A direcção do Público não lê o Público

O lado bom da Parque Escolar

A PE tem uma dívida de 940 milhões, mas tem também obra útil: mais de cem escolas requalificadas.
O pecado maior da Parque Escolar (PE) é ser produto de uma época que já não existe. Quando o impacte da crise financeira começou a tornar-se evidente e as instâncias internacionais, incluindo a União Europeia, começaram a pedir aos governos medidas keynesianas para a travar, a Parque Escolar foi uma boa ideia; agora que, na sequência da crise, o défice orçamental e a dívida pública atingiram uma dimensão incontrolável, a PE transformou-se num mal cuja raiz tem de ser atacada. Por isso, e ainda antes de se julgar o passado da empresa e o seu objecto, temos o dever de relevar o contexto que justifica as incertezas que sobre ela pairam. Só assim se pode evitar a arriscada tentação de se elogiarem todos os cortes e todos os ataques a empresas de capitais públicos apenas porque existem. No caso da PE, será impossível não concordar que o resultado da sua acção é meritório: mais de cem escolas foram requalificadas e mais 72 estão em obras, acabando em muitos casos com espaços educativos degradados ou obsoletos. Depois, não se pode dizer que o seu objecto seja confundível com a natureza das “grandes obras públicas” que se transformou numa das principais discussões políticas nos últimos anos: em causa estão pequenas ou médias obras que alimentaram de forma disseminada o emprego e as empresas por todo o país. Chegados aqui, há uma dívida de 940 milhões para pagar, mas neste caso sabemos ao menos onde foi gasto o dinheiro e com que utilidade. Percebe-se que o Governo queira travar novas adjudicações, mas a menos que se descubram irregularidades na gestão (que o Tribunal de Contas nunca detectou), há boas razões para se poupar a PE ao coro de críticas justas que se fazem a muitas empresas públicas. (…)

O editorial que a direcção do Público dá hoje à estampa, e que aqui reproduzo parcialmente, tem pano para mangas. Eu fico-me pela constatação que quem escreve que “há boas razões para se poupar a PE ao coro de críticas justas que se fazem a muitas empresas públicas” dirige o órgão de comunicação social que tem publicado o trabalho mais sério e competente sobre a Parque Escolar (basta googlar). A desinformação que a prosa estimula fica bem atestada pelo facto de se fazer valer do valor da dívida que o DN ontem referia (940 milhões), que na sua tradição recente replica um spin simpático a Sócrates, e que o Público e outros órgãos de comunicação social mais fiáveis, sempre informaram ser superior (2 mil milhões). Acresce que a direcção do Público deverá ter uma fonte privilegiada que lhe permite afirmar perentoriamente que o Tribunal de Contas nunca detectou qualquer irregularidade, tendo certamente na sua posse os resultados da auditoria que o comum dos mortais e os seus jornalistas desconhecem.

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7 Responses to A direcção do Público não lê o Público

  1. am diz:

    um editorial em “forma dissimulada”, perdão, em “forma disseminada” (disse-minada”!?…)

  2. José diz:

    Sim, realmente é de ficar boquiaberto…
    Para quem acompanha o Público e ler agora este editorial, a pergunta mais suave só pode ser mesmo se a direcção não lê o seu próprio jornal…

  3. jf diz:

    Esta do Parque Escolar foi de facto das melhores golpadas que a “comandita” da construção civil espetou nos últimos anos.
    Estouram-se milhões em adjudicações directas para os amigos e em obras desnecessárias e depois é só esperar pelas críticas para depois argumentar que as pobres das criancinhas precisam de espaços condignos para aprender (afinal as crianças de hoje são o futuro de amanhã!).
    Não interessa se se requalificam duas escolas uma ao lado da outra, quando se encontram ambas a metade da sua capacidade.
    O que interessa é “pôr o dinheiro a circular” e como dizia um determinado interveniente; “o orgulho de pertencer a um país que tem em marcha um programa como o Parque Escolar”.
    Esta retórica da Parque Escolar lembra aquelas palavras fortes que agora estão na moda como o “património” e o “verde”. Servem de justificação para tudo e a maior parte das vezes não querem dizer nada.
    Já dizia a avozinha que “com papas e bolos se enganam os tolos” e o Público mostrou-nos que é mais bolos…

    • André diz:

      “Não interessa se se requalificam duas escolas uma ao lado da outra, quando se encontram ambas a metade da sua capacidade.”

      Consegue dar um exemplo?

      E após a requalificação, não encontra nenhuma escola abaixo da sua capacidade.
      É melhor distribuírem uns cheques-ensino, em vez de requalificar escolas públicas. Deixá-las a cair de podre e encher os privados, isto sim seriam boas políticas públicas.

      (Sou Director de Escola Secundária Pública)

      • jf diz:

        consigo:
        escola secundária rodrigues de freitas e escola secundária carolina michaelis.
        Há mais de 10 anos que põe a possibilidade de fechar pelo menos uma delas.
        a rodrigues de freitas já foi a maior escola do país com 6 mil alunos e neste momento tem 1500.
        a carolina michaelis sempre teve menos alunos… não posso precisar quantos
        Do que se fala aqui é da forma como é tratada a informação do Público e como se desbaratou o dinheiro sem concursos públicos e sem controlo nenhum sobre a forma como se adjudicaram obras.
        Mas mal se fala em chavões como “escola pública” e “verde” e “património” lá vem a multidão exaltada na sua defesa sem reparar que ninguém está a colocar em causa a escola pública. Tem de ver o contexto em que se escrevem os comentários.

        (Sempre fui aluno de Escola Pública)

        • André diz:

          Mau exemplo.

          Há 4/5 anos o Rodrigues de Freitas tinha poucos alunos, 500 a 600, neste momento está acima da capacidade, com mais de 900 alunos.

          O Conservatório, instalado no mesmo edifício, tem 800.

          O Carolina tem 1100.

          Alunos mais do que suficientes. E mesmo no caso de subocupação, escolas centenárias, num país decente, não se encerram às duas pancadas.

  4. poispois diz:

    O Rodrigues de Freitas tem o Conservatório a ocupar instalações onde anteriormente funcionava o FCDEF.
    Neste momento tem todos esses alunos devido ao “esvaziar” da vizinha escola da Torrinha. Dizer que está acima da sua capacidade só se for por número insuficiente de docentes, porque as instalações estão longe de estarem cheias.
    Seja como for, também não percebo o porquê de haver dinheiro para fazer essas obras (revestir soalhos com linóleo é péssima ideia, apodrece…) e ao lado a Escola Irene Lisboa continuar sem pavilhão desportivo. São prioridades…

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