          • De diz:

            João Valente Aguiar:
            Este comentário das 19 e 39 merece parabéns.
            De facto:
            -quem começou por cindir o campo republicano e facilitar a vitória dos fascistas foram os anarquistas.
            -nunca mais houve uma corrente de massas anarquista, em qualquer parte do mundo, desde 1939 em diante
            -não há qualquer regozijo com tal

            O episódio de Segismundo Casado que,com um grupo de anarquistas e socialistas, se rebelou em 5 de Março de 1939 contra o governo de Negrín tentando negociar a eminente derrota republicana foi mais um episódio triste Não lhes serviu de nada, Franco não teve piedade com os vencidos.

  3. António Figueira diz:

    Alguém que leia o “1984 – The Mysticism of Cruelty”, do Deutscher. e ponha o Orwell where he belongs.

    • Carlos Vidal diz:

      Ah, faltava aqui, nesta casa, um post sobre um reles denunciante e bufo…

      Oh Orwell, “pois então” (como diria a minha avó, “pois então”, “pois então”).

      “Segundo Cartano, «Orwell não foi para Espanha fazer turismo literário, à maneira de Byron». Trabalhava com o POUM(partido dos trotsquistas) e no livro «Homenagem à Catalunha» que «não é, certamente, um romance» relata «as batalhas de ruas entre comunistas e anarquistas em Barcelona, atingindo uma dimensão épica». Orwell, evidentemente, estava na guerra civil a trabalhar para os serviços secretos da Grã-Bretanha e dos Estados Unidos com a missão de fornecer informações sobre os membros das Brigadas Internacionais oriundos daqueles países.
      Mas o edifício dos mitos relacionados com o autor de «1984» e da «República dos Animais» teria de cair. E caiu, de facto, quando os sujos objectivos do escritor foram expostos, publicamente, no seu próprio país, a Grã-Bretanha.
      Trabalhava sob o controlo de Celia Kirwan, uma intelectual sabida e consumada nas «artes» das campanhas anticomunistas e anti-soviéticas ao serviço de um departamento especial do Foreign Office. A sua função era informar, denunciar, caluniar. Entregou listas por si elaboradas das quais constavam mais de 130 nomes de pessoas que, em sua opinião, deveriam passar a ser vigiadas. Eis alguns dos nomes que Orwell arrastou para a vigilância dos serviços secretos ingleses:Louis Adamic, John Beavan, os professores Bernal, Braddock, Blackett, Charles Chaplin, Richard Crossman, Artur Calder-Marshall, W.P. Coates e Zelga Coates, Nancy Cunard, Louis Golding, Loster Hutschinson, Maurice Hindus, C. Day-Lewis, Iris Morley, Joseph McLeod, Hugh McDiarmid, Ian Mikardo, Sean O’Casey, Liam O’Flaherty, Ralph Parker, D.N. Pritt, J.B. Priestley, George Padmore, Sir Bernard Parcs, George Reavey, Peter Smollet, G.B. Shaw, Upton Sinclair, John Steinbeck, L.J. Solley, Goerge Thomson, Orson Welles, S. Zuckermann, entre dezenas de outros.”

      Steinbeck, Welles………………….

      O que seria interessante era o João Torgal desmentir estes dados!!!
      Será capaz??

      (Volta Elia Kazan, estás perdoadíssimo)

      • Carlos Vidal diz:

        Já vale tudo nesta casa “5 qualquer coisa”…
        “Dias” ??

        • De facto, a pluralidade é cá um incómodo…

        • Tiago Vasconcelos diz:

          É notório o incómodo do Vidal perante o anti-comunismo lúcido de Orwell.
          Orwell foi daqueles intelectuais que mais cedo percebeu o logro do marxismo-leninismo e a ameaça que esse tipo de regime constituía para a liberdade dos povos. A fábula “Triunfo dos Porcos” e o romance “Mil Novecentos e Oitenta e Quatro” são paradigmáticos dessa reflexão. O último parece até uma descrição fiel do que, por exemplo, é a Coreia do Norte actual…
          Não admira, por isso, que apesar de ser um socialista convicto, Orwell tenha percebido que, ante o totalitarismo soviético ou o totalitarismo nazi, a democracia liberal britânica era um mal menor. E que, no contexto da época, devia ser defendida. E quem o pode censurar por ter enxergado aquilo que tantos intelectuais demoraram décadas a entender?

          • João Torgal diz:

            Orwell não era anti-comunista, mas antes anti-estalinista. Ainda assim, muito mais do que denúncias do comunismo soviético (mais óbvio, claro, em “Triunfo dos Porcos”), as suas obras são claramente críticas ferozes a qualquer forma totalitária de poder

          • João Valente Aguiar diz:

            Oh Torgal, então porque raio ele escolheu o socialismo para criticar, precisamente num contexto em que: 1) se tinha iniciado a Guerra Fria; 2) a apresentação que ele faz do socialismo é precisamente a mesma que a Arendt, o Popper e todos os reaccionários fazem na altura sobre o “medo da expansão do comunismo”. É dessa paranóia anti-comunista e anti-soviética que surgirão os processos do MacCarthy, esses sim bem mais desumanos do que os Processos de Moscovo (os primeiros envolveram e destruiram as vidas de milhares de artistas e cidadãos comuns; ao passo que os segundos se destinaram a depurar o Estado e o PCUS de terroristas e indivíduos ligados aos serviços secretos alemães e japoneses); 3) espantoso como o Orwell prefere exemplificar o totalitarismo com o socialismo quando na altura os EUA acolheram centenas e centenas de agentes da Gestapo (à cabeça o Gehlen) e de indivíduos que em nada ou mto pouco abjuraram o nazismo. A este título, a influência de elementos nazis em todo o aparelho militar americano do pós-guerra é particularmente bem retratada no filme Dr. Strangelove do Kubrick (que não tinha nada de comunista, mas que retrata como poucos a histeria e a obsessão anti-comunista que os EUA viveram; histeria e paranóia alimentadas por senhoritos do gabarito do Orwell).

          • José diz:

            JVA:
            O McCarthy e a paranóia que conseguiu instilar na sociedade norte-americana está bem documentada e demonstra uma época vergonhosa dos EUA e da humanidade.
            Os processos de Moscovo também estão documentados e demonstram uma época vergonhosa da URSS e da humanidade.
            A hipocrisia com que diz que os primeiros destruíram a vida de cidadãos comuns e artista – o que é uma verdade inegável – e os segundos destinaram-se a livrarem-se de “terroristas”, apenas prolonga a vergonha iniciad a nos anos 30.
            Kamenev, Zinoviev, Trotski e o seu filho, Bukharine, entre tantos outros de renome e milhares de outros fiéis comunistas sem nome, eram terroristas?! Estavam ligados aos serviços secretos alemães ou japoneses?
            Se já nem na URSS, a partir de 56, já ninguém acreditava em tal, quer o JVA manter a ilusão?
            É inteiramente verdade que os EUA – e os britânicos e ou franceses e os alemães-ocidentais – acolheram e usaram ex-nazis, como Gehlen, que era militar e não polícia na Gestapo, em diversas funções.
            Como aconteceu, primeiro e ainda antes do final da guerra, com a URSS e, posteriormente, com a DDR. Como Paulus.

          • João Valente Aguiar diz:

            José,
            Foi precisamente Krutchev que inventou todas essas parafernálias. Aliás, não houve uma URSS mas várias de acordo com distintíssimos períodos históricos.
            E eu não disse que Gehlen era polícia mas agente da Gestapo.

          • João Torgal diz:

            “Foi precisamente Krutchev que inventou todas essas parafernália”.

            Mais uma lição de história, clara e inequívoca. E que mais?

