As respostas que nunca te darei

Gaddafi é um fantasma, está em todo o lado e em lado nenhum. Qualquer casa destruída era a sua gruta e qualquer civil morto era o seu sniper. Um Globo de Ouro para Cândida Pinto, já convenceu de que a OTAN não dizima e de que os bons só matam os maus, “eventualmente”.

Onde foi o corpo morto encontrado?
Quem encontrou o corpo morto?
Estava morto o corpo morto quando foi encontrado?
Como foi o corpo morto encontrado?

Quem era o corpo morto?

Quem era o pai ou filha ou irmão
Ou tio ou irmã ou mãe ou filho
Do corpo morto e abandonado?

Estava morto o corpo quando foi abandonado?
O corpo foi abandonado?
Por quem foi ele abandonado?

Estava o corpo morto nu ou vestido para viagem?

O que te fez declarar morto o corpo morto?
Declaraste morto o corpo morto?
Conhecias bem o corpo morto?
Como soubeste que o corpo morto estava morto?

Será que lavaste o corpo morto
Será que lhe fechaste ambos os olhos
Será que enterraste o corpo
Será que o deixaste abandonado
Será que beijaste o corpo morto

“Death” (“Morte”), o poema de Harold Pinter na tradução de Jorge Silva Melo.

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22 respostas a As respostas que nunca te darei

  1. Leo diz:

    Tive a pachorra de assistir ao jornal de SIC. E fiquei para morrer quando vi a fulana a a entrevistas um ciático qualquer norte-americano e como se isto não fosse suficiente a anunciar que a “reportagem” da noite é sobre o tal complexo de Tripolí. Mas aposto com qualquer um que a Cândida nunca dirá que apenas em 5 meses a NATO o bombardeou 64 vezes!

    Na TVI a coisa não foi melhor. Resolveram ir entrevistar a família lisboeta que se mantém em Tripoli.

    E da do Paulo Dentinho nem me lembro. mas ficou-me no ouvido que na reportagem da noite passa a reportagem que fez com o director do HRW, de Washington!

    Temos pois três equipas de televisão na Líbia que nada nos contam da realidade local e se limitam a falar com os “nossos” e como peça de resistência mostram as gavetas dos armários onde supostamente a família de Ghadafi guardava as cuecas. As mesmíssimas “reportagens” que andamos fartos de ver nas Aljazeera’s, CNN, Sky, France 24, BBC, etc! nos últimos dias.

    É isto a “informação” a que no ocidente temos direito. Cada vez nos tornamos mais irrelevantes e mais ninguém em parte alguma liga aos media ocidentais.

  2. mário martins diz:

    Também há globo de ouro para a imbecilidade e subserviência propagandística?
    Há,pois,são quase todos.
    mário

  3. De diz:

    A náusea que acompanha o cheiro nauseabundo das notícias…

    a que só Harold Pinter consegue trazer algum lenitivo.
    bem como a excelência da associação dos vídeos

  4. pappy diz:

    http://www.globalresearch.ca/
    É dos sítios onde se ainda se pode informar e aprender algo.
    A enfezada da dita cu(or)ja, só diz o q as corporeações quer,Bilderbergs e quejandos,por isso ganha muitos prémios-isto é:esta é a mneira de enformar,formatar as mentes probezinhas.Orwelll não tinha tanta imaginação….
    Já tou a ver o movie:vai ganhar pq teve a vida por um fio ameaçada pelas hordas do Gadafi.Qtos aos q foram ameaçados pelos ‘jornalistas’ da CNN e outros que tais-a história não sai nos anais…

  5. João Valente Aguiar diz:

    Uma vergonha de servilismo jornalístico!

  6. Pascoal diz:

    A Candida não é aquela que andou a passear lenços de cabeça no Iraque ou no Afeganistão e que foi também de lenço fazer uma entrevista ao embaixador já não me lembro donde?

    • Leo diz:

      Os da Sky, BBC, andam com uns lenços ensebados ao pescoço, esta não se suja, desconfio que até vai ao cabeleireiro todos os dias.

      Espero bem que aproveite estes tempos de liberdade na Líbia. É que não tarda muito que por lá, Egipto, Tunísia volte a ortodoxia do vestuário. Pelos crimes e asneiras do ocidente cheira-me que a maré vai encher pelas bandas dos partidos de inspiração islamista.

