Cuidado com o que vestes


Recepção dos bascos a carro da polícia que atravessa percurso de prova de ciclismo.

Em 1983, o Estado espanhol apresentou, pela mão do ministro do Interior José Barrionuevo, o Plano Zona Especial Norte. O documento lançava, então, linhas gerais com o objectivo de derrotar o independentismo basco através da intervenção política, social, legal e policial. Também nesse ano surgiram as primeiras acções terroristas dos GAL. Esta estrutura paramilitar foi mais uma entre os vários grupos criados, treinados e financiados pelo Estado espanhol para assassinar e torturar independentistas bascos.

Há poucos dias, contava-me um amigo que dentro da estratégia do Plano ZEN surgiu uma directiva policial muito curiosa. Todos os jovens que andassem de calças de ganga e com ténis deveriam ser considerados suspeitos. Com as raparigas mais bonitas havia que ter cuidado. A ETA preparava-as para seduzirem militares e polícias e, assim, recolher informações sensíveis. Dentro da paranóia securitária, surgia todo o tipo de medidas que, parecendo ridículas, tinham o objectivo de acurralar a juventude basca. Mas também de acalmar as forças de segurança.

Foi em 1985 que se deu o primeiro reconhecimento médico oficial de um estranho síndrome que só afectava os agentes estacionados no País Basco. O Ministério do Interior nunca reconheceu esta realidade. Só depois de muitos suicídios como consequência do Síndrome do Norte, o Estado espanhol decidiu preparar psicologicamente todos aqueles que fossem transferidos para a zona quente do conflito. A realidade é clara: as forças de segurança não são bem vistas no País Basco. A maioria dos agentes vive em quartéis, isolada do exterior e esconde a sua profissão quando questionada fora deles.

Também é assim no presente. A actual trégua reduziu a intensidade do conflito – que já vinha decrescendo nos últimos anos – mas não reduziu a violência policial e o ódio da população. Há dias, a polícia basca entrou num Gaztetxe (Casa da Juventude) de Vitoria-Gasteiz e carregou sobre quem lá estava. “Vocês estão em trégua mas nós não”, gritaram os agentes da Ertzaintza. Este corpo policial criado para aliviar a pressão sobre a polícia e o exército espanhóis nunca recebeu a simpatia dos cidadãos bascos. Se a palavra comum nas ruas para designar um polícia é txakurra (cão), aos Ertzainas apelidam-nos também de cipaios, como os nativos da Índia que combatiam integrados no exército inglês.

Na verdade, a velha premissa de que um jovem de calças de ganga e ténis é um potencial terrorista continua vigente. Hoje, a roupa de montanha, a sweatshirt com capuz e as calças desportivas, o típico penteado à Hernani e as argolas nas orelhas são motivos suficientes para que um agente peça os documentos a um basco. Como tudo o que tenha a ver com culturas alternativas: punks e skinheads. Na minha última viagem, assisti a uma cena caricata. Numa normal viagem de camioneta entre Ondarroa e Bilbau, fomos apanhados numa operação anti-terrorista da Guardia Civil. Vários agentes de metralhadora e cara tapada mandaram parar o autocarro. Um militar de cara descoberta subiu e olhou atentamente para todos os passageiros. Só pediu a identificação a dois. Precisamente aos que esteticamente assumiam algumas das características do que se diz ser o típico jovem radical independentista basco.

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6 respostas a Cuidado com o que vestes

  1. Gentleman diz:

    Qualquer dessas medidas securitárias são dignas de qualquer um dos estados socialistas que já existiram. Qualquer um, literalmente qualquer um deles tomou medidas repressivas análogas. Então porque é que essas medidas só incomodam o Bruno Carvalho e demais frequentadores deste blogue unicamente quando são levadas a cabo por estados capitalistas?
    Há aqui uma incoerência de base insanável.

    • De diz:

      Uma incoerência de base,diz este curioso sujeito.
      Curioso pelo que diz e pela forma como o faz
      É que de cada vez que lhe apontam casos concretos do modo de estar desta nossa sociedade doente e apodrecida,salta logo com os exemplos dos “estados socialistas que já existiram”

      Curiosa a insistência na tecla velha da velha técnica
      Arranjar parcerias para esconder as patifarias que se pretendem esconder

      Não há qualquer “incoerência de base insanável” para “gentleman”.
      Há outra coisa

      Quanto à coerência dos outros que este “gentleman” põe em causa…


      Ele que vá buscar “erros morais ” a outro sítio (http://5dias.net/2011/09/11/do-chile-a-nicaragua/#comments)

    • Camarro diz:

      E a contabilidade? Falta a contabilidade, pá! Diga lá quantos milhões foram: 20, 30, 100? Quais são os números em que vai apostar hoje?

    • Carlos Carapeto diz:

      Em que Estados Socialistas viste isso?
      Se viste (mentira) achas que uma situação justifica a outra? Na tua perspetiva reacionaria parece que sim.

  2. Von diz:

    Repito o que já escrevi da primeira vez que vi este vídeo: ridículo. Apedrejar um carro de polícia, que se limita a controlar o percurso, perigando inclusivamente a vida de outros espectadores, é básico, primitivo e criminoso.

  3. mamamia diz:

    gentleman,dê um abraço a esse monstro da reserva moral do psd duarte lima.Dias loureiro,cardoso e cunha,valle eazevedo,ao caruncho da Madeira e sus muchachos,etc ,enfim,já agora também para o governo do independente Kosovo,uma terra de felizes empreendedores/comerciantes de órgãos.Mas não são órgãos instrumentos musicais….
    De qq modo eram estados ditatoriais,estes são estados bitatoriais,portanto não venha com lições.O q o sr. é,é a favor do parasitismo,da ignominia,da exploração(está-se a lembrar do trabalho escravo na ,so called,Grã-bretanha?)………

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