          • José diz:

            JVA… Gehlen era militar… e a GESTAPO era uma polícia.
            Assim, se vc diz que o bom do Gehlen não era polícia mas agente da GESTAPO, faz uma negação e uma afirmação contrária ao mesmo tempo, né?…
            Nem que isso realmente interesse muito.
            Utilizou o Gehlen erradamente, mas já lhe disse que admito que os EUA, a GB, RFA, a França, mas também a URSS e a RDA usaram alemães nazis em diversas funções. Como Paulus. E outros, de um lado e do seu oposto.
            Fico a saber que houve várias URSS. Pelo que percebo, algumas vc reconhece, outras não.
            Quer desenvolver? Quais, como, quando, porque reconhece algumas e outras não.
            Já percebi que para o JVA, Estaline é bom, Krutchev não é bom e de Andropov para a frente nada existiu, nem é bom falar.
            O que é facto é que, formalmente, Zinoviev, Kamenev e tutti quanti, foram ilibados pelas mesmas autoridades institucionais que os condenaram.
            Às primeira o JVA reconhece-lhes autoridade e credibilidade. Às segundas não. Porque sim. Então tá…
            É por estas e por outras é que é tão estimulante vir a um museu como este.

          • João Valente Aguiar diz:

            José, eu falei em várias URSS até pelas linhas políticas que foram defendidas ao longo do tempo (política externa, papel das empresas, etc.), e mesmo dentro de cada período. Não disse que o Stáline era bom e os outros maus… Se as coisas fossem assim, como a História, as sociedades e a vida seriam fáceis de interpretar…
            Sobre o Gehlen. Eu sei que ele era general mas ele fazia serviço de contra-informação que, por sua vez, passava pelo crivo da Gestapo. Estamos a discutir minudências neste ponto.

          • José diz:

            Deixe para lá o Gehlen, que nada interessa.
            Houve várias URSS, como houve vários Portugal, França, Espanha, etc, etc. E então?
            Que tem tudo isso a ver com os Processos de Moscovo e a vergonha que foram para o regime e para a humanidade?
            Que tem isso a ver com o facto de, posteriormente, e ainda com alguns dos executores e observadores ainda vivos, se ter iniciado o processo de reabilitação das vítimas desses processos?
            Que tem tudo isso a ver com a reabilitação final de Zinoviev, Kamenev, Bukharine, etc, pelas mesmas instituições que os expulsaram, condenaram e executaram?
            No fundo, qual é o problema de admitir que, a par dos crimes nazis, fascistas, militaristas, dos EUA e tutti quanti, também na URSS, também no campo comunista, houve erros e crimes?
            É que defender a lisura dos processos de Moscovo bem me parece excessivo, JVA.

      • Reles denunciante e bufo…

        “o incómodo e a forma como certos sectores de esquerda britânicos tentaram condicionar a publicação da segunda parte do livro mostram isso de forma clara.” O incómodo vai-se prolongando pelo tempo…

    • José diz:

      Bom, esse não li, mas dele li o Russian after Stalin. Muito interessante e leitura recomendada para alguns excitáveis daqui.

  4. João Torgal diz:

    “o incómodo e a forma como certos sectores de esquerda britânicos tentaram condicionar a publicação da segunda parte do livro mostram isso de forma clara.” O incómodo vai-se prolongando pelo tempo…

    Quanto a denúncias, é a primeira vez que ouço essa história do Orwell. Mas os Partidos Comunistas têm demasiados telhados de vidro nesse campo. “Cuidado com eles”…

    • Carlos Vidal diz:

      Então se é a primeira vez que o blogger ouviu esta notícia da bufaria, que ocupa lugar central em qualquer biografia de Orwell, devia era “guardar” o post (até porque Orwell é muito elogiado pelos do costume, que não menciono).

      • Tiago Vasconcelos diz:

        Um bolchevique vir denunciar a “bufaria” tem o seu quê de cómico.
        Será que os Processos de Moscovo lhe fazem soar alguma campainha?

        • João Valente Aguiar diz:

          Em que é que houve bufaria nos Processos de Moscovo? O próprio embaixador norte-americano que assistiu a todas as sessões desses Processos disse o seguinte num memo secreto de 1938 e só revelado em 1943: «após uma observação diária das testemunhas e do seu modo de depor, as corroborações inconscientes que produziram e outros factos no decurso do julgamento, conjuntamente com outros que poderiam ser apensos ao processo, é minha opinião neste momento que os arguidos políticos estão envolvidos em crimes suficientes à luz da lei soviética, entre aqueles que constam na acusação, que foram estabelecidos pela prova sem possibilidade razoável de dúvida, que justificam o veredicto de culpados de traição e a pena da sentença estipulada pelo código penal soviético».
          E Davies continua e sublinha: «A opinião geral dos diplomatas que assistiram com mais assiduidade ao julgamento foi de que o processo demonstrou o facto de que houve uma formidável oposição e uma conspiração extremamente grave, que explicam muitos dos desenvolvimentos, até agora inexplicáveis, dos últimos seis meses na União Soviética. A única diferença de opinião que parece existir refere-se ao grau de envolvimento dos diferentes arguidos no conluio e o grau de centralização da conspiração». Joseph Davies, Mission to MoscowThe Blakiston Company, Philadelphia, Pocket Books, Nova Iorque, Novembro de 1943, 6ª edição. A primeira edição desta obra foi publicada em Dezembro de 1941 pela Simon and Schuster, que produziu ao todo 13 edições até Outubro de 1942. Com a Guerra Fria, as posições das Administrações dos EUA modificaram-se, naturalmente, por puro interesse estratégico. Todavia, nada disso belisca o facto de que os Processos de Moscovo permitiram à URSS livrar-se de uma Quinta Coluna alinhada com os nazis. Não por acaso a URSS foi o único país invadido pela Alemanha nazi onde esta não tinha uma quinta coluna no momento da sua invasão, precisamente o oposto do que sucedeu na França, na Noruega, na própria Bélgica e Holanda, etc.

          Se tivesse sucedido o mesmo a Portugal, certamente que o Hitler poderia contar com o auxílio prestimoso de alguns ditos “democratas” anti-totalitários do tipo que vêm para aqui comentar e escrever baboseiras.

          • “Todavia, nada disso belisca o facto de que os Processos de Moscovo permitiram à URSS livrar-se de uma Quinta Coluna alinhada com os nazis. ” – Claro que a União Soviética tudo fez para se livrar dos nazis. O pacto germano-soviético Ribbentrop-Molotov terá sido seguramente mais uma das invenções cruéis do Ocidente. Nunca existiu, claro.

            Brilhante. E que mais?

          • João Valente Aguiar diz:

            O Pacto Germano-Soviético existiu, não me tome por bobo. Mas a sério Torgal. Leia, informe-se. Olhe, leia, para iniciação, o primeiro capítulo do livro “1939-1945 – uma guerra desconhecida”. É publicado pela Caminho e o autor era jornalista no jornal bolchevique Le Monde. Pode ser que aprenda alguma coisa sobre as condições que obrigaram os soviéticos a fazer o Pacto, como, por exemplo, a insistência de a França e a Grã-Bretanha em não se comprometerem com uma aliança recíproca de apoio militar com a URSS, a entrega dos Sudetas à Alemanha nazi, o fechar os olhos daqueles dois países ao rearmamento nazi. Leia, a sério, tem lá declarações de dirigentes franceses e britânicos que esperavam ver a Alemanha e a URSS envolvidas numa guerra que, no final dos anos 30, iria pender favoravelmente à primeira.
            Ah, e uma última nota, discuta dados e teses, deixe-se de repetir chavões do Canal História.