    • Antónimo diz:

      Essa do lenço do embaixador é a Márcia Rodrigues, mas não estou a ver que as senhoras possam andar por aquelas bandas de cabeça descoberta. É assim como mulher de Presidente que vá ver o Papa, mas em formato mais alargado.

      • Leo diz:

        Por aquelas bandas – e pela Tunísia e Egipto actual tal como pelo Iraque do tempo do Saddam, ou pelo Afeganistão de há 30 anos atrás – as mulheres podem/podiam andar como bem querem/quisessem.

  7. Leo diz:

    Ainda não vi a “reportagem” da Cândida do telejornal da noite mas o pior de todos – perfeitamente anacrónico – tem sido desde o princípio o Dentinho. Hoje então bateu todos os recordes da manipulação, desinformação e estupidez. Até parecia que estava a concorrer com o Moreno do TPI ou com a Amanpour da CNN quando da guerra da NATO contra a Jugoslávia. Que já foi no século passado. Mas continuam com as mesmas receitas, truques e manhosices.

    Bem fazem os árabes e os africanos que se estão marimbando para as cadeias de televisão ocidentais, têm as suas próprias cadeias e não ligam às do ocidente. E é disto que muitas vezes nos esquecemos: isto é apenas para consumo ocidental, para nos manterem submissos.

    • Leo diz:

      Correcção: o tal “ministro da informação” ou porta-voz CNT que antes tinha o escritório em Washington chama-se Mahmoud Shamman. O que por lapso indiquei tem um passado ainda mais colorido (começou no Afeganistão a lutar contra os soviéticos), foi indicado para governar Tripoli… fica para outra ocasião a história deste.

  8. Leo diz:

    Estõu agora a ver a “reportagem” da Cândida. Com uns 6 dias de atraso repetiu o que Sky, CNN, BBC, Aljazeera, France 24 estão fartos de explorar: a “casa de Ghadafi”.

    Que é, como qualquer banal cidadão sabe o, palácio presidencial líbio. Mas ela acha perfeitamente natural andar a vasculhar as gavetas das cuecas do líder líbio. Tenho a certeza que ficaria muito indignada se alguém vasculhasse as gavetas das cuecas do Cavaco, rainha de Inglaterra, Sarkozy ou mesmo do Berlusconi.

    Não é por acaso que todas as cadeias ocidentais tratam os mesmos temas. Vi hoje a Conferência de Imprensa do “ministro da informação” do tal CNT. É nada mais nada menos que um tal Abdel Hakim Belhadj que em Março já tinha o mesmo cargo mas tinha o escritório em Washington. O mais curioso é que esta Conferência de Imprensa se realizou no Hotel Corinthia, o mesmo para onde se mudaram os jornalistas estrangeiros.

    A agenda dos media ocidentais está pois a ser ditada directamente do Departamento de Estado norte-americano. Sem margem para qualquer dúvida.

  9. Morcego diz:

    Este texto que vi no resistir.info sintetiza o que penso sobre este assunto.

    Não sei se é hábito a publicação de textos alheios na caixa de comentários mas, de qualquer forma, cá vai:

    Líbia: a intervenção dita “humanitária” da NATO
    por Viktor Dedaj

    Enviar pirómanos para extinguir um incêndio, queimar a floresta para salvar as árvores, bombardear a população para poupar civis, lançar campanhas de terror em nome do combate contra o terrorismo, promover a democracia apoiando ditadores, monarquias, terroristas e outros gangsters de toda espécie… a lógica dos dirigentes ocidentais é imparável.

    Durante este tempo, a organização dos media de massa bombardeia as consciências até obter a sua rendição. E é assim que você acorda um dia com o sentimento de que sempre foi favorável às privatizações. Com a crença de que os Taliban sempre foram nossos inimigos. Que esta Europa é a única que vale a pena. Que você compreende muito bem que não se poderá pagar vossa aposentadoria. E que a NATO é uma espécie de serviço internacional de ambulâncias.

    Hoje, 21 de Agosto, a última notícia: “os rebeldes entraram em Tripoli”. Depois de semanas de “os rebeldes líbios avançam”, “os rebeldes controlam a cidade de…”, os “rebeldes anunciam…”. É cómico como o actor principal destes acontecimentos, a NATO, consegue tornar-se discreta nos noticiários.

