Em defesa do Orwell (e do João Torgal)

Em 1999 saiu um livro da historiadora e jornalista inglesa Frances Stonor Saunders chamado Who Paid the Piper?: CIA and the Cultural Cold War. Eu tenho a edição americana (The Cultural Cold War: The CIA and the World of Arts and Letters, The New Press, Nova Iorque, 2000). Recomendo.

É uma excelente investigação sobre o Congress for Cultural Freedom, uma organização criada e financiada pela CIA que se dedicou a recrutar na Europa Ocidental intelectuais que pudessem ajudar a combater o sentimento anti-americano e combater a influência da URSS. Gente como Stephen Spender, Irving Kristol, Denis de Rougemont e Raymond Aron colaboraram activamente com a dita organização. O objectivo era recrutar ou então atirar lama para cima de intelectuais de esquerda – porque os de direita, entendiam eles, e bem, já eram «da causa».

Segundo Saunders, Orwell passou mesmo uma lista com comentários sobre outros escritores e intelectuais ao Foreign Office, o que é sem dúvida um acto desonroso, ainda que na tal lista, ao que parece, «homossexual» fosse a única qualificação que poderia causar problemas aos listados, já que era considerado um crime na altura. As restantes considerações eram inócuas: não era crime no Reino Unido ser «comunista», «judeu», «sentimental» ou «estúpido».

Porém, fazer considerações de mau gosto sobre outros intelectuais e deixar que cheguem às mãos do Foreign Office não me parece suficiente para apagar Orwell da lista dos grandes escritores e, pelo menos durante uma parte da sua vida, dos militantes corajosos, gente que como ele combateu em Espanha o fascismo de armas na mão. Homenagem à Catalunha ou O Triunfo dos Porcos são dois monumentos do século XX.

Finalmente, em rodapé, devo confessar que até me senti embaraçado ao ler alguém como o João Valente Aguiar defender os Processos de Moscovo e dizer que se destinaram a «depurar o Estado e o PCUS de terroristas e indivíduos ligados aos serviços secretos alemães e japoneses». Nem sei que diga!

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