          • José diz:

            Insultar os seus adversários não me parece um exemplo de honestidade intelectual nem de grande confiança nas seus argumentos.
            Os democratas anti-totalitários lutaram contra os totalitarismos de qualquer cor do séc. XX e, curiosamente, ganharam.
            Se houve regimes totalitários cuja queda foi violenta, outros caíram de podres, sem que a sua população se levantasse para os defender.
            O JVA ignora os milhões de cidadãos da URSS que lutaram ao lado dos nazis, dos bálticos aos caucasianos.
            Os processos de Moscovo, pelos vistos não limparam convenientemente todos os traidores, mesmo que tenha morto “criminosos” como o filho menor de Kamenev ou a esposa deste.

          • João Valente Aguiar diz:

            «os milhões de cidadãos da URSS que lutaram ao lado dos nazis, dos bálticos aos caucasianos.»

            Olhe, o exército nazi, na sua fase mais poderosa lançou 3 a 4 milhões de soldados contra a URSS. Ora, se milhões de cidadãos se tivessem revoltado contra o regime (que eu nunca defendi ser perfeito ou sequer parecido) vc acha mesmo que o desfecho da guerra teria sido aquele? Quem esteve do lado dos nazis e, já só quando os soviéticos tinham vencido em Stalinegrado foi a divisão do general Vlassov. Gostava tb que explicasse como um país que começa por levar uma tareia monumental e que recua desde a Polónia até 50 km às portas de Moscovo (uma distância nitidamente curta…), com perdas de milhões de mortos (entre soldados e civis), consegue executar o controlo repressivo que lhe atribui.
            Olhe e ainda sobre esses milhões que na sua cabeça lutaram ao lado dos nazis, eu só conheço os milhões de Leninegrado, de Smolensk, de Kiev, de Minsk, etc. que defenderam as cidades até à última gota de sangue contra os invasores nazis. Nuns casos as cidades caíram, noutros não, como em Leninegrado.
            E ainda sobre os mesmos milhões explique lá como seria possível os soviéticos transferirem milhares e milhares de unidades fabris para os Urais se nao tivessem o mínimo apoio popular.
            As únicas populações relativamente simpáticas aos nazis foram as dos países bálticos. Mas caso o José não saiba, só pertenceram à URSS depois da II Guerra Mundial.

          • José diz:

            JVA, deve rever os seus conhecimentos sobre a II WW, nomeadamente sobre a frente leste na Europa.
            Para além dos países bálticos – que se tornaram independentes após a I WW – também a Finlândia foi alvo da agressão da URSS em 39/40, tendo parte deste último país sido ocupado e os restantes invadidos, ocupados e integrados à força na URSS, ainda antes desta se ter sido invadida pela Alemanha.
            Para além dos povos bálticos e finlandeses, também os nazis conseguiram – pelo menos durante algum tempo – voluntários da Bielorússia, da Ucrânia, da Rússia e do Cáucaso.
            Veja, por exemplo, este artigo recente: kms1.isn.ethz.ch/serviceengine/Files/ISN/116265/…/4cf1f652…/4.pdf.
            Mas tudo o que o JVA consegue dizer é insurgir-se contra os números? Que não foram milhões? Então, terão sido centenas de milhares? Melhora alguma coisa?
            Os regimes totalitários não deixaram de perder, não se extinguiu a URSS sem sobressalto, por exaustão, sem que a população tivesse o menor sobressalto em sua defesa?
            Os processo de Moscovo, que vc defendia que haviam extinguido a quinta coluna alemã e japonesa, evitaram o colaboracionismo dos povos soviéticos, como vc assegurava no post anterior?
            Ou, provavelmente, até teve o efeito contrário, como alguns historiadores defendem?

  5. João Torgal diz:

    “Bufaria” não comprovada, portanto. Os serviços secretos e uma estrutura de contra-propaganda soviética não são uma e a mesma coisa. Não foi propriamente um oficial da “Caça às Bruxas” e é pura desonestidade de tablóide (o fortíssimo Daily Telegraph) sugerir tal facto…

    • João Valente Aguiar diz:

      «Celia Kirwan, funcionária do Foreign Office trabalhista e cunhada de Arthur Koestler, o autor de O Zero e o Infinito (Darkness at Noon, de 1940), organizou em 1949 em Inglaterra um ciclo de conferências sobre o estalinismo e dirigiu-se a Orwell – na altura internado num sanatório e a dez meses apenas da morte – pedindo-lhe alguns nomes de pessoas que poderiam participar. Este respondeu-lhe com uma lista de figuras que lhe parecia não valer a pena convidar, pois dadas as suas relações com os soviéticos, e a possibilidade de alguns deles serem até agentes seus, jamais aceitariam. Foi esta relação – divulgada em 1982 na biografia do escritor britânico da autoria de Bernard Crick – que os caluniadores passaram a considerar «prova de delação». »

      In http://aterceiranoite.org/2010/02/12/orwell-e-os-seus-acusadores/

      Não tenho simpatia política nenhuma pelo Bebiano mas ele até, sem querer, revela o fundo do próprio Orwell. Basicamente, o Orwell sabia perfeitamente que, ao fornecer uma lista daquelas ao Foreign Office britânico, estava a ser um bufo. O Orwell fez a mesma merda que o bufo do Elia Kazan, e o Kazan, do ponto de vista artístico, era mto superior à abébia do Orwell.

    • Carlos Vidal diz:

      Pior a emenda que o soneto. Ignorância absoluta dos factos e má-fé.

      Em Portugal, a obra de Orwell tem vindo a ser publicada pela Antígona, que, pela pena de John Newsinger, deu à estampa uma favorável biografia do escritor (pudera, é uma edição da sua editora – e eu tenho por essa editora uma grande admiração, pois também lá está, entre outros, o Debord!!). Tal biografia não nega as denúncias, ninguém nega certos factos, propõe-se antes contextualizá-los. Isto é o máximo que se pode fazer neste caso.

      1. Dizer que não se sabia é muito grave (eu não escrevo sobre matérias que desconheço).
      2. Depois, emendar-se e dizer-se que “é tudo mentira” ainda é mais grave.

      E retiro-me deste post.
      (E tenho cópia destes meus comentários, para evitar problemas.)

      • Carlos Vidal diz:

        Além do mais, vejo a extrema direita em peso nesta caixa de comentários.
        Bom proveito.

      • Carlos Vidal, nunca apagaria nenhum comentário. Esse hábito de censura não me está no sangue, nem admito que seja posto em causa.

        Esse tipo de fait-divers que por vezes são por aí alimentados não me dizem nada, nem quero perder um segundo que seja com isso

        • A.Silva diz:

          É o que se chama agarrar-se aos pormenores para fugir ao essencial.
          O essencial no comentário do CV é o desmascaramento de um bufo e da sua ignorância acerca desse “herói” da direita anticomunista que se chama Orwell…

          • Tiago Vasconcelos diz:

            Para lá com a cassete, homem.
            Não se conhecem consequências negativas para os visados da lista de Orwell. Enquanto que bufaria na URSS e em demais países comunistas tem normalmente consequências graves para os visados. Consequências que podem ser de prisão, trabalhos forçados ou mesmo até à morte.
            Uma “pequena” diferença que os bolcheviques tardios que por aqui pululam tratam convenientemente de anular…

      • José diz:

        LOL
        Olha logo quem fala em censura!
        Que lata!

  6. estrela diz:

    Pá não me esqueço há pra ai um ano um comunista, numa manifestação no rossio,aos gritos a dizer a policia que “aqueles” eram os anarcas. Pá foram, são e sempre seram bufos.