    Para ver a dificuldade que estes rebeldes tiveram para avançar num país plano, pouco povoado, onde os seus mestres tinham e têm o domínio total do céu – condições ideais para uma tal campanha – e onde (vantagem suprema) o povo seria “apoiante da sua causa”, é evidente e claro que os “rebeldes líbios” jamais representaram grande coisa, chegando até a matarem-se entre si e a eliminar o seu próprio comandante em chefe (e isto nas condições “ideais”).

    Dito isso, a menos que haja um golpe de teatro, eles “ganharão”, cedo ou tarde, isto é certo. E como poderia ser de outra maneira? Quando o bastão redondo da propaganda não entra no buraco quadrado da realidade, a NATO encarrega-se de arredondar os ângulos.

    Apostamos que não faltarão nessa altura algumas sombras embrutecidas para chafurdarem nos nossos écrans a gritarem “ganhámos”! E dizer que há alguns meses eles mal sabiam pronunciar o nome do país. Mas a verdade é que a história já provou que eles haviam errado, que eles erram, e a questão do “combate” não mudará isso.

    Tripoli resistirá? Quanto tempo? Horas, dias? E subitamente as apostas são abertas e eis-nos projectados na lotaria local. Eles falarão sem dúvida de “partidários de Kadafi” (um certo número) e nunca “dos líbios opostos à intervenção imperialista” (provavelmente mais numerosos). Eles nos mostrarão algumas imagens de multidões em regozijo. Utilizarão eles imagem tomadas outrora em Bagdad? Encontrarão eles finalmente os 6000 líbios assassinados “pelo regime” ou mudarão de assunto, como no caso das armas de destruição maciça?

    Portanto, “se irá ganhar”. A questão que me intriga é saber quem é o “se” e o que é que terá sido “ganho”. É louco como se esquiva sistematicamente esta questão interessante. Eu sei que este “se” não sou eu, nem tão pouco você (qualquer que seja a vossa opinião sobre esta operação da NATO). Sei também que não é a imensa maioria da população líbia que certamente tinha uma outra ideia da Primavera árabe.

    Esta manha (21 de Agosto), a imprensa nos explica que uma brigada rebelde de elite está impaciente às portas de Tripoli. Ela nos explica sem pestanejar que alguns dos 600 homens têm a “dupla nacionalidade americana e líbia”… que o seu chefe fala “com uma forte pronúncia irlandesa”, um “atirador de elite” que “passou a maior parte da sua vida em Dublim”, que está “em contacto permanente com as forças da NATO”. E eu me digo: “aí está, nem um líbio para dirigir a brigada de elite da rebelião?”. E também: “se não se trata de mercenários, eles parecem furiosamente”. Mas a ideia não perambula no meu espírito pois o lugar já estava ocupado por esta outra ideia recentemente martelada pelos media: é Kadafi que emprega mercenários (“negros e drogados”).

    Sim, doravante temos a indicação de que “se” ganhou: um líbio puro, como já não há nas tribos. Ele usa Ray Ban, masca chewing-gum, fala com uma forte pronúncia irlandesa e o seu passaporte líbio é provavelmente muito belo, inteiramente novo e ainda deve cheirar a tinta fresca. E tenho o sentimento confuso que se lhe perguntasse “e Bagdad, como era?”, ele responderia “no comment”.

    Então, após meses de bombardeamentos de toda espécie, tenho de me render… à evidência. E dizer que deixei de duvidar desta história de intervenção humanitária.

    PS: último minuto, na categoria do “eles ousam tudo”. Um porta-voz da NATO declara que a missão da Aliança é proteger a população civil e não tomar partido por um dos dois campos. Orwell, tu és um amador.
    21/Agosto/2011
    O original encontra-se em http://www.legrandsoir.info/...

  10. Carlos Vidal diz:

    Nunca vi esta coisa como jornalista.
    Com o seu ar piegas e choramingas, de imediato procura uma empatia com o “sofrimento” da parte que convém aos donos das notícias. Cá e lá (na NATO, entenda-se).
    Excelente post Helena, pela combinação “notícia fantasma” e Pinter.
    Mas o pior é que os fantasmas e o sofrimento é real. O sofrimento de quem está do lado oposto desta Cândida.

  11. Pingback: Na Líbia de hoje, não há heróis | cinco dias

  12. ezequiel diz:

    O fantasma bazou para a Argélia. lol (dá pa rir?)

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