    • A.Silva diz:

      Pá, também não me esqueço desse comunista, tinha o carimbo na testa e tudo, um ar furibundo de quem dá injecções aos velhotes atrás das orelhas, os olhos saídos das órbitas e denunciou aqueles pobres anarcas todos aos polícias que até ai julgavam tratar-se de membros da claque da académica, os polícias quando entenderam (após algum tempo de dura explicação) o que o furibundo comunista dizia, vieram em molho e prenderam os anarcas todos.

      Se a estupidez pagasse imposto de certeza que havia gente que tinha mais cuidado com aquilo que diz ou escreve, não é estrela?

      O anticomunismo é uma velha cassete gasta e ridícula!

    • Bruno Carvalho diz:

      E eu nunca me esquecerei daqueles teus amigos da casa okupada de Queluz, a Zarabatana, que foram avisar os nazis de que havia um polícia infiltrado. Desde então, até os ocupantes da casa a abandonarem a troco de dinheiro, os nazis deixaram de incomodar a casa.

  7. Ricardo Noronha diz:

    “Nesse tempo chamavam-nos o Partido da Plebe. Que sabiam os outros da história? Ondulações passageiras, pequenas marés e ressacas. Espantavam-se com as mudanças da superfície e não conseguiam explicá-las. Mas nós tínhamos descido ao fundo, às massas informes e anónimas que desde sempre constituíram a substância da história; e fomos os primeiros a descobrir as leis do seu movimento. Descobrimos as leis da sua inércia, da lenta mudança da sua estrutura molecular, e das suas súbitas erupções. Essa era a grandeza da nossa doutrina. Os jacobinos eram moralistas; nós éramos empíricos. Cavámos na primitiva lama da história e aí encontrámos as suas leis. Sabíamos mais do que qualquer homem jamais soube sobre a humanidade; e por isso a nossa revolução foi bem sucedida. E agora voltámos a enterrar tudo…
    As massas tornaram-se de novo surdas e mudas, o grande x silente da história, indiferentes como o mar que transporta navios. Cada luz que passa reflecte-se na sua superfície mas, no fundo, tudo é escuridão e silêncio. Há muito, muito tempo, conseguimos agitar os fundos, mas, agora, tudo acabou. Por outras palavras, nesse tempo fazíamos história; agora fazemos política. E essa é a grande diferença”.
    Arthur Koestler, O Zero e o infinito

  8. José diz:

    Não é fácil ser iconoclasta em lado algum, João Torgal, e aqui também não.
    Não faço a menor ideia se o Orwell foi ou não bufo. Eventualmente terá aprendido com o “laboratório social” que observou, a sociedade soviética.
    Independentemente da sua vida pessoal – mesmo admitindo que tenha sido bufo – deixou um legado marcante na cultura universal, com a sua denúncia do totalitarismo tout-court, seja qual for a sua cor, vermelho ou castanho, de esquerda ou de direita.
    Curioso verificar que, relativamente a outros autores/políticos, alguns se indignam quando se critica a pessoa e não a obra, e agora, pressurosamente, venham menorizar Orwell com eventuais falhas de carácter, mesmo que reais.
    Dois pesos e duas medidas, ou a definição popular de hipocrisia.
    Aguentará o João Torgal a pressão?

    • João Valente Aguiar diz:

      Se o Orwell criticasse verdadeiramente o totalitarismo usaria o nazismo e o liberalismo como modelos para as suas narrativas. Espantoso que uma pessoa como ele que assistiu e viveu o ascenso do fascismo, que viu os efeitos devastadores da Grande Depressão, o falhanço do liberalismo, as carnificinas atómicas em Hiroshima e Nagasaqui mas preferiu utilizar o socialismo para a sua crítica (pretensa) do totalitarismo… Tanto o “Triunfo dos Porcos” como 1984 actuam como críticas ao socialismo e não apenas o soviético, mas todo e qualquer socialismo. Sublinho a questão de o Orwell rejeitar qualquer socialismo em 1984 precisamente porque ao contrário dos ignorantes Torgais que escrevem sobre a obra do homem mas que nunca a leram, ele dividia o mundo em três grandes continentes, todos eles dominados, de uma forma ou de outra, por uma qualquer variante socialista. Ora, o exercício dele de enfiar unicamente o socialismo (e que ele designa sempre por socialismo, o que, dentro da linguagem mainstream dos media de então e de hoje implicaria já um distanciamento relativamente aos denominados “regimes comunistas” de Leste), mas como dizia, o exercício do Orwell de enfiar unicamente o socialismo no seio das ditas experiências totalitárias não me parece de algum modo subscrever a ideia que vc apresenta da «denúncia do totalitarismo tout-court, seja qual for a sua cor, vermelho ou castanho, de esquerda ou de direita». Na minha opinião, o Orwell consegue, nesse capítulo, estar à direita de reaccionários como a Arendt, o Popper ou o Aron, precisamente porque ele pretendia equalizar o socialismo ao totalitarismo e nunca menciona sequer o nazismo e o capitalismo liberal. O anti-comunismo não existe apenas no fascismo e que, apesar das suas naturais diferenças, encontra-se presente mesmo no tipo aparentemente mais libertário e mais “purinho” como o Orwell gostava de se apresentar.

      • José diz:

        “um distanciamento relativamente aos denominados “regimes comunistas” de Leste”
        Céus, JVA! Não diga isso, que o Canio De vem já aí, afogueado, nos seus bicos de pés, explicar-lhe que nunca houve um regime “comunista”! Leste ou Oeste, Norte ou Sul!
        Palhaços à parte, a sua (JVA) tese resulta na infelicidade do Orwell não eleger como tema o nazismo ou o fascismo para exemplo do totalitarismo dos seus livros, em vez de escolher o socialismo/comunismo (na realidade, a deriva estalinista)?
        Bom, terá sido uma opção estética, tal como eminentemente política, sem dúvida.
        Talvez pela desilusão de um crente?
        E então?
        O Estalinismo não foi uma deriva totalitária dos ideais marxistas?
        É isso que pretende defender?
        Outra coisa: a que liberalismo pretende colocar o labéu de totalitário?
        O liberalismo, neo ou old way, pode ser e é muita coisa.Totalitário?…
        A Arendt tem longas arengas contra o totalitarismo nazi.
        Pode chamar-lhe o que entender – até judia – mas não será uma reaccionária, pelo menos no sentido da extrema direita, defensora de algo como nazismo.

        • De diz:

          José,que até há pouco apregoava o “desprezo” pela minha pessoa,muda de estratégia e abandona os seus”xô”

          O coitado transpira
          Vá-se lá saber porquê
          (eu penso que adivinho alguns motivos ,mas deixo o assunto para quem gosta de especulações)
          Eis que num repente intestinal se afadiga a responder-me directa ou indirectamente

          Vão perto os tempos em que se abandonava aos seus trejeitos de “domador de galináceos”
          lol
          Agora até utiliza outros comentários para dar algumas bicadas livres
          Uma demonstração clara do “carácter”…mas também de um dos motivos do (pegajoso) suor de José
          Deixemos o termo “palhaço”…palhaço é uma profissão digna…(José apenas completa um pouco mais o retrato que nos dá dele próprio)

          Passemos à forma como este José aldraba e manipula…
          eu vou repetir
          Como aldraba e manipula

          Uma das questões que me colocou num lado antagónico ao de José foi precisamente o uso do termo”sociedade comunista” utilizada para caracterizar quer a China quer a URSS
          Primeiro numa polémica com Gentleman.Depois com um outro qualquer.Finalmente com José.Juntaram-se à esquina.
          O pior é que,como é hábito nalguns “pro”,nem sequer leram o que uns e outros disseram.Atiraram-se de cabeça porque havia coisas mais “importantes” que serem minimamente honestos
          Para meu espanto verifiquei que qualquer destes “personagens” não sabia nem sequer o b-a-bá de ciências políticas…antes produziam frases sobre o comunismo com aquele diletantismo próprio de um leitor do Readers Digest ou de Miguel Sousa o Tavares
          Umas fraudes foi o que pensei na altura
          Quem quiser pode consultar os factos…estão aqui no 5 dias num post que teve mais de 400 entradas

          Agora vem José socorrer-se de uma frase de João Valente Aguiar para tentar mais uma vez manipular a questão

          Ora o que diz a tal frase?
          “um distanciamento relativamente aos denominados “regimes comunistas” de Leste)”
          Repare-se no cuidado (científico) como JVA utiliza “denominados regimes comunistas”
          Repare-se como até coloca a expressão”regimes comunistas” entre aspas
          E repare-se na forma insidiosa como José tenta rasurar o que disse previamente,como tenta manipular a questão …e como foge da expressão..”sociedades comunistas”…o tal termo em disputa há uns tempos atrás

          Não está mal

          Melhor dizendo…está de acordo com o que pensava deste José

          • João Valente Aguiar diz:

            Caro De, sobre a sua interpelação acerca da má leitura (para não dizer insinuação) do José do que escrevi .

            «ele [o Orwell] designa sempre por socialismo, o que, dentro da linguagem mainstream dos media de então e de hoje implicaria já um distanciamento relativamente aos denominados “regimes comunistas” de Leste»

            Isto foi o que escrevi. Se não me expliquei bem, o que na verdade queria dizer era o seguinte: a classificação dos “regimes comunistas” enquanto tais (portanto, comunistas) nunca foi apregoada pelos ditos. Ou seja, nenhuma experiência de construção do socialismo se intitulou como um regime “comunista”, visto que, sendo esse o objectivo, ele nunca foi alcançado, na medida em que o comunismo implica uma sociedade sem classes e sem Estado.

            Ora, quem classifica(va) os regimes socialistas de comunistas sempre foram (são) os regimes capitalistas e toda a corte de ideólogos. Era essa a nomenclatura mainstream já usada nos anos 30 e 40 para designar, por exemplo, a União Soviética. Ora, o Orwell não apenas afirma que a URSS seria totalitária – para isso poderia ter construído a narrativa contra o comunismo – mas toda a forma de socialismo, na medida em que este último termo era considerado num sentido mto mais abrangente. Socialismo era o que se estava a construir na URSS. Socialista intitulava-se o Leon Blum. Reivindicavam-se socialistas, os sociais-democratas da ex-II Internacional (SPD, SFIO, Labour Party), os trotskistas, a III Internacional, os próprios anarquistas, conselhistas, outros radicais, etc. Ora, o que o Orwell vai fazer em “1984” de cunhar os três continentes de socialistas, serve, do meu ponto de vista, para intitular a URSS de totalitária, mas, vai ainda mais além, pois acaba por incluir no totalitarismo todo o tipo de socialismos em equação, independentemente da avaliação que possamos fazer de qualquer um deles.

            Mas mto mais importante do que esta questão é o facto de o Orwell ter escolhido o socialismo como “alvo temático”, não apenas no “1984” mas tb no “Animal Farm”. Sobre este livro seria interessante ouvir os que vêm aqui defender a pretensa pertença do Orwell ao campo do socialismo, quando neste livro a mensagem dele é mto óbvia e mto pouco confiante na democracia directa e de base: o Orwell faz quase uma reprodução da teoria das elites, saem as galinhas, vêm os porcos, mas a dominação de uma elite (mesmo que com um vocabulário revolucionário) sobre as massas manter-se-ia. Qualquer um que tenha lido o livro sabe perfeitamente que não apenas o exemplo soviético mas toda e qualquer tentativa de derrube do status quo redundaria, na óptica orwelliana, numa nova estrutura hierárquica.

          • José diz:

            De: blá, blá, blá… vácuo.
            xô, xô… deixe os adultos falarem, já lhe disse.

          • De diz:

            José:
            Agora voltou ao xô?

            Que tristeza ver uma coisa assim
            Basta agitar um pouco as águas e…
            Adiante

            Caro João Valente Aguiar:
            Percebi,percebo,o que quis dizer.
            E pode crer que se explicou bem

            Subscrevo o que disse

          • “a mensagem dele é mto óbvia e mto pouco confiante na democracia directa e de base” – em “Triunfo dos Porcos”, notoriamente o livro cuja referência ao sistema socialista é mais óbvio, a crítica não revela a pouca confiança na democracia directa e de base. Revela, isso sim, um desencando tremendo para com o sistema soviético, estalinista em particular, em que “saem as galinhas, vêm os porcos, mas a dominação de uma elite (mesmo que com um vocabulário revolucionário) sobre as massas manter-se-ia” (tal e qual sucedeu).

            Quanto aos insultos gratuitos de ignorância e de que não li nada do Orwell, são um clássico do João Valente Aguiar, ainda bem antes de entrar para o blog. De uma coisa é certa, se as acusações, ainda que numa menor escala, fossem em sentido inverso, logo viriam os apelos ao saneamento. Só que isto não é o comité-central…

        • João Valente Aguiar diz:

          Desde quando é que o reaccionarismo equivale ao nazismo? O Paulo Portas é reaccionário, não nazi.

          • José diz:

            Ok, entendido quanto ao reaccionarismo.
            Duas questões que permanecem:
            O estalinismo como deriva totalitária e o liberalismo como totalitário.
            O primeiro nunca foi totalitário?
            O segundo, com todos os defeitos que tem, velho ou neo, quando e onde foi/é totalitário?

        • De diz:

          Uma nota breve sobre uma petulante afirmação:
          ” a que liberalismo pretende colocar o labéu de totalitário?
          O liberalismo, neo ou old way, pode ser e é muita coisa.Totalitário?…”

          Eu sei a admiração pelo neo-liberalismo da personagem…

          mas há vasta literatura sobre o caso.
          Magníficas são estas páginas de Maurice Cury…o Título?
          “O liberalismo totalitário”
          http://www.scribd.com/doc/29196554/2-El-liberalismo-totalitario

          Pois é…é mesmo o que eu suspeitava…

      • miguel serras pereira diz:

        JVA
        basta ler a correspondência – enfim, parte – e as declarações do Orwell tardio para se verificar que ele continuou a reivindicar-se do socialismo (Cf. a carta à Duquesa de Atoll, a recusa de integrar os comités de “defesa da liberdade” patrocinados pela oligarquia, a oposição à restrição das liberdades a pretexto de policiar comunistas, etc.). É também evidente – para quem lê 1984 – que o regime do Ingsoc vai buscar ao nazismo o ingrediente racista das suas encenações.
        Quanto ao resto, não esperava vê-lo reabilitar tão sumariamente os Processos de Moscovo. Mas já que assim é, gostaria de saber se tem a mesma opinião sobre a liquidação e tortura de Andreu Nin e a perseguição do POUM – e a mesma opinião, em termos políticos, sobre os próprios Nin e POUM.

        msp

      • Sérgio Pinto diz:

        JVA,

        Extraordinário é você dar palpites sobre o que o JT leu ou não do Orwell quando é evidente que você está a leste de tudo o que ele escreveu (e que conseguiu tresler o pouco que terá lido).

        Do “Why I write”:
        The Spanish war and other events in 1936-7 turned the scale and thereafter I knew where I stood. Every line of serious work that I have written since 1936 has been written, directly or indirectly, against totalitarianism and for democratic Socialism, as I understand it. It seems to me nonsense, in a period like our own, to think that one can avoid writing of such subjects.

        Precisa que eu traduza?
        E, enfim, na verdade, a mais óbvia forma de crítica e oposição ao fascismo deveria ter sido o facto de se ter voluntariado para combater na Guerra Espanhola. Ah, mas claro, o POUM também era “social democrata” ou, quiçá, um bando de espiões ao serviço dos nazis…

        Por fim, alguém que afirma que os Processos de Moscovo como tendo apenas servido para livrar o estado de terroristas, que defende a perseguição e supressão do POUM (Nin também era um espião alemão, presumivelmente), em nada se distingue de um miserável canalha fascista.

        • João Valente Aguiar diz:

          Onde eu escrevi que o POUM devia ser suprimido?

          • miguel serras pereira diz:

            JVA,
            não escreveu isso directamente – mas ser-lhe-á difícil dar crédito aos Processos de Moscovo sem dar crédito às acusações contra o POUM e à necessidade de o eliminar em Espanha vindas da parte dos que, ao recomendar oficialmente essa linha, se gabavam de resto de ter eliminado o nazismo-trotskismo e os seus agentes na URSS.
            O paralelo ou, melhor, “identidade de natureza” entre o POUM (bem real) e as putativas organizações terroristas incriminadas nos Processos é constantamente afirmada pela imprensa oficial estalinista da época (e não só).
            A bibliografia sobre o tema é iemsa – de qualquer modo, basta referir, aqui e quase ao acaso, para seu esclarecimento a obra de Émile Témine e Pierre Broué sobre a guerra e a revolução espanolas, o Spanish Cockpit de Borkenau (ex-funcionário do Comintern), alguns dos textos que se encontram transcritos ou linkados no site da Fundacion Andreu Nin (e entre os quais se encontrará um documento do actual PSUC reconhecendo a eliminação de Nin e a falsidade das acusações lançadas sobre o POUM), os trabalhos de Beevor, de Victor Alba, etc., etc.

            msp

        • João Valente Aguiar diz:

          Sérgio Pinto,
          o Mário Soares tb se afirma como um socialista democrático. O Sócrates idem aspas. O Seguro idem idem…

          A mim o que me interessa no Orwell é a mundivisão (do meu ponto de vista, em nada coincidente com o socialismo, seja ela soviético, trotsquista, libertário…) presente nos seus romances mais importantes e conhecidos. Reproduzo por isso parte de um comentário meu publicado acima sobre o “Animal Farm”. Sobre este livro seria interessante ouvir os que vêm aqui defender a pretensa pertença do Orwell ao campo do socialismo, quando neste livro a mensagem dele é mto óbvia e mto pouco confiante na democracia directa e de base: o Orwell faz quase uma reprodução da teoria das elites, saem as galinhas, vêm os porcos, mas a dominação de uma elite (mesmo que com um vocabulário revolucionário) sobre as massas manter-se-ia. Qualquer um que tenha lido o livro sabe perfeitamente que não apenas o exemplo soviético mas toda e qualquer tentativa de derrube do status quo redundaria, na óptica orwelliana, numa nova estrutura hierárquica.

          • miguel serras pereira diz:

            E que me diz a isto, JVA?

            “Tanto quanto posso prever, é possível que, quando A Quinta dos Animais for publicada, o meu juízo sobre a União Soviética se tenha tornado uma opinião geralmente adoptada. Mas de que servirá isso? A substituição de uma ortodoxia por outra não é necessariamente um progresso. O verdadeiro inimigo é o espírito reduzido ao estado de gramofone, e isto vale quer se concorde ou não com o disco que passa no momento”.

            George Orwell (1945)

        • João Valente Aguiar diz:

          E sobre alguns dirigentes do POUM ouçamos um historiador que mto prezo, apesar de com ele partilhar mto poucos pontos de vista:

          «as acusações feitas contra o POUM pelos comunistas stalinianos têm sido em geral desprezadas por aqueles que não fazem parte da audiência cativa, mas existem indícios inquietantes. Afirma um reputado historiador que nos tempos seguintes ao levantamento militar Joaquin Maurín, o fundador do POUM, era dado como morto, surpreendido pela rebelião dos generais na zona que escapou ao controlo republicano. É outra, e grave, a versão de Garcia Oliver, mas não estaria ele a retroprojectar suspeitas posteriores? “as pessoas perguntavam, admiradas, o que sucedia com Maurin, chefe do POUM, detido, ao que parecia, na zona franquista, e que não tinha sido fuzilado”. Afinal, segundo o seu próprio testemunho, Maurin não fora sequer preso, conseguindo esconder-se durante meses, até passar a vaga de repressão mais sanguinária. Um historiador erudito e minucioso escreve: “Não temos conhecimento de qualquer republicano com uma categoria política equivalente à de José Antonio Primo de Rivera que tivesse caído nas mãos de Franco e salvasse a vida. Joaquin Maurin, que se encontrava na Galiza quando eclodiu a guerra civil, esteve preso durante vários anos e foi finalmente libertado, mas não sei de nenhum outro deputado republicano que tivesse sido libertado em tais circunstâncias”. Teve sorte [ironiza Bernardo].
          Sorte teve também o falangista Maximiano Garcia Venero, que algum tempo antes do levantamento militar fora estabelecer-se em Barcelona, cumprindo instruções de José Antonio. Derrotados os generais na Catalunha, Garcia Venero procurou fugir a bordo de um navio italiano, mas necessitava para isso de obter vistos no passaporte. Dirigiu-se a Julian Gorkin, um dos mais importantes dirigentes do POUM: “Gorkin e eu estávamos ligados por uma afectuosa amizade, que teve origem em afinidades literárias. Em certas ocasiões proporcionei-lhe alguns serviços amigáveis. Depois de ter a garantia de que era possível sair de Espanha num navio italiano, decidi visitar Gorkin para que me ajudasse a arranjar o visto, que devia ser duplo, do Comité de Milícias Antifascistas e da Chancelaria do Governo da Generalidad. Gorkin, que eu não via desde 1934, ignorava qual era a minha posição política naqueles dias de Julho. Expliquei-lhe que a minha presença em Barcelona era meramente fortuita, e ele ajudou-me, como era seu dever de amigo”. Aparentemente Garcia Venero teve uma sorte tão dupla como o visto, não só por um político da importância de Julian Gorkin desconhecer as suas actividades de falangista, mas ainda por o dirigente do POUM mostrar empenho em ajudar alguém que pretendia fugir do território da república, o que era um indício suficiente para causar fortes suspeitas. O pretexto da amizade literária não é convincente e talvez existissem a nível pessoal relações entre as áreas políticas da Falange e do POUM. Na medida em que se opunha à Terceira Internacional e recusara a filiação na Quarta Internacional, o POUM constituía, tal como o anarco-sindicalismo, um fenómeno especificamente espanhol, o que decerto contava na apreciação dos falangistas».
          João Bernardo (2003) – Labirintos do fascismo. Afrontamento, p.557-558

          Mais palavras para quê? (Evidentemente que este historiador critica imensamente o que chama de conservadorismo do PCE relativamente à transformação da guerra civil numa revolução, mas é sempre interessante confrontar quem vê romanticamente o POUM como se de uma agremiação imaculada e pura se tratasse com o que Bernardo luminosamente chamou de “As relações entre os fascistas e certos meios da extrema-esquerda” (p.552-558).)

          • miguel serras pereira diz:

            JVA
            V. descontextualiza e sobre-interpreta cientemente as citações do grande João Bernardo. Com efeito, se este se refere “luminosamente” às “relações entre os fascistas e certos meios da extrema-esquerda”, refere-se também, abundante e documentadamente, noutras passagens dos Labirintos às relações e cooperação na acção entre estalinistas e nazis, estalinistas e políticos burgueses… e assim por diante.
            Deve ter dado por isso, se leu o livro. Não?

            msp

          • João Valente Aguiar diz:

            É verdade MSP e por isso escrevi que «com ele partilho mto poucos pontos de vista», como quando ele equipara a Alemanha nazi à URSS como países que viveriam num novo modo de produção, o que ele chama de “escravismo de Estado”. Aqui eu estava-me a referir a este aspecto da Guerra Civil de Espanha onde essa secção sobre a relação de certo meios de extrema-esquerda com os falangistas é bem mais crítica para o lado do POUM do que do PCE. No restante, claro que ele é mto mais da sua praia. Mas se eu citasse um autor bolchevique, lá viria a ladainha de que era tudo invencionice. Assim, fui buscar um historiador diferente mas mostrar certas ligações no mínimo obscuras do POUM com falangistas.

          • miguel serras pereira diz:

            JVA,
            aqui tem esta declaração dos herdeiros do PSUC, sobre o POUM e Nin. A única coisa a acrescentar é que hoje não restam dúvidas quanto aos autores das operações que liquidaram Nin e outros e ilegalizaram o POUM. Quanto a relações pessoais entre fascistas, socialistas de diversas tendências, herdeiros dos bolcheviques, anarquistas, etc. – é um facto que eistiram e… que nada provam. Drieu protegeu comunistas e judeus; Aragon, fascistas – como Basílio Horta, entre nós, protegeu o ex-ministro do Trabalho Martins depois do 25 de Novembro, e assim por diante.
            Mais vale que leia a declaração, que é mais pertinente para o debate – parece-me.

            Declaración de Treball sobre Andreu Nin (1989)

            Esta declaración fue publicada en Treball, órgano del PSUC en diciembre de 1989, en el marco de una campaña desarrollada por la Fundación Andreu Nin para la aperturas de los archivos soviéticos a la investigación sobre el asesinato de Andreu Nin. Traducción del catalán por la Fundación Andreu Nin.

            La Fundación Andreu Nin ha enviado una carta al PSUC. En ella explican las acciones que han emprendido para conseguir el esclarecimiento de la desaparición y muerte de este gran dirigente del POUM. Coincidiendo con el período de glasnot (transparencia) abierto en la Unión Soviética, la Fundación reclama el acceso a los archivos y testimonios de aquel país. Ahora se están recogiendo firmas para una carta dirigida a diversas personalidades y organismos soviéticos, entre ellos Mijail Gorbachov. Nos han pedido que el PSUC se adhiera a sus solicitudes y realice gestiones para obtener una respuesta positiva. También reclaman nuestra adhesión colectiva y explícita. Además, la Fundación reclama de Treball una rectificación de “las calumnias que durante los años 36 y siguientes se publicaron en los órganos del PCE y del PSUC, donde se acusaba a Nin y a sus compañeros del POUM de agentes a sueldo del fascismo”.

            Este editorial se propone responder con toda claridad y solemnidad a las demandas solicitadas. Y lo hace claramente en un sentido positivo. Hace muchos años que el PSUC revisó críticamente los graves errores cometidos en el período estalinista. Estos errores no disminuyen el heroísmo y los aciertos que prodigó nuestro partido durante la guerra y en el largo período franquista posterior. En esta revisión no ahorramos la discusión sobre los hechos de mayo de 1937, de los que todavía hay muchas versiones legítimas. Recomendamos al que quiera profundizar en el tema la lectura de un artículo de Gregorio López Raimundo sobre aquellos hechos que aparece en el libro editado recientemente por la revista Nous Horitzons. En lo que se refiere a la muerte de Andreu Nin, consideramos necesario investigar los hechos reales. La hipótesis de la intervención de agentes estalinistas parece bastante probable para muchos de los conocedores de la materia. Si en la investigación aparecen responsabilidades ligadas al PSUC, no seremos nosotros los que las escondamos, sino todo lo contrario; muchos hechos de nuestra historia reciente demuestran la voluntad de transparencia que nos guía.

            Andreu Nin forma parte del cuadro de honor de los dirigentes de la izquierda catalana de este siglo. El conocimiento de su vida (y de su muerte) es una asignatura que tenemos que estudiar todos los que nos consideramos herederos de su generación. Por lo tanto, el PSUC y Treball rectifican una vez más, formal y definitivamente, cualquier calumnia contra Andreu Nin, se adhieren a las iniciativas de la Fundación Andreu Nin y abren las páginas de sus publicaciones a todas aquellas contribuciones que nos puedan llegar en memoria de este histórico dirigente del POUM.
            (http://www.fundanin.org/treball.htm)

            msp

            Post scriptum: recomendo-lhe também a leitura de um artigo de Maria Dolors Genovés, sobre a morte de Nin e as suas circunstâncias, no site da Fundacion Andreu Nin: http://www.fundanin.org/genoves.htm

  9. “esses sim bem mais desumanos do que os Processos de Moscovo (os primeiros envolveram e destruiram as vidas de milhares de artistas e cidadãos comuns; ao passo que os segundos se destinaram a depurar o Estado e o PCUS de terroristas e indivíduos ligados aos serviços secretos alemães e japoneses)” – Só terroristas e espiões foram alvos de purgas e da paranóia estalinista, portanto. Perante tal genialidade, não tenho muito mais a argumentar. A não ser perguntar-me a mim próprio se as pessoas acreditam mesmo nisto. Enfim, porque não? Não há tanta gente a acreditar nas coisas mais inacreditáveis?

  10. miguel serras pereira diz:

    Caro João Torgal,
    por muitas divergências que tenhamos, isso não me impede de saudar a coragem e a intenção do teu post.

    Quanto ao resto, é curioso que alguns dos que aqui denunciam a “lista” de Orwell – que se limita a enumerar nomes de pessoas cujas posições políticas eram públicas e conhecidas – como policial, ao mesmo tempo reabilite os Processos de Moscovo – essa farsa encenada por meio do recurso à falsificação, à calúnia, ao terror, à chantagem, e que não se limitou a exigir das vítimas confissões, mas tentou, pela tortura, torná-las cúmplices da infâmia dos algozes que os imolavam no altar da classe burocrática dominante em vias de consolidar o seu regime de exploração – como passo em frente na “construção do socialismo”.

    Acrescento apenas que, além do trabalho clássico de Bernard Crick e do ensaio de Ch. Hitchens sobre “a vitória de Orwell”, sobre a questão da lista, o que há a dizer é o seguinte: “La cuestión es bastante más sencilla y se conoce desde hace décadas, frente a quienes venden la existencia de un descubrimiento escandaloso efectuado por Timothy Garton Ash. Nunca existió una lista negra. Orwell simplemente comunicó a su amiga Celia Kirwan algunos nombres con los que se podía contar para determinadas actividades de denuncia del estalinismo y una lista de gente con la que no se podía contar. En su carta a Kirwan de 6 de abril de 1949 dice textualmente que le proporciona una lista de intelectuales ‘con los que no se podía contar para una propaganda semejante’. Hablar de delación es sencillamente una estupidez, sobre todo si se tiene en cuenta que las opiniones de esas personas eran suficientemente conocidas, que se sabe el motivo por el que hizo la relación y que nadie parece que tuviera la intención de utilizarla, ni la utilizó, para ninguna clase de represalia. Conociendo las opiniones de Orwell no es posible presentarle como un macartysta. Y el autor, no es nada inocente al utilizar la expresión lista negra”. A citação é de um texto de Juan Manuel Vera – no site da Fundacion Andreu Nin [http://www.fundanin.org/orwell-lista.htm#L4 ]. No mesmo site, há vários outros textos e testemunhos bem elucidativos sobre a evolução e posições de Orwell, bem como três ou quatro esclarecimentos suplementares sobre a questão da “lista” [http://www.fundanin.org/orwell-lista.htm#L4 ; e http://www.fundanin.org/aorwell.htm ].

    Saudações solidárias

    msp

  11. Pingback: Em defesa do Orwell (e do João Torgal) | cinco dias

  12. m diz:

    eu não estou nem aí nessas conversas intelectualoides de gente que não sabe dar uso ao kamasutra , mas se o orwell achava que não tinha de fazer qualquer esforço para mudar porque coño o hei-de fazer eu? eu e milhões de pessoas. e sim , era um tipo inferior , que agora , as moças emancipadas com bons salários , dão valor é aos canalizadores e pedreiros giros . sabem fazer e hora coca cola zero.. e dão luta : encontrá-los é mais díficil que achar uma agulha num palheiro. doutores há a pontapé.
    eu até gostava do orwell , mas depois deste lavar de roupa suja..prontos , fico-me com o huxley , que gostava de encher a cabeça. e era anti visionário : fantástico como tudo sendo diferente é tudo igual ( resumida a frase dele no Público , sobre o fantástico que é a História ). revisionista , o tipo. sábio.

  13. olarila diz:

    Já fostes saneado pelo amigo do gavinhoso dos pequeninos. Siga a rusga que é só rir.

  14. closer diz:

    Mais do que uma discussão sobre os méritos literários e pessoais do autor de 1984, o que ressalta neste vivo conjunto de argumentos, é o fanatismo reaccionário de alguns bloggers ligados ao PCP, designadamente Bruno Carvalho, Carlos Vidal e Jão Valente Aguiar. Curiosamente, o Tiago Mota Saraiva está calado (provavelmente envergonhado com as diatribes dos seus camaradas).

    O que eu gostava de perceber é que tipo de socialismo é que defendem, uma vez que os processos de Moscovo foram justos e correctos e apenas libertaram a URSS de terroristas e reaccionários. A questão é simples: o socialismo é indissociável da ditadura do proletariado, João Valente Aguiar? Estaline era de facto o pai dos povos e Jdanov um líder cultural exemplar? O que aconteceria aos não estalinistas se vocês tomassem o poder? Prisão com eles? Reeducação em campos de trabalhos à maneira maoísta?

    Eu gostava muito que vocês esclarecessem esta questão, que é, sem dúvida, muito mais interessante do que todas as discussões em torno do Orwell.

    Se vocês defendem de forma tão afincada e sem qualquer espírito crítico o modelo soviético de 1917 em diante, o que posso esperar, como anónimo militante do BE, se vocês um dia tomarem o poder? Ser considerado um reaccionário e arcar com as consequências dos meus delitos, ou alinhar na carneirada geral?

    Se vocês criticam a PIDE e a Gestapo porque é que defendem a GPU e a Stasi? Será que uma polícia política socialista é boa e uma polícia fascista é má? O Álvaro Cunhal era um herói e o Bukharine era um reaccionário e por isso a prisão do primeiro era ilegítima e a do segundo justifica-se? Será que os fins justificam os meios? Os mortos na URSS ou na RDA ou na China são por uma causa justa e os do Chile, da Alemanha nazi, ou do campo republicano em Espanha são mártires da revolução?

    PS: Sempre muito activo, estranho o silêncio ensurdecedor do Renato Teixeira. Será que o processo de «picaretização» está mais avançado do que eu pensava?

    • miguel serras pereira diz:

      Claro, caro Closer.
      É de supor que todos os intervenientes nesta caixa saibam que a “lista” de Orwell não denuncia coisa nenhuma – a não ser que por denunciar se entenda coisa parecida como você ou eu dizermos ou escrevermos que este e aquele, mais estoutro e aqueloutro, são bloggers próximos do PCP, apoiantes da CDU e acham o Avante! a expressão dialéctica superior da “verdade a que temos direito”.
      O que Orwell denunciou foi o estalinismo, a degradação do “socialismo” em sistema de dominação burocrático-policial em benefício de uma oligarquia detentora dos postos de comando da economia e dos meios coercivos, ditando a lei ad legibus soluta em função dos seus interesses de classe. E é isso – ter denunciado a mistificação dos que apregoam que o “socialismo” pode e deve suprimir a luta pela democracia cuja extensão é sua condição necessária – que faz com que a história da lista reapareça sempre que o nome de Orwell vem à baila, não vão mais alguns ler a Homenagem à Catalunha, o Recordando a Guerra Espanhola, e sabe-se lá que mais textos ainda.

      Saudações libertárias

      msp

      • José diz:

        MSP,
        A ser verdade a existência da “lista” de Orwell – e admito que tenha existido – parece-me evidente a sua falha de carácter, para ser simpático. Não me parece que valha a pena defender alguém que teve esse tipo de falha. A ser verdade, claro.
        O que parece ser verdadeiramente importante, não é a personalidade do autor, mas a sua obra.
        O Orwell era um bufo, a exemplo de tantos do Ocidente e do Leste? Que seja. A sua obra mantém-se, intocada, como marcante na cultura universal.
        Adoro a obra do Eça de Queirós, mas duvido que quisesse tê-lo no meu círculo de relações pessoais.

        • Tiago Vasconcelos diz:

          Obviamente que Orwell não foi um bufo. O que ele fez foi dar a sua opinião sobre quem não deviam escolher para trabalhar para o IRD. Uma simples consulta para um processo de selecção e recrutamento. O mesmo que se faz em todas as empresas, todos os organismos, todos os órgãos de imprensa de todos os países. Nenhum dos “candidatos” rejeitados sofreu quaisquer represálias ou teve quaisquer consequências negativas na sua vida.
          É obsceno ver este cortejo de comunistas, cúmplices morais de regimes totalitários e repressores virem aqui lançar pedras a um homem de grande mérito e dignidade.

          • De diz:

            “…uma simples consulta para um processo de selecção e recrutamento. O mesmo que se faz em todas as empresas, todos os organismos, todos os órgãos de imprensa de todos os países”

            Há frases (auto)assassinas.Esta é uma delas
            E repare-se no posicionamento serviçal e reverencial perante o mundo “empresarial”…

        • miguel serras pereira diz:

          Caro José,
          a lista existe – mas a sua natureza está longe de ser uma denúncia. De resto, sempre se soube – digamos, pelo menos desde a biografia monumental de Orwell por Bernard Crick, e mesmo antes – que a lista existia. O que se passa é que há uns anos um jornalista pouco inspirado resolveu “reinterpretá-la” e que essa leitura pegou, sendo aproveitada pelos estalinistas. Tudo isto é bem explicado não só pelos textos que cito acessíveis na Fundacion Andreu Nin, mas também por Ch. Hitchens, por exemplo (no seu livro La victoria de Orwell – trad. castelhana). E até mesmo os que, sem falsificar os acontecimentos, pensam que Orwell fez mal em comunicar a lista, mostram bem que não se tratava de uma denúncia, ainda que em legítima defesa.
          Dito isto, V. tem razão: não precisamos de fazer de Orwell um santo ou de esconder as suas contradições para atribuirmos à sua obra a importância literária e política que merece. Mas, já agora, em sua intenção e de outros potenciais interessados, deixe-me recoemndar aqui o seguinte texto de uma entrevista de Jean-Claude Michéa sobre a perinência, maior do que nunca, da lição orwelliana: “Orwell, la gauche, l’anti-totalitarisme et la ‘common decency'” – cf. http://raumgegenzement.blogsport.de/2010/02/24/jean-claude-michaa-orwell-la-gauche-laanti-totalitarisme-et-la-common-decency-2009/

          Saudações cordiais

          msp

        • a anarca diz:

          José !
          Que selectivo 🙂
          para mim que não passo de uma anarquesa (adorei este palavrão) seria um privilégio ter o Eça no meu circulo de amigos .
          O Eça com a sua fina ironia era um moralista.

          Perante acusações que foram feitas sobre o Orwell
          o Eça só perguntaria a cada um :
          Estavas lá …?!

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